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Livros Gracejos
de fardão Faltam risos na sátira
condescendente da Academia Brasileira de Letras que Jô Soares faz
em seu novo livro 
Jerônimo Teixeira
Divulgação  |
| Jô Soares: citações machadianas e reclames de xarope
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Embora tenha conhecido explosões
esporádicas, a literatura de entretenimento não firmou uma tradição
sólida no Brasil. Em um texto dos anos 80, o poeta José Paulo Paes
dizia que todo escritor brasileiro sonha em ser Gustave Flaubert ou James Joyce
e nenhum se dispõe a ser Alexandre Dumas ou Agatha Christie. Estreando
como romancista em 1995, o apresentador Jô Soares é uma bem-sucedida
exceção O Xangô de Baker Street e O Homem
que Matou Getúlio Vargas venderam juntos mais de 1 milhão de
exemplares. Os livros de Jô não vão mudar a história
da prosa em língua portuguesa nem pretendem conduzir o leitor ao "caminho
da luz", como é o caso de outro escritor popular, Paulo Coelho. Eles se
destinam à leitura rápida e descompromissada na poltrona do avião
ou ao lado da piscina. A nova investida literária do autor, Assassinatos
na Academia Brasileira de Letras (Companhia das Letras; 256 páginas;
35 reais), retoma a fórmula de paródia policial com cenário
de época que fez o sucesso de Xangô. Ambientada no Rio de
Janeiro, em 1924, a história fala sobre um serial killer que envenena os
integrantes da Academia Brasileira de Letras. O argumento tem um potencial cômico
evidente poucas instituições brasileiras são mais
parodiáveis que a ABL, com suas reuniões de velhinhos de fardão
em torno do chá com bolo. O problema é que, entre o policial e a
paródia, o romance histórico e a crônica de costumes, o coquetel
humorístico de Jô desandou. Ainda
que o autor se esforce para ocultar a identidade do assassino, o enredo criminal
é previsível. O herói é Machado Machado, comissário
que deve seu nome duplo à admiração que o pai nutria por
Machado de Assis. Fiel à homenagem, ele tem uma citação machadiana
pronta para qualquer eventualidade e essa mania de literato suburbano é
o máximo de brilhantismo que demonstra como investigador. De qualquer forma,
os crimes têm menos importância do que a instituição
que congrega as vítimas. Assassinatos é um retrato brincalhão
mas condescendente da ABL. A despeito de seus fumos europeus, a Academia descrita
por Jô abrasileirou-se perfeitamente, absorvendo os vícios da política
local. Para conquistar uma cadeira na "casa de Machado de Assis", conchavos, compadrios
e "pistolões" valem mais que méritos literários. O livro
faz até uma referência velada a uma rusga recente entre dois imortais
(um dos membros da academia fantasiosa de Assassinatos joga um copo de
refrigerante na cara de outro, assim como Lêdo Ivo jogou água em
Eduardo Portella em uma festa, no ano passado). Mas não custa lembrar que
já se especulou sobre uma possível "imortalização"
de Jô Soares em 2001, quando a cadeira ocupada por Jorge Amado ainda
estava vaga, Jô sondou suas possibilidades ao entrevistar, em seu programa,
a escritora e imortal Nélida Piñon. Assassinatos não
derruba as chances de ele um dia envergar o fardão. Apesar de todos os
seus pecadilhos de vaidade, os imortais do romance são, em geral, figuras
simpáticas. Jô não ousa matar (nem criticar) os "verdadeiros"
imortais. Todos os quatro acadêmicos assassinados são personagens
ficcionais. Os verdadeiros acadêmicos da época, como Graça
Aranha e Coelho Neto, só fazem uma rápida figuração.
Aliás, o que não falta no romance
são figurantes de luxo, como o ator Procópio Ferreira e o cantor
Francisco Alves. A aparição desses nomes legendários faz
parte do esforço de compor a ambientação de época.
Jô desce a detalhes como marcas de tintura de cabelos e reclames de remédio
para bronquite. Há um certo afã de arquivista nessa reconstituição
de miudezas, como se o autor quisesse demonstrar que fez, sim, pesquisa sobre
o período representado. E até a prosa arremeda o beletrismo de então.
Tem "momento de plena entrega" para descrever um orgasmo e outras coisinhas dignas
do imortal Coelho Neto. Dá para fazer humor com esse fraseado solene? Bem,
Jô é humorista profissional: o leitor pode contar com tiradas como
"latim para mim é grego" para despertar seu mais espontâneo sorriso
amarelo. De quebra, ainda tem umas gracinhas gráficas páginas
compostas como folhas de jornal, vinhetas, figurinhas para descansar os olhos.
Para ser um exemplo de boa literatura de entretenimento, só ficou faltando
uma coisa a Assassinatos na Academia Brasileira de Letras: divertir.
| Erotismo instantâneo "Machado
deu por encerrado o interrogatório. Beijou a embaixatriz, sorvendo-lhe
os lábios úmidos e macios, enquanto fazia deslizar o cetim do vestido.
Manuela retribuía, a língua quente provocando-lhe o desejo, nessa
altura incontrolável. O detetive arrancou o paletó, tirou o incômodo
coldre de ombro que aninhava o inseparável Colt, deitou fora as algemas
no chão do carro, livrou-se do que restava de suas roupas, e em menos de
um minuto os dois faziam amor, entrelaçados sobre o extenso banco de couro."
Trecho de Assassinatos na Academia
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