Edição 1903 . 4 de maio de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Internacional
Fora, brasiguaios!

Brasileiros no Paraguai não
poderão possuir terras numa faixa
de 50 quilômetros da fronteira

 

Antonio Milena
O brasileiro Willy Ludeke: "Agricultores văo pagar a conta"

O clima nada amistoso que envolve as relações entre Brasil e Paraguai nos últimos meses tende a piorar. Uma nova lei, promulgada pelo presidente Nicanor Duarte Frutos, proíbe a posse de terras por cidadãos e pessoas jurídicas dos países limítrofes numa faixa de 50 quilômetros das fronteiras do país. Formalmente, as pequenas comunidades boliviana e argentina no Paraguai também serão prejudicadas, mas não há dúvida de que o objetivo foi atingir os brasileiros que prosperaram na agricultura do Paraguai. Aprovada às pressas debaixo de uma intensa campanha xenófoba contra a presença brasileira, a chamada lei de segurança fronteiriça atinge uma região com mais de 200.000 fazendas de brasileiros. Eles são responsáveis por cerca de 70% de toda a soja, 60% do milho e 35% do trigo produzidos no país. Além disso, a medida prejudica os três bancos brasileiros que financiam maciçamente a produção agrícola paraguaia – Banco do Brasil, Interbanco – que pertence ao Unibanco – e o Banco Integración. Ao concederem empréstimos aos produtores brasileiros, as instituições financeiras hipotecam as terras como garantia. Com a nova lei, os bancos terão muita dificuldade para executar as hipotecas.

O governo paraguaio defende a medida como "uma lei para garantir a soberania do país" e parece pouco se importar com a situação dos brasileiros. "Caso se sintam prejudicados, procurem a Justiça", afirmou a VEJA o vice-ministro do Interior, Félix Silva Monges. O governo paraguaio diz que a lei não é retroativa. O problema, no entanto, é que uma parte pequena dos brasileiros radicados no Paraguai regularizou suas terras. A maioria tenta, mas não consegue transpor a resistência da burocracia xenófoba no Paraguai. Se quiserem fazê-lo agora, cairão nas garras da nova lei. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem mantendo contatos com o chefe do Executivo paraguaio para rever a lei. "É uma lei extemporânea que discrimina e atinge principalmente o brasileiro", disse a VEJA o chefe do setor político da embaixada brasileira em Assunção, Antônio Francisco da Costa e Silva. No Brasil, qualquer estrangeiro, independentemente de sua nacionalidade, pode ter terras nas regiões de fronteiras – obedecidos, é claro, alguns trâmites aos quais os brasileiros não são submetidos.

Um dos primeiros desbravadores do interior paraguaio, o agricultor brasileiro Willy Ludeke está revoltado. "Estou aqui há mais de trinta anos. Não consigo entender o porquê de aprovar a toque de caixa uma lei que só vai aumentar os atritos entre os países. No final, quem acaba pagando a conta somos nós, agricultores brasileiros", disse o fazendeiro, que cultiva 2,5 mil hectares de soja, milho e trigo na região de Naranjal.

A história da migração brasileira ao Paraguai remete aos anos do regime ditatorial do ex-presidente e general Alfredo Stroessner. No início da década de 70, o governo paraguaio iniciou um extenso projeto de colonização de suas terras, até então inabitadas, atraindo fazendeiros brasileiros, que apostaram no fértil solo paraguaio. Hoje, para os brasileiros, o fato de terem migrado durante a ditadura de Stroessner é desfavorável. Recentemente, vários políticos paraguaios vêm sustentando que a propriedade dos brasileiros é ilegal por remontar ao período da ditadura.

 

 
 
 
 
topovoltar