Edição 1903 . 4 de maio de 2005

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Televisão
Guerra dos clones

Imitações estão na moda. Mas
Silvio Santos se irritou com uma
paródia do quadro Qual É a Música?


Ricardo Valladares


Divulgação
A versão do Qual É a Música? no programa de Cavalcante: para o SBT não é brincadeira, é plágio

O apresentador Silvio Santos anda irritado com o humorista Tom Cavalcante. O motivo é a paródia de uma velha atração de Silvio, o Qual É a Música?, no programa Show do Tom. Na semana retrasada, o SBT notificou a Record do assunto. É o primeiro passo para que a emissora de Silvio Santos entre com uma ação indenizatória por plágio. "Não é só brincadeira. Copiaram o programa inteiro", disse Silvio a VEJA. Com uma peruca acaju, o humorista encarna um certo Siltom Santos e contracena com antigos participantes do quadro, como os cantores Ovelha, Perla e Nahim. "Tem até o maestro Zezinho", diz Silvio. O apresentador acaba de ressuscitar o Qual É a Música? no SBT – e esse é um dos poucos formatos pelos quais ele paga direitos autorais, que pertencem a uma empresa americana. O episódio é emblemático de uma prática que se tornou corrente na televisão: a paródia deslavada de atrações de outras emissoras. O próprio Cavalcante também imita apresentadores como Jô Soares e Pedro Bial, da Rede Globo. Já a turma do Pânico, da RedeTV!, faz pilhéria com Gugu Liberato, Luciano Huck, Netinho e Milton Neves – o primeiro, do SBT, o segundo, da Globo, e os demais, da Record. Além de imitar, mais uma vez, Silvio Santos.

Fotos divulgação
Ceará como Silvio (à esq.), Vieira de Gluglu (no centro) e Tom como Jô (à dir.): o novo jeito de tirar casquinha do sucesso alheio

Embora seja tão antiga quanto o humor na televisão, a imitação é um recurso de eficácia duvidosa em certos casos. Todo-poderoso da Globo por mais de trinta anos, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, chegou a proibir que o extinto TV Pirata e a turma do Casseta & Planeta parodiassem programas de outras emissoras – como a novela Pantanal, que fez sucesso na Manchete no começo da década de 90. "A paródia era uma propaganda para a concorrência", diz Boni. Na onda de imitações atual dá-se o contrário: as emissoras com menos audiência tentam tirar uma casquinha da fama de artistas das maiores. O programa de Tom teve um início pífio, no qual ele tentava fazer as vezes de apresentador de talk-show. As paródias viraram sua tábua de salvação. Com o quadro em que incorpora Silvio, cravou 10 pontos na noite de quarta retrasada, batendo a atração do SBT no horário, a mesa-redonda Fora do Ar, na briga pelo segundo lugar no ibope.

Os imitadores do Pânico não se fazem de rogados: esculhambam seus satirizados sem piedade. O programa tem lá suas paródias inspiradas, como o Silvio Santos dentuço e abilolado do humorista Wellington Muniz, o Ceará. Mas há muita apelação. Ao emular Gugu Liberato, o humorista Vinícius Vieira concebeu Gluglu, um tipo sensível que utiliza presilha no cabelo e choraminga porque o ibope de seu programa já não exibe o vigor de antigamente. No domingo passado, foi a vez de Milton Neves ganhar "homenagem" do Pânico. Ele virou Merchan Neves e, numa piada de péssimo gosto, desferia tapas em dois anões que imitavam os jogadores Robinho, do Santos, e Tevez, do Corinthians.

Velha conhecida, a imitação parece não irritar tanto os imitados. Mas, como mostra a pendenga entre Silvio e Cavalcante, as coisas mudam de figura quando os negócios estão em jogo. Apesar de não haver jurisprudência sobre o fato de uma emissora satirizar atrações de outras, o SBT pretende alegar que itens como música e cenário de seu programa foram plagiados. Até a quarta retrasada, a Record não cogitava retirar o quadro do ar. "Se eles insistirem, então também poderei imitar o Roberto Justus em O Aprendiz", diz Silvio. Está deflagrada a guerra dos clones.

 
 
 
 
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