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Chávez
O clone do totalitarismo
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez,
há mais de
seis anos no poder, ameaça a estabilidade da América
Latina com o financiamento e o apoio a grupos radicais
de países vizinhos, a formação de uma milícia
civil, o uso
do petróleo para chantagear as repúblicas da América
Central, a compra de armas e a aliança com a ditadura
cubana de Fidel Castro, de quem está se tornando um
clone malfeito e extemporâneo. Na Venezuela, Chávez
adotou um governo centralizador, mudou as leis para
controlar melhor a oposição e aumentou o tamanho do
Estado, levando à derrocada de uma das mais antigas
democracias da região. Resultado: a população
ficou mais
pobre, os investidores externos sumiram e a dívida
pública aumentou

Diogo Schelp
Adalberto Roque/AFP
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O PATRONO
Fidel e Chávez: o dinheiro e o petróleo
venezuelanos estão permitindo a Fidel endurecer ainda
mais a ditadura cubana |
Presidentes de esquerda estão
no poder no Brasil, na Argentina, no Chile e no Uruguai. No próximo
ano, eleições poderão acrescentar à
lista o Peru e o México. É um grupo heterogêneo
quanto a métodos e personalidades, mas nenhum dos mandatários
que o formam oferece risco para seus povos e os vizinhos. Curiosamente,
o único presidente de países americanos que é
uma bomba de efeito retardado, o coronel pára-quedista Hugo
Chávez, da Venezuela, não pode ser classificado como
esquerdista. Ele não tem passado socialista ou marxista,
nem teórico nem prático. Veio do meio militar e tornou-se
um populista autoritário e fanfarrão. Por três
razões principais, Chávez hoje representa perigo para
a democracia e ameaça à estabilidade na América
Latina. A primeira é que, claramente, ele não se contenta
em infernizar a vida do próprio venezuelano e começa
a lançar pseudópodes por toda uma crescente área
de influência no continente americano. Segundo, porque tem
a mover seu expansionismo o dinheiro fácil dos petrodólares
oriundos da riqueza do subsolo venezuelano. Terceiro, mas não
menos preocupante, Chávez está semeando insurreição
e instabilidade em países que, embora nominalmente democráticos,
ainda lutam para solidificar suas instituições políticas
e jurídicas e suas bases econômicas de progresso material.
A combinação das três razões acima faz
de Chávez um risco novo e grande no horizonte da sofrida
América Latina.
Nos últimos seis anos,
desde que foi eleito, Chávez usou o cargo para iniciar a
construção em seu país de uma versão
extemporânea do regime totalitário que existe em Cuba.
O coronel ainda não atingiu a sofisticação
que garante a sobrevivência de Fidel Castro, este sim um esquerdista
autêntico, um fóssil da Guerra Fria que sobrevive em
sua ilha particular como um capataz magnânimo mas repressor.
Chávez, porém, já atingiu o patamar de comandante
de um regime tipicamente autoritário, que compromete as liberdades
essenciais. Curiosamente mas não surpreendentemente
a operação desmonte da democracia venezuelana
foi feita pelo que se acredita ser um dos meios mais democráticos
de representação os plebiscitos. Foram sete
consultas populares em seis anos. Essa democracia direta passou
por cima das instituições e permitiu ao chavismo reescrever
a Constituição e demolir os outros poderes da República.
Depois de uma longa queda-de-braço com a oposição,
o presidente venezuelano venceu o plebiscito do ano passado que
pretendia encurtar seu mandato. Com a vitória, Chávez
encheu-se de força moral e partiu para a ofensiva para neutralizar
qualquer desafio a sua autoridade.
Fotos Leslie Mazochi/AP
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i/AP
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A
GUARDA DE CHÁVEZ
O presidente venezuelano passa em revista a tropa de
30 000 voluntários da milícia que iniciou treinamento
no mês passado (à dir.): força armada
popular contra qual inimigo? |
Por cinco razões, alinhadas
pelo cientista político mexicano Adrián Gurza Lavalle,
da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo, a Venezuela já não pode ser considerada um
Estado democrático.
A autonomia de poderes, princípio básico da
democracia, foi suprimida. Chávez ampliou o número
de juízes da Suprema Corte, de vinte para 32, e preencheu
os novos cargos com aliados políticos. Juízes de instâncias
inferiores podem perder o emprego caso assinem sentenças
desfavoráveis ao governo.
