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Cultura
Uma novidade de 2 500 anos
Graças a uma técnica desenvolvida
pela
Nasa, papiros ilegíveis são decifrados e
revelam preciosidades da cultura clássica

Jerônimo Teixeira
Divulgação
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| O professor Dirk Obbink, do departamento de
língua grega de Oxford: "É um enorme quebra-cabeça" |
Nos 2.500 anos que separam o auge da Antiguidade
clássica dos dias de hoje, perdeu-se uma quantidade incalculável
de obras-primas da literatura e da filosofia criadas pelos mestres
gregos do período. Só uma pequena fração
de sua produção intelectual sobreviveu até
os dias atuais. Para ficar em um exemplo, das mais de 100 peças
escritas por Sófocles o dramaturgo que celebrizou
o mito de Édipo, o homem que matou o pai e fez sexo com a
mãe , somente sete são integralmente
conhecidas. Por isso, descobertas recém-anunciadas pela Universidade
Oxford, na Inglaterra, estão causando grande excitação
no mundo cultural. Com a ajuda de uma técnica de processamento
de imagens desenvolvida pela Nasa, especialistas conseguem ler,
pela primeira vez, papiros danificados que foram recolhidos no Egito,
na virada do século XIX para o XX. O conteúdo desses
fragmentos inclui algumas preciosidades (veja
quadro): poemas até hoje desconhecidos de
autores como Hesíodo e Arquíloco e trechos de tragédias
perdidas de Sófocles e Eurípides. "São textos
inestimáveis, que podem transformar a percepção
contemporânea do mundo antigo", disse a VEJA o professor Dirk
Obbink, que dirige as pesquisas sobre os papiros em Oxford.
O mais curioso é que esses tesouros
estavam no meio do refugo de cidadãos do antigo Egito
mais especificamente, da cidade de Oxyrhynchus. Entre os séculos
III a.C. e VIII d.C., seus habitantes depositaram os manuscritos
que não desejavam mais usar numa área nas cercanias
da cidade um lixão. O clima seco do Egito ajudou na
conservação do papiro. Em 1897, Bernard Grenfell e
Arthur Hunt, uma dupla de exploradores britânicos do Fundo
(hoje Sociedade) de Exploração Egípcia, começaram
os trabalhos de escavação desse depósito de
lixo letrado. O material recolhido por eles está hoje depositado
numa biblioteca de Oxford. São mais de 800 caixas nas quais
se calcula que existam 500.000 papiros, muitos deles danificados.
Em um século de estudo, os especialistas conseguiram decifrar
5.000 desses papiros, cerca de 1% do total. É um trabalho
delicado e vagaroso. Obbink calcula que talvez ainda seja necessário
mais um século de estudos para finalmente levantar todo o
conteúdo dos papiros de Oxyrhynchus. "É um enorme
quebra-cabeça, no qual há muitas peças faltando",
diz.
Cerca de 20% desse material estava queimado
ou escurecido pelo mofo e, até recentemente, era reputado
como ilegível. A leitura desses fragmentos foi possibilitada
por uma tecnologia chamada de "imagem multiespectral" que
já havia sido usada, em 1999, para ler papiros carbonizados
de Herculaneum, uma vila que foi atingida pela erupção
do Vulcão Vesúvio, na Itália, em 79 d.C. Os
fragmentos de papiro queimados ou escurecidos são lidos por
uma câmera digital com quinze filtros que vão isolando
rapidamente diversas freqüências de luz. Para cada fragmento,
há uma freqüência específica geralmente
em infravermelho, mas às vezes em ultravioleta na
qual o preto da tinta se destaca do fundo escurecido do papiro,
possibilitando a leitura que de outra forma seria impossível.
Essa técnica começou a ser empregada nos papiros de
Oxyrhynchus em 2002, e agora estão aparecendo os primeiros
resultados.
Filosofia, matemática, ciência,
artes as mais diversas áreas de conhecimento encontram
suas bases na Grécia de Platão, Pitágoras e
Homero. A herança grega se faz presente na arte de Rafael
e Goya, na literatura de Goethe e Joyce, no pensamento de Freud
e Heidegger e até na linguagem cotidiana, com expressões
como "calcanhar-de-aquiles" e "voto de Minerva". No entanto, o universo
grego é também remoto: seus valores morais, sua religião,
seus hábitos estão muito distantes dos do homem moderno.
