Edição 1903 . 4 de maio de 2005

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História
O legado da II Guerra

Há sessenta anos, a queda de Berlim
e o fim do conflito na Europa abriram
espaço para o surgimento dos pilares
econômicos,
éticos, humanitários
e ideológicos do mundo moderno

NESTA EDIÇÃO
A ética que nasceu do horror
Os crimes do soldado
A paz pela União
O monstro, a secretária e o cãozinho

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Especial II Guerra Mundial

2 de maio de 1945. Uma unidade blindada do Exército Vermelho venceu a última barreira em torno de Berlim, capital do III Reich nazista. No próximo domingo 8, esse feito será comemorado em todo o mundo como o sexagésimo aniversário do fim dos combates da II Guerra Mundial no teatro europeu. É a data da rendição incondicional da Alemanha nazista. Em seis anos, o conflito tinha matado 60 milhões de pessoas. O Reich que pretendia durar 1.000 anos acabou pulverizado em doze. Nunca mais o mundo foi o mesmo. Dos escombros da Grande Guerra, a segunda em menos de trinta anos, surgiu uma nova Europa. Surgiu um mundo disposto a evitar que a guerra fosse a continuação da política como meio de resolver as divergências, os interesses comerciais conflitantes, as amarguras, os inconformismos e os abismos ideológicos entre nações.

O conflito ainda persistiu na Ásia até setembro, quando o Japão também se rendeu sob o pavor de duas detonações atômicas que arrasaram as cidades de Hiroshima e Nagasaki. No entanto, os historiadores são unânimes em apontar que a rendição da Alemanha nazista marcou o momento em que o cronômetro da história foi zerado. A nova contagem passou a seguir a construção dos alicerces sobre os quais repousa o mundo moderno. É uma construção imperfeita, iniciada no calor de um conflito sangrento e aperfeiçoada num período de ácidas rivalidades ideológicas, repleta de injustiças e desafios enormes – mas sólida o suficiente para garantir um período sem paralelo de prosperidade econômica, criatividade tecnológica, preocupações humanitárias e de paz, se comparado ao século anterior.

O mais espetacular pilar do novo mundo do pós-guerra está no cenário onde o conflito começou e os estragos foram maiores. Apesar da Guerra Fria, a Europa permaneceu livre de guerras reais por décadas, situação sem precedentes. Mesmo quando a Alemanha voltou a ser unificada, em 1990, a megalomania nacionalista que meio século antes desencadeara a destruição já tinha sido purgada, lavada e expiada de modo exemplar e admirável. Há várias explicações para isso – e o fato de os europeus estarem fartos de matanças mútuas é apenas uma delas. A II Guerra pôs fim ao tradicional sistema de equilíbrio de forças nacionais que, periodicamente, empurrava os europeus para as trincheiras. O período entre 1945 e 1989, o da Guerra Fria, foi uma bizarra continuação do que havia antes, com a diferença de que o equilíbrio era mantido pela ameaça de destruição mútua entre as duas superpotências. Robert Cooper, ensaísta e diplomata inglês, escreveu que o conjunto de fatores é de tal ordem que melhor seria estabelecer o verdadeiro fim da II Guerra em 1989, quando o comunismo tomou o rumo da lata de lixo da história.

 
Alexey Panon/AFP
BUSH COM PUTIN: O PRESIDENTE RUSSO AINDA ALIMENTA SONHOS IMPERIAIS

Quando a Cortina de Ferro desapareceu e com ela a necessidade de os europeus se protegerem de um ou do outro lado do muro, não apenas o antigo equilíbrio de forças já estava morto na Europa Ocidental. Também desaparecera totalmente o fenômeno imperialista. Desde a criação da ONU, mais de oitenta países que viviam sob o domínio colonial, sobretudo europeu, tornaram-se independentes. "O projeto de poder externo da Europa foi deixado de lado para privilegiar o mercado", diz o economista Gilberto Dupas, coordenador-geral do Grupo de Conjuntura Internacional da Universidade de São Paulo. Talvez nesse aspecto a exceção notável seja a Rússia. O presidente Vladimir Putin nutre a ambição de reunir os retalhos da extinta União Soviética e formar com eles uma zona de influência que simule, de forma trôpega, a antiga grandeza do império vermelho. Os Estados Unidos são outro tipo de império, mais sutil, cuja força está no poder econômico e na influência cultural.