Numa democracia, se a oposição perde as eleições,
ela continua a participar do jogo político. Na Venezuela
a oposição está sendo amordaçada. Um
novo Código Penal, que acaba de entrar em vigor, torna ilegal
qualquer forma de crítica ao governo. No momento, 248 pessoas,
entre jornalistas, sindicalistas, dirigentes políticos, professores
universitários e militares, já estão sendo
processadas por esse motivo.
A lei da mordaça obriga a imprensa a adotar a autocensura.
Comentários ou notícias podem ser interpretados como
uma tentativa de desestabilizar o governo e dar origem a um processo.
Outra legislação restringe os horários em que
o rádio e a televisão podem transmitir noticiários.
As regras do jogo político e institucional mudam
constantemente, uma vez que Chávez se investiu de poderes
extraordinários nos sete plebiscitos que convocou e venceu.
Não há mais respeito pelas normas que regem
o direito à propriedade privada. O governo começou
seu projeto de reforma agrária desapropriando uma fazenda
que abriga o maior rebanho de corte do país.
A essas somem-se os ataques à
liberdade econômica, como o perpetrado na semana passada,
quando Chávez ampliou o congelamento de preços da
economia, tabelando também os juros bancários em no
máximo 28% ao ano. É patético. Nada disso funciona
como os brasileiros sabem muito bem.
Uma novidade escandalosa do novo
código penal da Venezuela é a revogação
da presunção de inocência. O conceito de que
qualquer pessoa é inocente até prova em contrário,
criado na Revolução Francesa, é uma das bases
do direito moderno. Abolir garantias individuais como essa foi justamente
uma das primeiras penadas de Fidel Castro quando chegou ao poder
em Cuba. Chávez demonstra necessidade quase patológica
de se exibir como clone de Fidel Castro, o decano dos ditadores.
Ambos se exibem em fardas militares e discursam por horas, misturando
banalidades com assuntos de Estado. Não estivesse Caracas
claramente substituindo Havana como quartel-general da insurgência
revolucionária, tudo isso poderia ser mais uma risível
patuscada de repúblicas bananeiras. Afinal, desde que o Muro
de Berlim despencou, em 1989, sobre as utopias armadas e desarmadas
da esquerda, ninguém mais leva a sério governos supressores
da liberdade e centralizadores da economia.
A Cuba comunista nunca teve forças
para se manter de pé sem a ajuda anual bilionária
da extinta União Soviética, cuja bizarra estrutura
se desmontou em 1991 tragada pelos próprios pecados e ineficiências.
Sem a mesada que recebia da União Soviética, Cuba
perdeu o fôlego para aventuras fora da ilha. Também
já teria desmoronado sem o auxílio financeiro de Chávez.
Fidel idolatra o presidente venezuelano. Vê nele a última
tentativa de legar a seu povo uma herança menos amarga. Quase
meio século depois da implantação do comunismo,
Cuba é um país bem pior do que era nos anos 50. Antes
do furacão Fidel, a ilha ostentava a quarta maior renda per
capita da América Latina. Hoje tem a 15ª. Cuba era o
terceiro de uma lista de onze países latino-americanos com
o maior consumo de alimentos por habitante, com média diária
de 2.730 calorias. Hoje a ilha ocupa o último lugar. A saúde
e a educação melhoraram bastante. Mas muitos países,
como Brasil, México e Costa Rica, atingiram resultados semelhantes
sem escravizar seu povo, sem paredões nem presidentes
que vestem farda e fazem discursos de nove horas de duração.
No comando da quinta maior produção
de petróleo, Chávez possui um caixa sem limites. Graças
aos aumentos do preço internacional do barril, a Venezuela
arrecadou 200 bilhões de dólares com as exportações
do produto. "Chávez tem um objetivo claro: quer se tornar
o grande líder de massas da América Latina", disse
a VEJA o historiador venezuelano Manuel Caballero, o mais respeitado
do país. Fidel tem no currículo uma revolução
fracassada, mas que inspirou uma geração. O ditador
cubano também conta com o alicerce do discurso marxista-leninista,
que durante meio século deu as cartas em metade do planeta.
Já o presidente venezuelano é da categoria caudilho
iluminado, típico da América hispânica, cujos
sonhos revolucionários resultam de fantasias muito próprias.
"Chávez é um Fidel Castro sem cérebro e com
petróleo", definiu a VEJA Andrés Oppenheimer, colunista
do jornal americano Miami Herald e respeitado especialista
em América Latina.
