Edição 1903 . 4 de maio de 2005

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Cultura
Uma novidade de 2 500 anos

Graças a uma técnica desenvolvida pela
Nasa, papiros ilegíveis são decifrados e
revelam preciosidades da cultura clássica


Jerônimo Teixeira


Divulgação
O professor Dirk Obbink, do departamento de língua grega de Oxford: "É um enorme quebra-cabeça"


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Decifrando os clássicos

Nos 2.500 anos que separam o auge da Antiguidade clássica dos dias de hoje, perdeu-se uma quantidade incalculável de obras-primas da literatura e da filosofia criadas pelos mestres gregos do período. Só uma pequena fração de sua produção intelectual sobreviveu até os dias atuais. Para ficar em um exemplo, das mais de 100 peças escritas por Sófocles – o dramaturgo que celebrizou o mito de Édipo, o homem que matou o pai e fez sexo com a mãe , somente sete são integralmente conhecidas. Por isso, descobertas recém-anunciadas pela Universidade Oxford, na Inglaterra, estão causando grande excitação no mundo cultural. Com a ajuda de uma técnica de processamento de imagens desenvolvida pela Nasa, especialistas conseguem ler, pela primeira vez, papiros danificados que foram recolhidos no Egito, na virada do século XIX para o XX. O conteúdo desses fragmentos inclui algumas preciosidades (veja quadro): poemas até hoje desconhecidos de autores como Hesíodo e Arquíloco e trechos de tragédias perdidas de Sófocles e Eurípides. "São textos inestimáveis, que podem transformar a percepção contemporânea do mundo antigo", disse a VEJA o professor Dirk Obbink, que dirige as pesquisas sobre os papiros em Oxford.

O mais curioso é que esses tesouros estavam no meio do refugo de cidadãos do antigo Egito – mais especificamente, da cidade de Oxyrhynchus. Entre os séculos III a.C. e VIII d.C., seus habitantes depositaram os manuscritos que não desejavam mais usar numa área nas cercanias da cidade – um lixão. O clima seco do Egito ajudou na conservação do papiro. Em 1897, Bernard Grenfell e Arthur Hunt, uma dupla de exploradores britânicos do Fundo (hoje Sociedade) de Exploração Egípcia, começaram os trabalhos de escavação desse depósito de lixo letrado. O material recolhido por eles está hoje depositado numa biblioteca de Oxford. São mais de 800 caixas nas quais se calcula que existam 500.000 papiros, muitos deles danificados. Em um século de estudo, os especialistas conseguiram decifrar 5.000 desses papiros, cerca de 1% do total. É um trabalho delicado e vagaroso. Obbink calcula que talvez ainda seja necessário mais um século de estudos para finalmente levantar todo o conteúdo dos papiros de Oxyrhynchus. "É um enorme quebra-cabeça, no qual há muitas peças faltando", diz.

Cerca de 20% desse material estava queimado ou escurecido pelo mofo e, até recentemente, era reputado como ilegível. A leitura desses fragmentos foi possibilitada por uma tecnologia chamada de "imagem multiespectral" – que já havia sido usada, em 1999, para ler papiros carbonizados de Herculaneum, uma vila que foi atingida pela erupção do Vulcão Vesúvio, na Itália, em 79 d.C. Os fragmentos de papiro queimados ou escurecidos são lidos por uma câmera digital com quinze filtros que vão isolando rapidamente diversas freqüências de luz. Para cada fragmento, há uma freqüência específica – geralmente em infravermelho, mas às vezes em ultravioleta – na qual o preto da tinta se destaca do fundo escurecido do papiro, possibilitando a leitura que de outra forma seria impossível. Essa técnica começou a ser empregada nos papiros de Oxyrhynchus em 2002, e agora estão aparecendo os primeiros resultados.