O sistema de valores e as instituições financeiras que levaram à vitória final da democracia e da economia de mercado começaram a ser criados antes mesmo de Adolf Hitler estourar os miolos em seu bunker, em 30 de abril de 1945. Os fundamentos da economia moderna – e, pode-se dizer, o embrião da globalização – foram a conferência internacional reunida em Bretton Woods, nos Estados Unidos, em 1944. Com representantes de 44 Estados ou governos, inclusive o da União Soviética, pretendia estabelecer os padrões financeiros para o pós-guerra, visto que a derrota da Alemanha e a do Japão eram dadas como certas. Dali saiu a idéia de um banco para financiar a reconstrução dos países atingidos pela guerra e de um fundo monetário internacional para acudir os problemas de caixa das nações – dois organismos criados nos anos seguintes pelas Nações Unidas. Em Bretton Woods também se forjaram os instrumentos que garantiram a hegemonia do modo de organização econômica e social mais caro aos Estados Unidos, a economia de mercado sob a égide da democracia. A liberdade econômica e a liberdade política andaram dissociadas em boa parte do século passado. Hoje está se tornando regra em todo o mundo, com as exceções conhecidas de Cuba e Coréia do Norte, onde nenhuma das duas existe – e da China, onde, por enquanto, freios políticos ainda servem de moldura para uma fulgurante explosão capitalista.

 

AP
O JULGAMENTO DOS CHEFES NAZISTAS EM NUREMBERG E, ABAIXO, MILOSEVIC NO TRIBUNAL POR CAUSA DA LIMPEZA ÉTNICA NOS BALCÃS: JUSTIÇA INTERNACIONAL PARA OS CRIMES CONTRA A HUMANIDADE
Bas Czerwinski/AFP

O projeto de Nações Unidas nasceu em 1941, quando o presidente americano Franklin Roosevelt e o primeiro-ministro inglês Winston Churchill se reuniram a bordo de um navio, no Oceano Atlântico. Os dois estadistas não queriam repetir os erros da Liga das Nações, criada em 1919. Formada sobretudo por pesos-leves da geopolítica da época, a liga não se mexeu para tentar evitar os movimentos expansionistas da Itália, do Japão e da Alemanha, que serviram de prelúdio à II Guerra. As Nações Unidas foram criadas em 1945. Apesar de ser igualitária no sentido de dar palavra e voto a todos os países-membros, a organização guarda como marca de nascença o poder de veto concedido aos cinco países vencedores da II Guerra. Foi a primeira de uma série de instituições multilaterais que tratam de todos os assuntos, da educação ao comércio.

O conceito de reconstruir nações, trazido de novo à baila com a invasão americana do Iraque, surgiu com a necessidade de recuperar os países destruídos pela II Guerra. O Plano Marshall, que colocou a Europa de pé, foi o primeiro grande projeto a incluir no mesmo pacote desenvolvimento econômico e instituições democráticas. Chegou a ser oferecido aos países ocupados ou sob influência da União Soviética, que recusaram a ajuda. O produto interno bruto de alguns países da Europa Ocidental cresceu entre 15% e 25% durante os quatro anos de duração do plano – o resultado foi a criação de um abismo econômico entre os dois sistemas que dividiam o território europeu. A aliança entre os Estados Unidos e a União Soviética não resistiu à derrota do nazismo. Durante décadas o equilíbrio foi tenso. "A guerra era improvável e a paz, impossível", na definição do filósofo francês Raymond Aron. A discussão sobre qual dos dois sistemas políticos e econômicos dominantes seria melhor para os cidadãos sacudiu duas gerações – e muito dos argumentos a favor do socialismo real derivava do sentimento nostálgico remanescente pelo papel crucial desempenhado pela União Soviética na derrota do nazismo. É claro que, para supervalorizar esse aspecto, era preciso esquecer que Hitler só se sentiu forte o bastante para detonar a II Guerra Mundial depois de firmar um acordo de não-agressão com Josef Stalin. O acordo incluía a divisão da Polônia entre os dois países. No dia seguinte à invasão da Polônia pelas tropas nazistas, as botas cobiçosas dos exércitos de Stalin as seguiram. Raymond Aron sempre foi, na França, contraponto ao esquerdismo militante de Jean-Paul Sartre, o filósofo favorito dos cafés parisienses, que só muito tarde reconheceu o caráter criminoso do regime soviético. Aron não perdoava o conformismo da esquerda diante do totalitarismo dos regimes marxistas. Não apenas o de Stalin. Mas de todos, os reais e os virtuais. Aron foi, junto com sir Karl Popper, um dos primeiros estudiosos a identificar no marxismo a genética da tirania. Nos marxistas eles denunciaram a ambição desmedida, a imprecisão científica e o descompromisso com a verdade. Popper via no marxismo uma teoria tão tola quanto a professada pelos astrólogos.

Quando o comunismo entrou em colapso, em 1989, o meio século de incertezas ideológicas já tinha sido jogado pela janela. A vitória na Guerra Fria não foi como o fim de outras guerras. Em lugar de tomarem territórios e exigirem reparações, os vitoriosos ajudaram os vencidos a reconstruir sua economia. A Alemanha gastou 800 bilhões de dólares para modernizar sua parte oriental, empobrecida sob o regime comunista. O legado da II Guerra também é humanitário. Criou a consciência de que os países ricos têm obrigações para com os pobres. Os horrores do genocídio dos judeus promovido pelos nazistas tiraram qualquer legitimidade das teses e políticas racistas. A II Guerra Mundial, apesar das incertezas e selvagerias inerentes à condição humana, propiciou o parto de um mundo melhor.

