Edição 1903 . 4 de maio de 2005

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Saúde
Entre a saúde e a doença

A medicina preventiva vem baixando
os parâmetros de normalidade para
uma série de marcadores – e, com
isso, está aumentando o número
de pré-doentes. Até que ponto
isso é um exagero?


Paula Neiva


NESTA REPORTAGEM
Quadro: A um passo da doença

Você olha no espelho e vê refletida a imagem de uma pessoa sadia? Pois bem, da próxima vez que alguém lhe perguntar como anda sua saúde, tente lembrar dos resultados de seu último check-up. Você pode não ter nenhuma alteração clínica importante, tampouco alguma doença estabelecida, e, mesmo assim, ser considerado um paciente. Nos últimos anos, entraram em vigor novas e mais rigorosas diretrizes para o diagnóstico de várias doenças. Com isso, muitas pessoas antes tidas como saudáveis foram reunidas num novo grupo: o dos pré-doentes. Ou seja, o de homens e mulheres que exibem características que podem propiciar o surgimento de certos distúrbios. "O principal objetivo dessas diretrizes é chamar atenção para os riscos de doenças crônicas e, com isso, levar a mudanças de hábitos de vida", diz o cardiologista Otávio Rizzi Coelho, presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo.

A detecção de doenças em estágios muito iniciais sempre esteve entre os principais desafios da medicina. Quanto mais precoce é o diagnóstico, maiores são as chances de cura e menores os riscos de seqüelas para os pacientes. Nessa trilha, nos últimos vinte anos, com a realização de grandes estudos epidemiológicos e o aperfeiçoamento dos exames de diagnóstico, os parâmetros de normalidade foram se tornando cada vez mais rígidos. Um dos melhores exemplos é o que ocorreu depois da invenção do exame de tomografia computadorizada que analisa a quantidade de cálcio nas artérias. A concentração do mineral é um importante marcador de risco cardíaco, já que indica acúmulo de gordura e, assim, a possibilidade de ocorrer um entupimento. Hoje, pessoas com essa alteração são consideradas pacientes de risco – e, por causa disso, recebem tratamento medicamentoso à base de estatinas, os redutores de colesterol.

"Pesquisadores no mundo inteiro estão empenhados na busca de padrões verdadeiramente seguros de saúde", disse a VEJA o médico Thomas Hatsukami, professor de cirurgia vascular da Universidade de Washington. A mudança mais recente de parâmetros de normalidade para uma doença aconteceu em junho do ano passado. Refere-se às taxas de colesterol. Os níveis ideais de HDL, ou colesterol bom, aumentaram e os de LDL, ou colesterol ruim, baixaram (veja quadro ao lado). Uma corrente de médicos, mais radical, defende que, quanto menores forem os níveis de colesterol, melhor para o paciente. Muitos deles cogitam a prescrição de medicamentos redutores da substância, as estatinas, até mesmo para pessoas que estão abaixo dos níveis tidos como ótimos. Há que considerar, no entanto, que a redução exagerada do colesterol pode acarretar sérios problemas ao organismo. O colesterol é essencial para a produção de hormônios e membranas celulares, entre outras funções vitais. O diabetes também está entre as doenças que sofreram mudanças em seus padrões. Cerca de três anos atrás, o nível máximo de açúcar no sangue considerado normal baixou de 110 miligramas por decilitro para 100. Com a glicemia entre 100 e 126, a pessoa é considerada pré-diabética. Essa nova linha de corte resultou num aumento de 30% no número de pré-diabéticos, apenas no Brasil. O pré-diabetes consiste numa menor sensibilidade do organismo à ação da insulina. Isso exige que o pâncreas produza quantidades cada vez maiores do hormônio, o que pode levar a um colapso do processo – ou seja, ao diabetes. Os médicos preconizam um tratamento rigoroso para essa condição, porque descobriram que ela por si só está associada a até 2,5 vezes mais riscos de distúrbios cardiovasculares. Recomendam-se atividades físicas, dieta equilibrada e perda de peso. Remédios que diminuem a absorção de carboidratos ou melhoram a resposta do corpo à insulina podem ser indicados.

Para alguém que, de uma hora para outra, passa a ser considerado pré-doente, essa notícia pode ter um efeito negativo preocupante. Um estudo americano que acompanhou mulheres com osteopenia – a condição prévia à osteoporose, a doença que enfraquece os ossos – mostrou que, pelo simples fato de terem recebido o diagnóstico, elas pararam de fazer exercícios físicos, com medo de fraturas. O stress causado pela notícia da pré-doença é um fator que não deve ser subestimado. Constatou-se, por exemplo, que a alteração no que é visto como padrão normal de pressão arterial acabou por levar muita gente a um desgaste emocional desnecessário – um dos caminhos que conduzem justamente à hipertensão. Nessa área, aliás, há grande controvérsia. Os especialistas americanos passaram a considerar que a pressão arterial de 12 por 8 caracterizava pré-hipertensão. Os europeus discordam. Defendem que esse é um índice normal de pressão e que não há comprovação científica suficiente para a nova medida americana. Os brasileiros estão do lado dos europeus – até agora, pelo menos. O resultado da mudança de parâmetros nos Estados Unidos foi que, evidentemente, aumentaram as vendas de remédios contra a pressão alta. "Há quem ache que, por trás de boa parte dessas alterações, está a indústria farmacêutica, que deseja vender mais e mais", diz o médico e escritor Moacyr Scliar. "Deve-se ter consciência, no entanto, de que muitas vezes, para atingir os novos níveis recomendados, basta melhorar os hábitos cotidianos. Não é preciso tomar remédio."

