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Sociedade Entendeu,
valeu Oito em cada dez pessoas que se fazem entender
em inglês não usam o idioma de Shakespeare, mas o globês

Há pessoas que falam inglês muito
bem. Outras arranham, por pura necessidade, e aí se encaixa boa parte dos
mais de 80% da população mundial que não nasceram nem cresceram
em país de língua inglesa. Essas pessoas que julgam que se viram
mais ou menos, o suficiente para se fazer entender, na verdade não falam
inglês elas se comunicam em globês, termo inventado e divulgado
como a nova língua franca pelo francês Jean-Paul Nerrière.
Combinação de global English, ou inglês global, o globês
(globish, no original) está mais para patoá do que para idioma:
consta de umas 1.500 palavras em inglês (contra 615.000 listadas no Oxford
English Dictionary), que, acrescidas de gestos, expressões faciais
e um punhado de termos técnicos que variam conforme a profissão
do usuário, permitem que um brasileiro converse com um ucraniano em linguagem
compreensível a ambos. Não tem nada a ver com esperanto nem com
outras tentativas frustradas de idioma universal. Todas as palavras vêm
do inglês; o que as caracteriza como globês é a forma como
são usadas. "Não é um idioma, é uma ferramenta. Idioma
é o veículo de uma cultura. O globês não é nada
disso é só um meio de comunicação", explica
Nerrière, que fala inglês fluentemente, mas recorre à fórmula
capenga quando percebe que não está se fazendo entender. O único
senão da fala que Nerrière quer oficializar é que ela não
é entendida por quem tem o inglês como língua-mãe.
Um americano, ouvindo dois estrangeiros massacrar sua língua, pensará
que falam grego; tampouco o americano, falando normalmente, será compreendido
pelos conhecedores do globês. Ex-vice-presidente
da IBM na França e nos Estados Unidos, acostumado a tratar com estrangeiros
("fazia umas 200 viagens por ano"), Nerrière aposentou-se, organizou as
impressões sobre o assunto que colhera ao longo da carreira e, no ano passado,
escreveu Parlez Globish, um manual sobre como bem usar a tal linguagem
universal (cujo nome, aliás, patenteou). Regra número 1: todas as
palavras têm de ser muito bem pronunciadas e a frase, repetida pelo menos
duas vezes. "O principal não é a elegância, nem a exatidão,
nem a qualidade. É a eficiência da fala", ensina. Outras recomendações
são usar frases curtas e abolir completamente as expressões idiomáticas
e o humor, ambos "difíceis de entender". Também é preciso
usar muito as mãos e o corpo todo para se expressar. Palavras como niece
(sobrinha) e nephew (sobrinho) não constam do vocabulário
globês podem perfeitamente ser substituídas por children
of my brother (filhos do meu irmão). O livro traz uma lista de palavras
essenciais e um teste para avaliar se a pessoa fala inglês ou globês:
again (outra vez), nothing (nada) e never (nunca) estão
entre os vocábulos comuns aos dois; cassock (batina) e spigot
(torneira), entre os exclusivos dos que falam inglês de verdade.
Nerrière criou um site, jpn-globish.com, voltado para o ensino de globês.
Lá se aprende, por exemplo, que músicas são um meio excelente
de treinar a pronúncia. Não é preciso entender a letra
basta aprender como falar as palavras importantes. Para ajudar, traz a letra de
dez delas, entre as quais Strangers in the Night, New York, New York
e Unforgettable. Outra dica: o melhor cantor para copiar a pronúncia
é o músico de jazz Peter Cincotti, de "dicção notavelmente
clara" (consta no site a observação de que ele "não pagou
nada" pela menção). No fim de maio, Nerrière lançará
um novo livro, Découvrez le Globish, contendo as regras de gramática
(ou falta delas) da sua "linguagem universal". Seu propósito é espalhar
o ensino de globês, pela internet ou em escolas, mundo afora, inclusive
nos Estados Unidos esta a vingança perfeita de franceses inconformados
com o predomínio do inglês no planeta. Ironiza ele: "Os americanos
enfim terão de aprender uma segunda língua". 

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