 

DA LUTA CONTRA O NAZISMO, SURGIRAM CINCO ALICERCES DO MUNDO MODERNO

1. A CONSTRUÇÃO DE NAÇÕES
A recuperação de países destruídos pela II Guerra deu origem a um conceito e uma tecnologia novos: a construção de Estados. O Plano Marshall, que recolocou a Europa de pé, foi o projeto precursor. O desafio dos anos 90 foi o de auxiliar países recém-saídos do comunismo a se tornar capitalistas e democráticos. O atual é o de levar estabilidade a Estados falidos, como o Afeganistão e o Iraque.

2. AJUDA HUMANITÁRIA
Antes da criação da ONU, doações e auxílios entre países dependiam de interesses e alianças específicas. A ONU centralizou boa parte da ajuda humanitária, estabelecendo prioridades e organizando operações de emergência. O orçamento das Nações Unidas para auxílio humanitário em 2004 foi de 3 bilhões de dólares, dinheiro doado pelos países-membros.

3. FÓRUNS GLOBAIS
Os organismos internacionais com poder de decisão e representatividade são posteriores à II Guerra. A ONU é o melhor exemplo. Criada em 1945 para garantir a paz internacional, reúne 191 países em condições de igualdade. Isto é, cada nação tem direito a um voto. A Liga das Nações, criada em 1919, tinha apenas 63 membros, nenhum deles peso-pesado na política internacional.

4. ORDEM ECONÔMICA INTERNACIONAL
Antes mesmo do fim da II Guerra, representantes de 44 governos, incluindo a União Soviética, reuniram-se em Bretton Woods, nos Estados Unidos, para criar um sistema monetário para o pós-guerra. Dali saiu o predomínio do dólar sobre as demais moedas. Desses acordos nasceram mais tarde, com o patrocínio da ONU, o FMI e o Banco Mundial, criados para assegurar o livre-comércio e garantir investimentos. Pode-se dizer que foram a semente da globalização.

5. TRIBUNAIS INTERNACIONAIS
O julgamento dos criminosos de guerra nazistas em Nuremberg, em 1945, firmou o conceito de uma jurisdição internacional para os crimes contra a humanidade. A convenção que estabeleceu o genocídio como crime contra a humanidade, em 1948, sugeria
a criação de um tribunal penal permanente.

 

Cada homem é uma causa

A idéia que move as ONGs é revolucionária: nenhuma soberania é maior que os crimes ou a maldade cometidos por um país. Ou seja, em termos práticos, um Estado é soberano em todos os sentidos, mas ai dele se autorizar a matança de algum animalzinho ameaçado de extinção, se mandar construir usinas que poluam o ar ou se não der atenção aos menores carentes que andam por suas ruas. A partir desse limite, enfrentará a fúria de uma ou várias organizações não-governamentais, que podem ser estrangeiras ou não. É irônico que a designação tenha sido criada pelas Nações Unidas em 1950 para diferenciar as organizações privadas, então ocupadas em ajudar moradores de países devastados pela II Guerra, daquelas intergovernamentais, como a própria ONU. Um princípio pétreo da ONU é exatamente o de que um Estado é soberano para fazer o que quiser dentro de seu território, seja a barbaridade que for, sem que ninguém tenha o direito de intervir.

 

Raul Rubiera/AP
MILITANTES DO GREENPEACE PROTESTAM CONTRA O DESMATAMENTO EM MIAMI: CAUSAS VARIADAS

A ONG do jeito que a conhecemos tomou impulso numa época em que muita gente está envolvida com interesses tão particulares e específicos que não se vê representada na política convencional. Os grupos de cidadãos preocupados com alguma coisa – que é o que são as ONGs, em última análise – estão acumulando poder e se fazendo ouvir em toda parte, das empresas aos governos. Estima-se que existam 6 000 dessas organizações operando em escala internacional, 2 000 das quais com o reconhecimento da ONU, que lhes dá a qualificação de "consultoras". A questão é: no que isso vai dar? As ONGs estão dando os primeiros passos em direção à criação de uma "sociedade civil internacional", como dizem alguns de seus militantes, sem explicar direito do que se trata? Ou significam – como questionou a revista inglesa The Economist – uma arriscada transferência de poder para grupos que representam interesses particulares e, afinal de contas, não foram eleitos por ninguém? Num discurso de 2000 em que defendeu a ampliação dos canais de participação do Estado de forma a permitir à população em geral maior acesso aos níveis de decisão, o presidente Fernando Henrique Cardoso lembrou-se de acautelar-se com relação às organizações não-governamentais. "Não se trata de substituir o Estado pelas ONGs", disse. "A ONG é orientada por uma questão, por um tema, e o Estado tem de ter uma visão do geral." Talvez se esteja no melhor dos mundos quando as ONGs cumprem seu papel de lembrar o Estado da existência de uma questão particular.

 
 
 
 
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