|
|
História O
legado da II Guerra Há sessenta anos,
a queda de Berlim e o fim do conflito
na Europa abriram espaço para o surgimento dos
pilares econômicos, éticos, humanitários
e ideológicos do mundo moderno
2 de maio de 1945. Uma unidade blindada do Exército
Vermelho venceu a última barreira em torno de Berlim, capital do III Reich
nazista. No próximo domingo 8, esse feito será comemorado em todo
o mundo como o sexagésimo aniversário do fim dos combates da II
Guerra Mundial no teatro europeu. É a data da rendição incondicional
da Alemanha nazista. Em seis anos, o conflito tinha matado 60 milhões de
pessoas. O Reich que pretendia durar 1.000 anos acabou pulverizado em doze. Nunca
mais o mundo foi o mesmo. Dos escombros da Grande Guerra, a segunda em menos de
trinta anos, surgiu uma nova Europa. Surgiu um mundo disposto a evitar que a guerra
fosse a continuação da política como meio de resolver as
divergências, os interesses comerciais conflitantes, as amarguras, os inconformismos
e os abismos ideológicos entre nações.
O conflito ainda persistiu na Ásia até setembro, quando o Japão
também se rendeu sob o pavor de duas detonações atômicas
que arrasaram as cidades de Hiroshima e Nagasaki. No entanto, os historiadores
são unânimes em apontar que a rendição da Alemanha
nazista marcou o momento em que o cronômetro da história foi zerado.
A nova contagem passou a seguir a construção dos alicerces sobre
os quais repousa o mundo moderno. É uma construção imperfeita,
iniciada no calor de um conflito sangrento e aperfeiçoada num período
de ácidas rivalidades ideológicas, repleta de injustiças
e desafios enormes mas sólida o suficiente para garantir um período
sem paralelo de prosperidade econômica, criatividade tecnológica,
preocupações humanitárias e de paz, se comparado ao século
anterior. O mais espetacular pilar do novo mundo
do pós-guerra está no cenário onde o conflito começou
e os estragos foram maiores. Apesar da Guerra Fria, a Europa permaneceu livre
de guerras reais por décadas, situação sem precedentes. Mesmo
quando a Alemanha voltou a ser unificada, em 1990, a megalomania nacionalista
que meio século antes desencadeara a destruição já
tinha sido purgada, lavada e expiada de modo exemplar e admirável. Há
várias explicações para isso e o fato de os europeus
estarem fartos de matanças mútuas é apenas uma delas. A II
Guerra pôs fim ao tradicional sistema de equilíbrio de forças
nacionais que, periodicamente, empurrava os europeus para as trincheiras. O período
entre 1945 e 1989, o da Guerra Fria, foi uma bizarra continuação
do que havia antes, com a diferença de que o equilíbrio era mantido
pela ameaça de destruição mútua entre as duas superpotências.
Robert Cooper, ensaísta e diplomata inglês, escreveu que o conjunto
de fatores é de tal ordem que melhor seria estabelecer o verdadeiro fim
da II Guerra em 1989, quando o comunismo tomou o rumo da lata de lixo da história.
Alexey
Panon/AFP
 | | BUSH
COM PUTIN: O PRESIDENTE RUSSO AINDA ALIMENTA SONHOS IMPERIAIS |
Quando
a Cortina de Ferro desapareceu e com ela a necessidade de os europeus se protegerem
de um ou do outro lado do muro, não apenas o antigo equilíbrio de
forças já estava morto na Europa Ocidental. Também desaparecera
totalmente o fenômeno imperialista. Desde a criação da ONU,
mais de oitenta países que viviam sob o domínio colonial, sobretudo
europeu, tornaram-se independentes. "O projeto de poder externo da Europa foi
deixado de lado para privilegiar o mercado", diz o economista Gilberto Dupas,
coordenador-geral do Grupo de Conjuntura Internacional da Universidade de São
Paulo. Talvez nesse aspecto a exceção notável seja a Rússia.
O presidente Vladimir Putin nutre a ambição de reunir os retalhos
da extinta União Soviética e formar com eles uma zona de influência
que simule, de forma trôpega, a antiga grandeza do império vermelho.
Os Estados Unidos são outro tipo de império, mais sutil, cuja força
está no poder econômico e na influência cultural.
