Edição 1903 . 4 de maio de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

China
Crime sem perdão

Os chineses não esquecem as
atrocidades que o Japão cometeu.
Mas existe um calmante: o vigoroso
comércio entre os dois países


Tiago Cordeiro


Vincent Yu/AP
Protesto em Shenzhen: animosidade crescente

EXCLUSIVO ON-LINE
Conheça o País: China

Há décadas os chineses avaliam que o Japão tem com seu país uma dívida difícil de saldar. Desde o início dos anos 30 até o fim da II Guerra, em sucessivas campanhas militares com objetivos expansionistas, os japoneses ocuparam diversas regiões da China e cometeram uma série de barbaridades contra a população, aniquilando cerca de 20 milhões de pessoas, muitas vezes com requintes de crueldade só vistos nos campos de concentração nazistas. A partir daí, o sentimento anti-Japão instalou-se na alma dos chineses como um dos pilares de seu patriotismo, volta e meia traduzindo-se em explosões de animosidade contra o país vizinho. Na última delas, milhares de pessoas foram às ruas em Pequim, Xangai e outras cidades chinesas em dezenas de passeatas.

O estopim do movimento foi a campanha do governo japonês para que o país se torne membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, com direito a veto nas resoluções. Há hoje apenas cinco países nessa situação: Estados Unidos, Inglaterra, França, Rússia – e China. Pequim não quer que isso ocorra, porque a entrada do Japão no Conselho de Segurança poderia abrir caminho para que aquele país tentasse obter hegemonia militar e política na Ásia. Os ânimos ficaram ainda mais exaltados quando o Ministério da Educação japonês aprovou uma série de livros didáticos, na qual as atrocidades cometidas pelo país contra a China são praticamente omitidas. Para piorar o cenário, na semana retrasada um grupo de parlamentares japoneses fez uma visita oficial ao Santuário Yasukuni, em Tóquio, um templo que homenageia 2,5 milhões de militares mortos em batalha, entre eles catorze notórios criminosos de guerra. A simples existência desse memorial irrita os chineses.

Os japoneses nunca fizeram uma admissão de culpa convincente pelos crimes de guerra que cometeram (veja quadro), e isso alimenta o sentimento antinipônico dos chineses. Depois da II Guerra, os alemães demonstraram amplamente seu arrependimento e sua vergonha pelo genocídio dos judeus, inclusive indenizando financeiramente suas vítimas. No Vaticano, o papa João Paulo II, num gesto espetacular de humildade, pediu perdão ao mundo pelos erros cometidos pela Igreja no Santo Ofício. O Japão, por seu turno, nada mais fez até hoje do que emitir vagos pedidos de desculpas ao "mundo asiático" em discursos oficiais. "Ao contrário dos alemães, que parecem realmente arrependidos, os japoneses não sabem lidar com o passado. Eles ainda cultivam a noção de que a guerra era justificável", disse a VEJA o chinês Wenran Jiang, professor de ciências políticas da Universidade de Alberta, no Canadá.

Durante as passeatas, os manifestantes cercaram a embaixada japonesa e a residência do embaixador e atiraram pedras e garrafas plásticas contra as fachadas. Também quebraram vitrines de lojas japonesas. Na China, as manifestações públicas não autorizadas pelo governo – como as que acabam de ocorrer – costumam ser duramente reprimidas. Desta vez, embora tenha proibido as notícias sobre as passeatas nos meios de comunicação, o governo de Pequim a princípio foi tolerante com os manifestantes, deixando evidente sua simpatia pela motivação dos protestos. Só depois da reação japonesa se efetuaram algumas prisões.

Em que pese o clima emocional nas ruas das cidades chinesas, é improvável que a atual onda de animosidade com o Japão tenha resultados práticos imediatos. As relações econômicas entre China e Japão nunca foram tão boas. Em 2004, com um volume de negócios entre os dois países na casa dos 178 bilhões de dólares, a China se tornou o maior parceiro comercial do Japão, ultrapassando os Estados Unidos. "Enquanto o comércio continuar nesse patamar, os dois países não vão deixar que nada rompa definitivamente seus vínculos", disse a VEJA Joshua Fogel, especialista em história da Ásia da Universidade da Califórnia.

 

Ferida aberta

Os crimes de guerra do Japão
que os chineses não esquecem

Ocupação da Manchúria (1931)
O Exército congelou, queimou e dissecou prisioneiros vivos a título de experiências científicas

Tomada de Nanquim (1937)
Soldados exterminaram 300 000 civis. Muitos deles foram enterrados vivos depois de cavar as próprias covas. Houve estupros em massa, inclusive de crianças

II Guerra (1939-1945)
O Japão matou 12 milhões de chineses no conflito. Médicos do Exército provocaram um surto de peste bubônica nas províncias de Hunan e Zhejiang, numa experiência pioneira de guerra bacteriológica

 

O outro lado da moeda


Execuções em Pequim: 726 só no ano passado

Os chineses não perdoam o Japão por seus crimes de guerra, mas a China tem uma vasta folha corrida em atrocidades cometidas contra seus próprios cidadãos. Mao Tsé-tung, o fundador do Estado comunista, assumiu o poder em 1949, depois de uma guerra civil que durou mais de vinte anos. Em 1958, o camarada Mao lançou a campanha "O grande salto para a frente", que matou de fome 30 milhões de pessoas – isso porque, para tentar industrializar o país em tempo recorde, foi deportada para as cidades boa parte dos agricultores chineses. O resultado foi que a produção agrícola caiu drasticamente. Depois veio a repressão puramente ideológica. Entre 1966 e 1977, a grande revolução cultural proletária, criada para acabar com o que seriam resquícios burgueses, transformou milhões de universitários em guardas autorizados a destruir museus, fechar escolas e prender intelectuais e políticos. Em junho de 1989, os estudantes que ousaram pedir a abertura do regime se transformaram em vítimas – oficialmente 200 deles foram mortos na Praça da Paz Celestial.

Hoje os chineses são os campeões mundiais da pena de morte, aplicada em acusados de roubos e até mesmo para punir mendigos e prostitutas. O governo admite ter condenado 1 639 pessoas à morte em 2004. Dessas, 726 foram executadas. As demais ainda o serão. Em Xangai e Pequim, a preparação para as Olimpíadas de 2008 provocou a demolição de dezenas de casas sem indenização aos proprietários. Por defender algumas dessas famílias na Justiça, o advogado Zheng Enchong foi recentemente condenado a três anos de prisão.

 

 
 
 
 
topovoltar