Edição 1903 . 4 de maio de 2005

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Livros
Gracejos de fardão

Faltam risos na sátira condescendente
da Academia Brasileira de Letras que
Jô Soares faz em seu novo livro


Jerônimo Teixeira


Divulgação
Jô Soares: citações machadianas e reclames de xarope

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Trecho do livro

Embora tenha conhecido explosões esporádicas, a literatura de entretenimento não firmou uma tradição sólida no Brasil. Em um texto dos anos 80, o poeta José Paulo Paes dizia que todo escritor brasileiro sonha em ser Gustave Flaubert ou James Joyce – e nenhum se dispõe a ser Alexandre Dumas ou Agatha Christie. Estreando como romancista em 1995, o apresentador Jô Soares é uma bem-sucedida exceção – O Xangô de Baker Street e O Homem que Matou Getúlio Vargas venderam juntos mais de 1 milhão de exemplares. Os livros de Jô não vão mudar a história da prosa em língua portuguesa nem pretendem conduzir o leitor ao "caminho da luz", como é o caso de outro escritor popular, Paulo Coelho. Eles se destinam à leitura rápida e descompromissada na poltrona do avião ou ao lado da piscina. A nova investida literária do autor, Assassinatos na Academia Brasileira de Letras (Companhia das Letras; 256 páginas; 35 reais), retoma a fórmula de paródia policial com cenário de época que fez o sucesso de Xangô. Ambientada no Rio de Janeiro, em 1924, a história fala sobre um serial killer que envenena os integrantes da Academia Brasileira de Letras. O argumento tem um potencial cômico evidente – poucas instituições brasileiras são mais parodiáveis que a ABL, com suas reuniões de velhinhos de fardão em torno do chá com bolo. O problema é que, entre o policial e a paródia, o romance histórico e a crônica de costumes, o coquetel humorístico de Jô desandou.

Ainda que o autor se esforce para ocultar a identidade do assassino, o enredo criminal é previsível. O herói é Machado Machado, comissário que deve seu nome duplo à admiração que o pai nutria por Machado de Assis. Fiel à homenagem, ele tem uma citação machadiana pronta para qualquer eventualidade – e essa mania de literato suburbano é o máximo de brilhantismo que demonstra como investigador. De qualquer forma, os crimes têm menos importância do que a instituição que congrega as vítimas. Assassinatos é um retrato brincalhão mas condescendente da ABL. A despeito de seus fumos europeus, a Academia descrita por Jô abrasileirou-se perfeitamente, absorvendo os vícios da política local. Para conquistar uma cadeira na "casa de Machado de Assis", conchavos, compadrios e "pistolões" valem mais que méritos literários. O livro faz até uma referência velada a uma rusga recente entre dois imortais (um dos membros da academia fantasiosa de Assassinatos joga um copo de refrigerante na cara de outro, assim como Lêdo Ivo jogou água em Eduardo Portella em uma festa, no ano passado). Mas não custa lembrar que já se especulou sobre uma possível "imortalização" de Jô Soares – em 2001, quando a cadeira ocupada por Jorge Amado ainda estava vaga, Jô sondou suas possibilidades ao entrevistar, em seu programa, a escritora e imortal Nélida Piñon. Assassinatos não derruba as chances de ele um dia envergar o fardão. Apesar de todos os seus pecadilhos de vaidade, os imortais do romance são, em geral, figuras simpáticas. Jô não ousa matar (nem criticar) os "verdadeiros" imortais. Todos os quatro acadêmicos assassinados são personagens ficcionais. Os verdadeiros acadêmicos da época, como Graça Aranha e Coelho Neto, só fazem uma rápida figuração.

Aliás, o que não falta no romance são figurantes de luxo, como o ator Procópio Ferreira e o cantor Francisco Alves. A aparição desses nomes legendários faz parte do esforço de compor a ambientação de época. Jô desce a detalhes como marcas de tintura de cabelos e reclames de remédio para bronquite. Há um certo afã de arquivista nessa reconstituição de miudezas, como se o autor quisesse demonstrar que fez, sim, pesquisa sobre o período representado. E até a prosa arremeda o beletrismo de então. Tem "momento de plena entrega" para descrever um orgasmo e outras coisinhas dignas do imortal Coelho Neto. Dá para fazer humor com esse fraseado solene? Bem, Jô é humorista profissional: o leitor pode contar com tiradas como "latim para mim é grego" para despertar seu mais espontâneo sorriso amarelo. De quebra, ainda tem umas gracinhas gráficas – páginas compostas como folhas de jornal, vinhetas, figurinhas para descansar os olhos. Para ser um exemplo de boa literatura de entretenimento, só ficou faltando uma coisa a Assassinatos na Academia Brasileira de Letras: divertir.

 

Erotismo instantâneo

"Machado deu por encerrado o interrogatório. Beijou a embaixatriz, sorvendo-lhe os lábios úmidos e macios, enquanto fazia deslizar o cetim do vestido. Manuela retribuía, a língua quente provocando-lhe o desejo, nessa altura incontrolável. O detetive arrancou o paletó, tirou o incômodo coldre de ombro que aninhava o inseparável Colt, deitou fora as algemas no chão do carro, livrou-se do que restava de suas roupas, e em menos de um minuto os dois faziam amor, entrelaçados sobre o extenso banco de couro."

Trecho de Assassinatos na Academia Brasileira de Letras

 

 
 
 
 
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