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China Crime
sem perdão Os chineses não esquecem
as atrocidades que o Japão cometeu. Mas existe um calmante: o
vigoroso comércio entre os dois países 
Tiago Cordeiro
Vincent Yu/AP  |
| Protesto em Shenzhen: animosidade crescente |
Há décadas os chineses avaliam que
o Japão tem com seu país uma dívida difícil de saldar.
Desde o início dos anos 30 até o fim da II Guerra, em sucessivas
campanhas militares com objetivos expansionistas, os japoneses ocuparam diversas
regiões da China e cometeram uma série de barbaridades contra a
população, aniquilando cerca de 20 milhões de pessoas, muitas
vezes com requintes de crueldade só vistos nos campos de concentração
nazistas. A partir daí, o sentimento anti-Japão instalou-se na alma
dos chineses como um dos pilares de seu patriotismo, volta e meia traduzindo-se
em explosões de animosidade contra o país vizinho. Na última
delas, milhares de pessoas foram às ruas em Pequim, Xangai e outras cidades
chinesas em dezenas de passeatas. O estopim
do movimento foi a campanha do governo japonês para que o país se
torne membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, com direito a
veto nas resoluções. Há hoje apenas cinco países nessa
situação: Estados Unidos, Inglaterra, França, Rússia
e China. Pequim não quer que isso ocorra, porque a entrada do Japão
no Conselho de Segurança poderia abrir caminho para que aquele país
tentasse obter hegemonia militar e política na Ásia. Os ânimos
ficaram ainda mais exaltados quando o Ministério da Educação
japonês aprovou uma série de livros didáticos, na qual as
atrocidades cometidas pelo país contra a China são praticamente
omitidas. Para piorar o cenário, na semana retrasada um grupo de parlamentares
japoneses fez uma visita oficial ao Santuário Yasukuni, em Tóquio,
um templo que homenageia 2,5 milhões de militares mortos em batalha, entre
eles catorze notórios criminosos de guerra. A simples existência
desse memorial irrita os chineses. Os japoneses
nunca fizeram uma admissão de culpa convincente pelos crimes de guerra
que cometeram (veja quadro),
e isso alimenta o sentimento antinipônico dos chineses. Depois da II Guerra,
os alemães demonstraram amplamente seu arrependimento e sua vergonha pelo
genocídio dos judeus, inclusive indenizando financeiramente suas vítimas.
No Vaticano, o papa João Paulo II, num gesto espetacular de humildade,
pediu perdão ao mundo pelos erros cometidos pela Igreja no Santo Ofício.
O Japão, por seu turno, nada mais fez até hoje do que emitir vagos
pedidos de desculpas ao "mundo asiático" em discursos oficiais.
"Ao contrário dos alemães, que parecem realmente arrependidos,
os japoneses não sabem lidar com o passado. Eles ainda cultivam a noção
de que a guerra era justificável", disse a VEJA o chinês Wenran
Jiang, professor de ciências políticas da Universidade de Alberta,
no Canadá. Durante as passeatas, os manifestantes
cercaram a embaixada japonesa e a residência do embaixador e atiraram pedras
e garrafas plásticas contra as fachadas. Também quebraram vitrines
de lojas japonesas. Na China, as manifestações públicas não
autorizadas pelo governo como as que acabam de ocorrer costumam
ser duramente reprimidas. Desta vez, embora tenha proibido as notícias
sobre as passeatas nos meios de comunicação, o governo de Pequim
a princípio foi tolerante com os manifestantes, deixando evidente sua simpatia
pela motivação dos protestos. Só depois da reação
japonesa se efetuaram algumas prisões. Em
que pese o clima emocional nas ruas das cidades chinesas, é improvável
que a atual onda de animosidade com o Japão tenha resultados práticos
imediatos. As relações econômicas entre China e Japão
nunca foram tão boas. Em 2004, com um volume de negócios entre os
dois países na casa dos 178 bilhões de dólares, a China se
tornou o maior parceiro comercial do Japão, ultrapassando os Estados Unidos.
"Enquanto o comércio continuar nesse patamar, os dois países
não vão deixar que nada rompa definitivamente seus vínculos",
disse a VEJA Joshua Fogel, especialista em história da Ásia da Universidade
da Califórnia.
| Ferida aberta Os
crimes de guerra do Japão que os chineses não esquecem Ocupação
da Manchúria (1931) O Exército congelou, queimou e dissecou
prisioneiros vivos a título de experiências científicas Tomada
de Nanquim (1937) Soldados exterminaram 300 000 civis. Muitos deles foram
enterrados vivos depois de cavar as próprias covas. Houve estupros em massa,
inclusive de crianças II Guerra (1939-1945)
O Japão matou 12 milhões de chineses no conflito. Médicos
do Exército provocaram um surto de peste bubônica nas províncias
de Hunan e Zhejiang, numa experiência pioneira de guerra bacteriológica |
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| O outro lado da moeda
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| Execuções em Pequim:
726 só no ano passado | Os
chineses não perdoam o Japão por seus crimes de guerra, mas a China
tem uma vasta folha corrida em atrocidades cometidas contra seus próprios
cidadãos. Mao Tsé-tung, o fundador do Estado comunista, assumiu
o poder em 1949, depois de uma guerra civil que durou mais de vinte anos. Em 1958,
o camarada Mao lançou a campanha "O grande salto para a frente",
que matou de fome 30 milhões de pessoas isso porque, para tentar
industrializar o país em tempo recorde, foi deportada para as cidades boa
parte dos agricultores chineses. O resultado foi que a produção
agrícola caiu drasticamente. Depois veio a repressão puramente ideológica.
Entre 1966 e 1977, a grande revolução cultural proletária,
criada para acabar com o que seriam resquícios burgueses, transformou milhões
de universitários em guardas autorizados a destruir museus, fechar escolas
e prender intelectuais e políticos. Em junho de 1989, os estudantes que
ousaram pedir a abertura do regime se transformaram em vítimas oficialmente
200 deles foram mortos na Praça da Paz Celestial. Hoje
os chineses são os campeões mundiais da pena de morte, aplicada
em acusados de roubos e até mesmo para punir mendigos e prostitutas. O
governo admite ter condenado 1 639 pessoas à morte em 2004. Dessas, 726
foram executadas. As demais ainda o serão. Em Xangai e Pequim, a preparação
para as Olimpíadas de 2008 provocou a demolição de dezenas
de casas sem indenização aos proprietários. Por defender
algumas dessas famílias na Justiça, o advogado Zheng Enchong foi
recentemente condenado a três anos de prisão. |
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