Se não há coerência
ideológica em Chávez, seu plano estratégico
é concreto. Em resumo, são cinco as ações
externas mais identificáveis com que ele busca ampliar sua
influência na América Latina.
Primeiro, ele está usando o petróleo, abundante
na Venezuela, para criar dependência nos países vizinhos.
Os mais suscetíveis a essa estratégia são as
pequenas nações da América Central e do Caribe,
todas muito pobres, que importam da Venezuela até 80% do
petróleo que consomem.
Segundo, Chávez dá dinheiro e apoio político
e técnico para movimentos de esquerda latino-americanos,
muitos dos quais têm ou já tiveram o
projeto de tomar o poder à força para instalar uma
ditadura socialista.
Terceiro, a Venezuela substituiu a União Soviética
como patrocinadora do regime castrista em Cuba, fornecendo petróleo
e abastecendo o país de bens de consumo industrializados,
tudo a preço simbólico ou a fundo perdido.
Quarto, o presidente venezuelano interfere nos assuntos
internos de outros países de várias maneiras. Apóia
candidatos à Presidência, patrocina movimentos radicais.
Na Nicarágua, por exemplo, ele pediu votos ao sandinista
Daniel Ortega e, no Peru, deu dinheiro a um grupo que tentou derrubar
o governo com uma quartelada (veja
quadro).
Quinto, Hugo Chávez adotou um virulento discurso
antiamericano, que soa como música aos ouvidos dos nostálgicos
da Guerra Fria e eles são numerosos entre a esquerda
latino-americana. Uma esquerda que sempre se caracterizou por seguir
caudilhos nacionalistas, bastando que eles tivessem um discurso
antiamericano. Isso nasceu como estratégia oportunista. O
mais melancólico agora é que tenha se tornado a essência
das esquerdas. Uma pena.
Juan
Carlos Solorzano/AP
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Jefferson Bernardes/AFP
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Juan Carlos Solorzano/AP
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OS AMIGOS DO
CORONEL
Com o ditador Muamar Kadafi, em visita à Líbia,
no ano passado (acima, à esq.). Chávez
com o líder do MST João Pedro Stedile, em janeiro,
em um assentamento no Rio Grande do Sul (acima). O venezuelano
elogia a estratégia de invasão de terras do grupo.
Em 2000, Chávez foi o primeiro chefe de Estado a visitar
Saddam Hussein desde 1991 (à esq.). |
Por que Chávez insiste
em comprar briga com os Estados Unidos? Ele diz a toda hora que
os americanos querem matá-lo ou estão prontos para
invadir o país. Até agora, de real, o que se viu foi
o governo de George W. Bush evitar respostas às provocações.
Muito ocupada com a confusão que arranjou no Oriente Médio,
a Casa Branca contava que países amigos de Chávez,
mas com governos responsáveis, aconselhassem moderação
ao coronel. Enquanto isso, as empresas americanas na Venezuela passaram
a ser tratadas a pão e água. Sem maiores explicações,
o governo de Caracas suspendeu um contrato que permitia à
ConocoPhillips, a terceira maior companhia petroleira americana,
explorar um campo petrolífero no país. Há três
meses, fechou as oitenta lanchonetes da rede McDonald's e as quatro
fábricas da Coca-Cola que operavam em território venezuelano.
Ao ridículo da batalha dos McDonald's e da Coca-Coca, acrescentou-se
na semana passada uma iniciativa hilariante: o anúncio em
Havana, por Chávez e Fidel, da criação da Alba.
Vem a ser a resposta dos dois à Alca, a área de livre-comércio
das Américas proposta pelos Estados Unidos. A Alba é
mais um disparate de Chávez que não vai interessar
a ninguém.
Estima-se que a Venezuela esteja
injetando em Cuba, a fundo perdido, o equivalente a 20% de todo
o dinheiro que entra na ilha. Isso é ruim para os cubanos,
pois com essa folga de caixa Fidel se sentiu à vontade para
abortar qualquer vislumbre de abertura política e até
mandou fechar os pequenos negócios particulares, como restaurantes,
que eram o ganha-pão de tantos cubanos. É irônico
como a revolução gerou um Estado oficial de mendicância:
Cuba viveu durante décadas de mesada enviada por Moscou.
Agora, sobrevive com donativos venezuelanos.