Filosofia, matemática, ciência, artes – as mais diversas áreas de conhecimento encontram suas bases na Grécia de Platão, Pitágoras e Homero. A herança grega se faz presente na arte de Rafael e Goya, na literatura de Goethe e Joyce, no pensamento de Freud e Heidegger – e até na linguagem cotidiana, com expressões como "calcanhar-de-aquiles" e "voto de Minerva". No entanto, o universo grego é também remoto: seus valores morais, sua religião, seus hábitos estão muito distantes dos do homem moderno. Essa relação contraditória com a cultura grega torna ainda mais relevantes as novas descobertas na área. Para os estudos clássicos, geralmente muito especializados, os achados também têm seu valor de marketing – reavivam o interesse geral pelas obras-primas da Antiguidade. "Qualquer acréscimo à obra dos autores gregos, dos quais se conhece tão pouco, é sempre importante. Esse tipo de material pode provocar uma verdadeira reavaliação da cultura clássica", diz o tradutor e professor de língua grega Trajano Vieira, da Universidade Estadual de Campinas.

Entre as novidades dos papiros, destaca-se um poema até hoje desconhecido de Arquíloco. Sabe-se pouco da vida desse poeta do século VII a.C. Foi o primeiro a escrever poesia lírica, em um tom pessoal muito diferente do dos épicos de Homero – e até hoje só se conheciam 500 versos seus. O novo poema de Arquíloco deve ser publicado no mês que vem, dentro de uma série de livros do projeto Papiros de Oxyrhynchus, com uma transcrição do original grego acompanhada de tradução em inglês. É uma elegia em que se contam as desventuras da armada grega a caminho da Guerra de Tróia. Não é dos episódios mais heróicos: os navios gregos se perdem e vão aportar em outra cidade. Os soldados, no entanto, pensam erroneamente que já estão em Tróia e partem para o ataque – apenas para sofrer uma humilhante derrota.

A imagem multiespectral também desvendou textos inéditos de Hesíodo – poeta que viveu mais ou menos na mesma época que Arquíloco – e dos dramaturgos Sófocles e Eurípides, do século V a.C. "São fragmentos de tragédias, mas nós temos esperança de que, com pedaços de outros papiros, um dia seja possível reconstituir essas peças integralmente", diz Obbink. Também foi possível descobrir quarenta fragmentos da História de Heródoto. Não é um livro inédito, mas os papiros ajudam a estabelecer o texto de Heródoto com maior precisão, já que deve ser a mais antiga cópia existente dessa obra.

Esses clássicos eram obras de leitura cotidiana entre os cidadãos da helenizada Oxyrhynchus. O uso do grego disseminou-se no Egito depois que o país foi conquistado por Alexandre, o Grande, no século IV a.C. – e os romanos que integraram o país a seu império três séculos depois nunca se preocuparam em impor o latim como língua oficial. É por isso que 99% dos papiros estão em grego (o restante inclui pequenos fragmentos em latim, copta, hebraico e persa, entre outras línguas). "Os papiros de Oxyrhynchus são uma coleção muito abrangente. Incluem textos de virtualmente todos os autores conhecidos da Grécia antiga", diz Obbink. Nem todo esse material será inédito ou desconhecido. Ainda assim, a amplitude da coleção cria grandes expectativas. Já se encontraram excertos do filósofo Aristóteles entre os papiros. A esperança de Obbink é que no futuro, em meio aos milhares de papiros ainda a ser examinados, se encontre o tratado aristotélico sobre a comédia, uma obra perdida em torno da qual se criou uma aura lendária, explorada no romance O Nome da Rosa, de Umberto Eco – nesse livro, as páginas envenenadas de uma cópia secreta do tratado são responsáveis pela morte de vários monges num mosteiro medieval.

Os papiros também guardam a promessa de refinar o conhecimento do mundo antigo em seus detalhes cotidianos. Afinal, eles vêm de um depósito de lixo – é óbvio que lá não se encontrariam apenas obras literárias. Há vários outros documentos que permitem um vislumbre de como seria a vida em Oxyrhynchus. Já se descobriu, por exemplo, um relatório de ronda de um guarda noturno com o nome de todas as casas de comércio no seu caminho. A mais antiga menção ao domingo (dia que não existia no calendário pagão) está nos papiros – data de 291 d.C. Também se descobriu que, quando um novo imperador subia ao poder em Roma, a notícia levava cerca de seis semanas – o tempo de viagem do mensageiro – para alcançar o Egito. Convites para festas, consultas a oráculos, horóscopos: as pequenas notas contidas entre os papiros permitem que se entenda melhor o universo que gerou tantos gigantes da filosofia e da literatura.

 


 
 
 
 
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