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Justiça Não
é que ele continua solto? Preso por sua mais
recente falcatrua, o argentino Cesar Arrieta personifica a impunidade
no Brasil  Ronaldo
França
A vida do argentino Cesar de la Cruz Mendoza
Arrieta, 54 anos, só pode ser contada aos bilhões. É como
se pode entender o tamanho desse personagem que, nos últimos quinze anos,
desafiou a Justiça e as instituições brasileiras como nenhum
outro e promoveu alguns dos maiores golpes financeiros de que se tem notícia
no país, totalizando 9 bilhões de reais. Arrieta é um fenômeno
de resistência. Sua capacidade de se esgueirar pelas frestas da Justiça,
de submergir no noticiário e seguir arquitetando golpes bilionários
é única. Condenado em 1995 por ter praticado uma fraude de 7,8 bilhões
de reais na Previdência, saiu completamente de cena e conseguiu ser quase
inteiramente esquecido. Não se ouviu mais falar dele até reaparecer,
no fim de 2002, nas investigações que a Polícia Federal batizou
de Operação Tango, em alusão à principal referência
cultural de seu país de origem. Quando as autoridades brasileiras se deram
conta, estava ele no topo de uma organização especializada em crimes
financeiros e tributários, com ramificações em pelo menos
quatro estados espalhados pelas regiões Sul, Sudeste e Nordeste. Desta
vez, calcula-se que a quadrilha tenha praticado golpes que ultrapassam 1 bilhão
de reais. Essa é a quantia já rastreada pelos peritos da PF. Pode
ser mais. É o que sugerem as fraudes já detectadas e o padrão
de vida que Arrieta e seus comparsas vinham levando.
O jatinho da página ao lado, por exemplo, é um modelo Cessna Citation
II, avaliado, por baixo, em 3,5 milhões de reais. Pertencia a Marcio Pavan,
tido como um dos cabeças do grupo. É apenas uma pequena amostra
do patrimônio que ressurgiu em torno de Arrieta após a primeira vez
que foi flagrado, no início dos anos 90, e teve toda a sua operação
desmontada. Ele está entre inúmeros bens da quadrilha apreendidos
no início do mês passado, que incluem um iate, quinze automóveis
e dois aviões. Durante a operação, treze pessoas foram para
a cadeia. Arrieta foi preso em seu apartamento, um tríplex de nove quartos
e elevador exclusivo em Bela Vista, um dos bairros mais elegantes de Porto Alegre,
no Rio Grande do Sul. Estavam lá ele e sua mulher, a advogada Sônia
Soder. Formado no curso técnico de engenharia operacional, Arrieta chegou
ao Brasil na década de 70. Na primeira empresa que comandou, a Iafa, chegou
ao poder após ajudar os antigos donos a saldar dívidas milionárias
com órgãos públicos, sua especialidade até hoje. Homem
de pouco riso, vive confortavelmente a bordo de jatinhos próprios, carrões
e imóveis de luxo. Ou pelo menos vivia, até ser finalmente recolhido
a uma cela da Superintendência da Polícia Federal que, no
momento, já foi devidamente trocada por outra, num presídio gaúcho.
Quando o virem andando pelos corredores do presídio,
seus colegas de carceragem provavelmente não saberão da impressionante
desenvoltura social do novato. Durante as investigações da CPI da
Previdência Social, em 1993 (que lhe renderam uma pena, ainda não
cumprida, de dezesseis anos de reclusão), chamou a atenção
dos deputados a agenda do fraudador. Nela podiam ser vistos nomes importantíssimos,
como o do ex-presidente do Banco do Brasil no governo Collor, Lafaiete Coutinho.
Também havia ali o nome do então secretário da Receita Federal,
Romeu Tuma. Entre os telefonemas registrados, podiam-se ver o nome do atual presidente
do PP, o deputado federal Pedro Corrêa, ou o do senador fluminense Nelson
Carneiro, já falecido. Ou ainda o do então deputado federal e atual
presidente do Flamengo, Márcio Braga. Fique claro que eram anotações
feitas por Arrieta. O fato é que o argentino tinha negócios com
algumas das principais estatais do país, por meio da Iafa, especializada
em materiais elétricos. Com Furnas, chegou a manter um contrato de 4 milhões
de dólares e outro de 1 milhão de dólares com a Itaipu Binacional.
Nessa época, segundo ele mesmo disse à polícia, atuava paralelamente
como intermediário em parcelamento de débitos de empresas com a
Previdência Social. Foi quando a Justiça concluiu que ele havia desviado
7,8 bilhões de reais dos cofres públicos.