Os Estados Unidos dão
mostras de que Chávez está conseguindo seu intento
de ser notado. Uma reação parece inevitável
e está em curso uma campanha diplomática para isolar
o regime de Caracas. E precisará ser uma estratégia
de longo prazo, pois Chávez tem boas chances de ganhar um
mandato de mais seis anos. Uma das preocupações americanas
decorre de compras de armas em quantidade muito acima do que seria
razoável num país cujo Exército tem apenas
35.000 homens. De janeiro para cá, a Venezuela comprou mais
de 7 bilhões de dólares em aviões de combate,
helicópteros, navios e sistemas de radares. O pacote russo
inclui 100.000 fuzis AK-47.
Os fuzis preocupam mais do que
tanques porque não podem ser rastreados por satélites.
Aviões e navios não têm utilidade para forças
irregulares; fuzis AK-47, como os comprados pela Venezuela, são
o armamento-padrão da narcoguerrilha colombiana e de guerrilheiros
em geral. Os russos também venderam aos venezuelanos uma
fábrica de munições. As Farc são bem
armadas, mas têm grande dificuldade em obter munição.
Chegam a pagar 2 dólares por uma bala para fuzil AK-47. Imagine
que negócio dos sonhos é ter uma fábrica de
projéteis logo do outro lado da fronteira. Mesmo que Chávez
não tenha a intenção de fornecer armamentos
para os guerrilheiros, ele não tem controle sobre a corrupção
que domina todos os escalões de sua administração,
inclusive o Exército. "Os planos de Chávez de montar
uma fábrica desse tipo de munição devem preocupar
não apenas os Estados Unidos, mas também os vizinhos
da Venezuela", disse recentemente o vice-secretário de Estado
americano Robert Zoellick.
Preocupam o Brasil, realmente.
Nos primeiros momentos o governo Lula trocou juras de amor eterno
com Chávez, a quem tratava como membro da mesma confraria
de presidentes esquerdistas. As relações esfriaram
bastante. Hoje não são hostis, mas as ações
de Chávez são atualmente a maior fonte de irritação
do presidente Lula no campo externo. O Itamaraty não esconde
sua avaliação de que Chávez se ressente do
respeito que Lula desperta no exterior. Cada vez que Chávez
faz declarações exageradas, como a de que a secretária
de Estado americana Condoleezza Rice (entrevistada
de VEJA desta semana) tem uma queda
por ele, Lula liga para o colega venezuelano e pede moderação.
Chávez promete se comportar, mas não cumpre a palavra.
A Venezuela é um país
com fartura de petróleo, mas praticamente sem nenhuma outra
fonte de renda. Em 1958, um pacto garantiu estabilidade política
até os anos 90, um dos mais longos períodos de democracia
do continente. Ficou acertado que o dinheiro do petróleo
financiaria um Estado clientelista. A queda nos preços do
petróleo nos anos 80 pôs tudo a perder. A corrupção
é endêmica na Venezuela. O presidente que Chávez
tentou derrubar em 1992, Carlos Andrés Pérez, acabou
preso por causa do desvio de 17 milhões de dólares.
Desde 1990, onze presidentes latino-americanos foram depostos ou
forçados a renunciar antes do fim de seus mandatos. Em quase
todos os casos, foram derrubados por corrupção ou
simplesmente porque governaram sobre economias fracassadas. O lado
mais perverso dessa instabilidade é o sentimento de que o
voto não é capaz de livrar o país dos corruptos
ou de promover as reformas necessárias para melhorar a vida
da população. É nesse ambiente que prosperam
populistas como Chávez.
Não é surpresa
que Chávez fascine tantos esquerdistas, que o vêem
como uma novidade saudável na política latino-americana.
Fazer avaliações desastrosas e seguir qualquer um
que antagonize os Estados Unidos está no DNA dos militantes
de esquerda. No passado, a esquerda também seguiu alegremente
outros pais da pátria, como Juan Domingo Perón, cuja
promessa era resolver todos os problemas da nação
com um estalar de dedos e, claro, colocando a culpa de tudo nos
Estados Unidos. Chávez foi recebido com furiosa alegria no
Fórum Social Mundial em Porto Alegre. É um espanto
que tanta gente o festeje e não o Chile, o único país
latino-americano a diminuir a pobreza pela metade. É a maldição
do caudilhismo, a doença senil do esquerdismo.
Com reportagem de Ruth
Costas e José Eduardo Barella

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