O sistema de valores e as instituições financeiras que levaram à
vitória final da democracia e da economia de mercado começaram a
ser criados antes mesmo de Adolf Hitler estourar os miolos em seu bunker, em 30
de abril de 1945. Os fundamentos da economia moderna e, pode-se dizer,
o embrião da globalização foram a conferência
internacional reunida em Bretton Woods, nos Estados Unidos, em 1944. Com representantes
de 44 Estados ou governos, inclusive o da União Soviética, pretendia
estabelecer os padrões financeiros para o pós-guerra, visto que
a derrota da Alemanha e a do Japão eram dadas como certas. Dali saiu a
idéia de um banco para financiar a reconstrução dos países
atingidos pela guerra e de um fundo monetário internacional para acudir
os problemas de caixa das nações dois organismos criados
nos anos seguintes pelas Nações Unidas. Em Bretton Woods também
se forjaram os instrumentos que garantiram a hegemonia do modo de organização
econômica e social mais caro aos Estados Unidos, a economia de mercado sob
a égide da democracia. A liberdade econômica e a liberdade política
andaram dissociadas em boa parte do século passado. Hoje está se
tornando regra em todo o mundo, com as exceções conhecidas de Cuba
e Coréia do Norte, onde nenhuma das duas existe e da China, onde,
por enquanto, freios políticos ainda servem de moldura para uma fulgurante
explosão capitalista. AP
 | | O
JULGAMENTO DOS CHEFES NAZISTAS EM NUREMBERG E, ABAIXO, MILOSEVIC NO TRIBUNAL POR
CAUSA DA LIMPEZA ÉTNICA NOS BALCÃS: JUSTIÇA INTERNACIONAL PARA OS CRIMES CONTRA
A HUMANIDADE | Bas Czerwinski/AFP
 |
O projeto de Nações Unidas nasceu em 1941, quando o presidente americano
Franklin Roosevelt e o primeiro-ministro inglês Winston Churchill se reuniram
a bordo de um navio, no Oceano Atlântico. Os dois estadistas não
queriam repetir os erros da Liga das Nações, criada em 1919. Formada
sobretudo por pesos-leves da geopolítica da época, a liga não
se mexeu para tentar evitar os movimentos expansionistas da Itália, do
Japão e da Alemanha, que serviram de prelúdio à II Guerra.
As Nações Unidas foram criadas em 1945. Apesar de ser igualitária
no sentido de dar palavra e voto a todos os países-membros, a organização
guarda como marca de nascença o poder de veto concedido aos cinco países
vencedores da II Guerra. Foi a primeira de uma série de instituições
multilaterais que tratam de todos os assuntos, da educação ao comércio.
O conceito de reconstruir nações,
trazido de novo à baila com a invasão americana do Iraque, surgiu
com a necessidade de recuperar os países destruídos pela II Guerra.
O Plano Marshall, que colocou a Europa de pé, foi o primeiro grande projeto
a incluir no mesmo pacote desenvolvimento econômico e instituições
democráticas. Chegou a ser oferecido aos países ocupados ou sob
influência da União Soviética, que recusaram a ajuda. O produto
interno bruto de alguns países da Europa Ocidental cresceu entre 15% e
25% durante os quatro anos de duração do plano o resultado
foi a criação de um abismo econômico entre os dois sistemas
que dividiam o território europeu. A aliança entre os Estados Unidos
e a União Soviética não resistiu à derrota do nazismo.
Durante décadas o equilíbrio foi tenso. "A guerra era improvável
e a paz, impossível", na definição do filósofo francês
Raymond Aron. A discussão sobre qual dos dois sistemas políticos
e econômicos dominantes seria melhor para os cidadãos sacudiu duas
gerações e muito dos argumentos a favor do socialismo real
derivava do sentimento nostálgico remanescente pelo papel crucial desempenhado
pela União Soviética na derrota do nazismo. É claro que,
para supervalorizar esse aspecto, era preciso esquecer que Hitler só se
sentiu forte o bastante para detonar a II Guerra Mundial depois de firmar um acordo
de não-agressão com Josef Stalin. O acordo incluía a divisão
da Polônia entre os dois países. No dia seguinte à invasão
da Polônia pelas tropas nazistas, as botas cobiçosas dos exércitos
de Stalin as seguiram. Raymond Aron sempre foi, na França, contraponto
ao esquerdismo militante de Jean-Paul Sartre, o filósofo favorito dos cafés
parisienses, que só muito tarde reconheceu o caráter criminoso do
regime soviético. Aron não perdoava o conformismo da esquerda diante
do totalitarismo dos regimes marxistas. Não apenas o de Stalin. Mas de
todos, os reais e os virtuais. Aron foi, junto com sir Karl Popper, um dos primeiros
estudiosos a identificar no marxismo a genética da tirania. Nos marxistas
eles denunciaram a ambição desmedida, a imprecisão científica
e o descompromisso com a verdade. Popper via no marxismo uma teoria tão
tola quanto a professada pelos astrólogos.
Quando o comunismo entrou em colapso, em 1989, o meio século de incertezas
ideológicas já tinha sido jogado pela janela. A vitória na
Guerra Fria não foi como o fim de outras guerras. Em lugar de tomarem territórios
e exigirem reparações, os vitoriosos ajudaram os vencidos a reconstruir
sua economia. A Alemanha gastou 800 bilhões de dólares para modernizar
sua parte oriental, empobrecida sob o regime comunista. O legado da II Guerra
também é humanitário. Criou a consciência de que os
países ricos têm obrigações para com os pobres. Os
horrores do genocídio dos judeus promovido pelos nazistas tiraram qualquer
legitimidade das teses e políticas racistas. A II Guerra Mundial, apesar
das incertezas e selvagerias inerentes à condição humana,
propiciou o parto de um mundo melhor.