Quando foi flagrado em sua, digamos, nova atividade, em 2002, Arrieta teve prisão
decretada pela Justiça, mas foi solto graças a um habeas corpus
cujo voto decisivo foi dado pelo juiz federal Ricardo Regueira, do Rio de Janeiro,
hoje afastado por acusação de venda de sentenças. Não
foi a primeira vez que a trajetória de Arrieta se cruzou com a de uma personalidade
polêmica dos quadros da Justiça. Na década de 80, apanhado
dirigindo um Mercedes-Benz contrabandeado, Arrieta teve a prisão relaxada
por ação do juiz João Carlos da Rocha Mattos, de São
Paulo, hoje condenado por comandar um esquema de venda de sentenças detectado
pela Operação Anaconda. Arrieta é uma das poucas pessoas,
no Brasil, que podem se gabar de ter conseguido, ao longo da vida, nada menos
do que nove habeas corpus, instrumento jurídico com o qual se manteve longe
da prisão e livre para agir novamente. Também
é admirável a forma como se relaciona com funcionários públicos.
Uma história ocorrida no Rio Grande do Sul pode oferecer pistas. Em 2001,
o irmão do delegado da Receita Federal em Porto Alegre, Ivan Pereira da
Cunha, o motorista de caminhão Emiran, foi assaltado na Argentina. Levou
cinco tiros. Arrieta e seu sócio, Roberto Fabbrin, não só
providenciaram o avião que levou o caminhoneiro a São Paulo, como
pagaram a conta do hospital, que somou 10.000 reais. Com sua reconhecida generosidade,
Arrieta faz amigos aos borbotões em todas as áreas em que atua.
"Há mais de vinte anos, esse senhor corrompe autoridades brasileiras dos
três poderes e continua impune", afirma a deputada estadual Cidinha Campos,
do PDT do Rio de Janeiro, que relatou, na época em que era deputada federal,
a CPI que fisgou Arrieta pela primeira vez. Em
2002, a quadrilha que comandava chamou a atenção da Polícia
e da Receita Federal. O mais lucrativo dos golpes (descritos
no quadro abaixo) consistia na sonegação do imposto de renda
incidente sobre o resgate de certificados de depósitos bancários,
os CDBs. Por lei, toda vez que um investidor saca o que tem aplicado em CDB, o
banco deve recolher 20% dos rendimentos aos cofres do Tesouro. É a parte
do Leão. Arrieta e seus comparsas davam um jeito para que alguns bancos
não fizessem a retenção do imposto. Pelas regras da Receita,
esse dinheiro, passado o prazo regulamentar, deveria ser cobrado diretamente do
detentor dos CDBs. No caso, os títulos eram comprados pela Vale Trading
S/A, uma firma que tem no currículo várias mudanças de endereço
e nenhuma capacidade de honrar esses pagamentos. Quando fosse cobrar sua parte,
a Receita simplesmente não conseguiria receber. Isso só não
ocorreu porque, num fato raro no Brasil, as autoridades agiram antes da consumação
do crime. "As estratégias adotadas por eles eram muito inteligentes. São
muito bons. Se não tivéssemos agido a tempo, o golpe teria tomado
proporções incalculáveis", afirma o chefe do núcleo
de repressão a crimes financeiros do Rio Grande do Sul, o delegado federal
Alexandre Isbarrola. As manobras de Arrieta estão
por trás até mesmo da recente intervenção do Banco
Central no Banco Santos. Foi quando o Santos comprou a Vale Trading, que já
esteve no nome de Arrieta e naquele momento tinha como principal sócio
o braço-direito do argentino, que as autoridades tiveram certeza de que
as coisas não iam bem com o banco de Edemar Cid Ferreira. Calcula-se que,
somente em operações com o Banco Santos, a quadrilha tenha movimentado
450 milhões de reais. Na semana passada, executivos de três bancos
foram indiciados: Banco Santos, BVA e Modal, esses dois últimos do Rio
de Janeiro. O BVA tentava, havia algum tempo, abater dívidas com a Receita
Federal utilizando créditos tributários ainda sub judice.
Ou seja, papéis sem valor garantido. Além disso, informava como
seus os créditos que na verdade eram de terceiros. O Banco Modal foi flagrado
deixando de reter o imposto de renda no resgate de CDBs. No caso do Santos, os
indícios são graves. A Polícia Federal encontrou provas de
que o banco fraudou um contrato de compra da Vale Trading para lançá-lo
em seu balanço. O documento verdadeiro foi encontrado no escritório
de advocacia paulista Levi & Salomão. Arrieta, como se vê, seguia
entre os grandes e famosos, mas com o incrível poder de se manter invisível
aos olhos da lei.
A fábrica de golpes
A quadrilha de Cesar Arrieta agia basicamente por
meio de quatro golpes. Com eles, movimentou mais de 1 bilhão de reais
CDBs Comprava os direitos sobre aplicações
de CDBs pagando ágio de até 5%. Em conluio com bancos, sacava
o dinheiro no vencimento sem recolher o imposto de renda incidente nesse tipo
de operação, lucrando entre 10% e 15% devido à
sonegação Certidões
Com a ajuda de funcionários da Receita, conseguia certidões
negativas de débito fraudulentas Créditos
Vendia créditos tributários próprios para abater
dívidas de empresas com a Receita Federal, o que é ilegal
Empréstimos Também se descobriu
que a quadrilha vinha emprestando dinheiro a empresas, como se fosse um banco,
o que é crime contra o sistema financeiro nacional | |
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