Uma das metas mais ambiciosas da medicina é estabelecer os limites do pré-câncer. Mas a verdade é que, até o momento, isso só serve para causar angústia na maioria dos casos. Pela simples razão de que não existem tratamentos específicos para essa condição tão inicial – a não ser aqueles disponíveis para quem está realmente doente, como cirurgia, químio e radioterapia. Veja-se o exemplo do carcinoma in situ, que antecede o câncer de mama propriamente dito. Uma mulher com o carcinoma in situ apresenta células anormais confinadas nos ductos mamários – mas isso não quer dizer que ela desenvolverá um tumor maligno extremamente invasivo. A maioria não desenvolve. Alguns médicos se perguntam se é mesmo necessário informar uma mulher que ela tem esse problema muito antes do surgimento da doença. Afinal, isso representa uma angústia tão grande que pode levar à antecipação desnecessária de procedimentos como a mastectomia radical, a retirada de parte da mama e a radioterapia. Em meados dos anos 90, com a descoberta da estreita relação entre alterações nos genes BRCA1 e BRCA2 e o desenvolvimento do câncer de mama, muitas mulheres, sobretudo nos Estados Unidos, submeteram-se ao teste genético de detecção desse problema. Ao descobrir esse defeito, um grande número de pacientes optou pela extirpação total das duas mamas e pelo esvaziamento completo dos gânglios linfáticos. Em 2002, uma pesquisa publicada no Journal of the National Cancer Institute, revista do Instituto Nacional do Câncer, dos Estados Unidos, mostrou que parte dessas cirurgias pode ter sido em vão. Coordenado por uma equipe do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, de Nova York, um dos mais prestigiosos centros de pesquisa sobre a doença, o estudo não descartava a relação entre o câncer e os genes defeituosos, mas sugeria que o peso das mutações como fator de risco não era tão grande quanto se acreditava.

A definição de saúde costumava ser relativamente óbvia. Em 1948, ano de criação da Organização Mundial de Saúde, formulou-se o seguinte conceito: "Saúde é o mais completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de enfermidade". Pelas novas regras da medicina, pode-se estar doente mesmo quando existe o bem-estar físico, mental e social. Há que levar em conta que algumas das mudanças nos parâmetros de normalidade de doenças como o diabetes são importantes e fazem a diferença entre um futuro doente ou sadio. Outras alterações, no entanto, como a dos critérios de hipertensão (leia artigo do médico Décio Mion no quadro abaixo), soam exageradas. Talvez seja preciso estabelecer também um padrão de normalidade para quem vive à caça de novos padrões de anormalidade.

Raphael Falavigna

Pacientes sob pressão

DÉCIO MION*

Nos últimos anos, milhões de pessoas em todo o mundo que se consideravam saudáveis foram, de uma hora para outra, advertidas de que tinham um problema médico. Isso aconteceu sem que elas apresentassem alteração alguma em seus parâmetros clínicos. Mudaram, sim, as diretrizes para o diagnóstico de várias doenças, como a hipertensão, o diabetes e o colesterol alto, entre outras. Foram estabelecidos também novos critérios que criaram um novo tipo de paciente, o pré-doente. O argumento a favor desse tipo de diagnóstico é que as pessoas que se encontram na faixa de risco para diversas enfermidades seriam alertadas para a importância das medidas de prevenção, sobretudo no que se refere à adoção de hábitos de vida mais saudáveis.

É importante lembrar, no entanto, que o diagnóstico de pré-doença sempre tem conseqüências emocionais, familiares e financeiras para os pacientes. No caso da classificação da pré-hipertensão, esse é um fator especialmente importante. Até 1994, segundo as Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial, considerava-se a pressão normal quando ela era abaixo de 16 por 9. Em 1998, o índice de normalidade caiu para 14 por 9. Em 2002, além da pressão normal, foi criado o patamar de pressão ótima, aquela que fica abaixo de 12 por 8. Níveis tão baixos de pressão não são fáceis de alcançar. Geralmente é necessário recorrer a medicamentos, o que, por causa dos efeitos colaterais inerentes a qualquer remédio, torna o tratamento mais arriscado. Além disso, como os médicos não estão bem treinados para fazer ajustes finos na dose dos remédios, é pequeno o número de pacientes que, apesar da terapia medicamentosa, atingem a pressão-alvo.

É difícil entender por que as autoridades médicas americanas decidiram em 2003, sem nenhuma evidência científica nova, mudar os parâmetros de normalidade da pressão arterial e apavorar milhões de pessoas. Passaram a chamar os pacientes com pressão entre 12 por 8 e 14 por 9 de "pré-hipertensos" e aqueles com pressão abaixo de 12 por 8 de "normais". Como somente metade dos pré-hipertensos irá se tornar hipertensa no futuro, esse diagnóstico pode levar uma pessoa a passar desnecessariamente pelo stress de ser rotulada como doente. Muitos pacientes ligaram desesperados porque, num dia, tinham pressão normal e, no outro, passaram a ser pré-hipertensos. Alguns simplesmente desistiram das medidas preventivas: "Não agüento mais. Tenho me esforçado tanto e agora me dizem que nada valeu a pena, que sou doente", disse um deles. O Brasil e a Europa não adotaram as diretrizes americanas. A melhor forma de convencer as pessoas da importância de adotar hábitos de vida saudáveis não é pela ameaça, e sim pelo bem-estar que essas mudanças oferecem.

*Professor livre-docente, chefe da Unidade de Hipertensão do Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, e coordenador nacional da IV Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial

 

 
 
 
 
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