DA LUTA CONTRA O NAZISMO, SURGIRAM
CINCO ALICERCES DO MUNDO MODERNO 1. A CONSTRUÇÃO
DE NAÇÕES A recuperação de países destruídos
pela II Guerra deu origem a um conceito e uma tecnologia novos: a construção
de Estados. O Plano Marshall, que recolocou a Europa de pé, foi o projeto
precursor. O desafio dos anos 90 foi o de auxiliar países recém-saídos
do comunismo a se tornar capitalistas e democráticos. O atual é
o de levar estabilidade a Estados falidos, como o Afeganistão e o Iraque.
2. AJUDA HUMANITÁRIA Antes da
criação da ONU, doações e auxílios entre países
dependiam de interesses e alianças específicas. A ONU centralizou
boa parte da ajuda humanitária, estabelecendo prioridades e organizando
operações de emergência. O orçamento das Nações
Unidas para auxílio humanitário em 2004 foi de 3 bilhões
de dólares, dinheiro doado pelos países-membros. 3.
FÓRUNS GLOBAIS Os organismos internacionais com poder de decisão
e representatividade são posteriores à II Guerra. A ONU é
o melhor exemplo. Criada em 1945 para garantir a paz internacional, reúne
191 países em condições de igualdade. Isto é, cada
nação tem direito a um voto. A Liga das Nações, criada
em 1919, tinha apenas 63 membros, nenhum deles peso-pesado na política
internacional. 4. ORDEM ECONÔMICA INTERNACIONAL Antes
mesmo do fim da II Guerra, representantes de 44 governos, incluindo a União
Soviética, reuniram-se em Bretton Woods, nos Estados Unidos, para criar
um sistema monetário para o pós-guerra. Dali saiu o predomínio
do dólar sobre as demais moedas. Desses acordos nasceram mais tarde, com
o patrocínio da ONU, o FMI e o Banco Mundial, criados para assegurar o
livre-comércio e garantir investimentos. Pode-se dizer que foram a semente
da globalização. 5. TRIBUNAIS
INTERNACIONAIS O julgamento dos criminosos de guerra nazistas em Nuremberg,
em 1945, firmou o conceito de uma jurisdição internacional para
os crimes contra a humanidade. A convenção que estabeleceu o genocídio
como crime contra a humanidade, em 1948, sugeria a criação
de um tribunal penal permanente. | |
Cada homem é uma causa
A idéia que move as ONGs é revolucionária: nenhuma soberania
é maior que os crimes ou a maldade cometidos por um país. Ou seja,
em termos práticos, um Estado é soberano em todos os sentidos, mas
ai dele se autorizar a matança de algum animalzinho ameaçado de
extinção, se mandar construir usinas que poluam o ar ou se não
der atenção aos menores carentes que andam por suas ruas. A partir
desse limite, enfrentará a fúria de uma ou várias organizações
não-governamentais, que podem ser estrangeiras ou não. É
irônico que a designação tenha sido criada pelas Nações
Unidas em 1950 para diferenciar as organizações privadas, então
ocupadas em ajudar moradores de países devastados pela II Guerra, daquelas
intergovernamentais, como a própria ONU. Um princípio pétreo
da ONU é exatamente o de que um Estado é soberano para fazer o que
quiser dentro de seu território, seja a barbaridade que for, sem que ninguém
tenha o direito de intervir. Raul
Rubiera/AP
 | | MILITANTES
DO GREENPEACE PROTESTAM CONTRA O DESMATAMENTO EM MIAMI: CAUSAS VARIADAS |
A ONG do jeito que a conhecemos tomou impulso numa época em que muita gente
está envolvida com interesses tão particulares e específicos
que não se vê representada na política convencional. Os grupos
de cidadãos preocupados com alguma coisa que é o que são
as ONGs, em última análise estão acumulando poder
e se fazendo ouvir em toda parte, das empresas aos governos. Estima-se que existam
6 000 dessas organizações operando em escala internacional, 2 000
das quais com o reconhecimento da ONU, que lhes dá a qualificação
de "consultoras". A questão é: no que isso vai dar? As ONGs estão
dando os primeiros passos em direção à criação
de uma "sociedade civil internacional", como dizem alguns de seus militantes,
sem explicar direito do que se trata? Ou significam como questionou a revista
inglesa The Economist uma arriscada transferência de poder
para grupos que representam interesses particulares e, afinal de contas, não
foram eleitos por ninguém? Num discurso de 2000 em que defendeu a ampliação
dos canais de participação do Estado de forma a permitir à
população em geral maior acesso aos níveis de decisão,
o presidente Fernando Henrique Cardoso lembrou-se de acautelar-se com relação
às organizações não-governamentais. "Não se
trata de substituir o Estado pelas ONGs", disse. "A ONG é orientada por
uma questão, por um tema, e o Estado tem de ter uma visão do geral."
Talvez se esteja no melhor dos mundos quando as ONGs cumprem seu papel de lembrar
o Estado da existência de uma questão particular. |
| |