Essa relação contraditória com a cultura grega
torna ainda mais relevantes as novas descobertas na área.
Para os estudos clássicos, geralmente muito especializados,
os achados também têm seu valor de marketing
reavivam o interesse geral pelas obras-primas da Antiguidade. "Qualquer
acréscimo à obra dos autores gregos, dos quais se
conhece tão pouco, é sempre importante. Esse tipo
de material pode provocar uma verdadeira reavaliação
da cultura clássica", diz o tradutor e professor de língua
grega Trajano Vieira, da Universidade Estadual de Campinas.
Entre as novidades dos papiros, destaca-se
um poema até hoje desconhecido de Arquíloco. Sabe-se
pouco da vida desse poeta do século VII a.C. Foi o primeiro
a escrever poesia lírica, em um tom pessoal muito diferente
do dos épicos de Homero e até hoje só
se conheciam 500 versos seus. O novo poema de Arquíloco deve
ser publicado no mês que vem, dentro de uma série de
livros do projeto Papiros de Oxyrhynchus, com uma transcrição
do original grego acompanhada de tradução em inglês.
É uma elegia em que se contam as desventuras da armada grega
a caminho da Guerra de Tróia. Não é dos episódios
mais heróicos: os navios gregos se perdem e vão aportar
em outra cidade. Os soldados, no entanto, pensam erroneamente que
já estão em Tróia e partem para o ataque
apenas para sofrer uma humilhante derrota.
A imagem multiespectral também desvendou
textos inéditos de Hesíodo poeta que viveu
mais ou menos na mesma época que Arquíloco
e dos dramaturgos Sófocles e Eurípides, do século
V a.C. "São fragmentos de tragédias, mas nós
temos esperança de que, com pedaços de outros papiros,
um dia seja possível reconstituir essas peças integralmente",
diz Obbink. Também foi possível descobrir quarenta
fragmentos da História de Heródoto. Não
é um livro inédito, mas os papiros ajudam a estabelecer
o texto de Heródoto com maior precisão, já
que deve ser a mais antiga cópia existente dessa obra.
Esses clássicos eram obras de leitura
cotidiana entre os cidadãos da helenizada Oxyrhynchus. O
uso do grego disseminou-se no Egito depois que o país foi
conquistado por Alexandre, o Grande, no século IV a.C.
e os romanos que integraram o país a seu império três
séculos depois nunca se preocuparam em impor o latim como
língua oficial. É por isso que 99% dos papiros estão
em grego (o restante inclui pequenos fragmentos em latim, copta,
hebraico e persa, entre outras línguas). "Os papiros de Oxyrhynchus
são uma coleção muito abrangente. Incluem textos
de virtualmente todos os autores conhecidos da Grécia antiga",
diz Obbink. Nem todo esse material será inédito ou
desconhecido. Ainda assim, a amplitude da coleção
cria grandes expectativas. Já se encontraram excertos do
filósofo Aristóteles entre os papiros. A esperança
de Obbink é que no futuro, em meio aos milhares de papiros
ainda a ser examinados, se encontre o tratado aristotélico
sobre a comédia, uma obra perdida em torno da qual se criou
uma aura lendária, explorada no romance O Nome da Rosa,
de Umberto Eco nesse livro, as páginas envenenadas
de uma cópia secreta do tratado são responsáveis
pela morte de vários monges num mosteiro medieval.
Os papiros também guardam a promessa
de refinar o conhecimento do mundo antigo em seus detalhes cotidianos.
Afinal, eles vêm de um depósito de lixo é
óbvio que lá não se encontrariam apenas obras
literárias. Há vários outros documentos que
permitem um vislumbre de como seria a vida em Oxyrhynchus. Já
se descobriu, por exemplo, um relatório de ronda de um guarda
noturno com o nome de todas as casas de comércio no seu caminho.
A mais antiga menção ao domingo (dia que não
existia no calendário pagão) está nos papiros
data de 291 d.C. Também se descobriu que, quando um
novo imperador subia ao poder em Roma, a notícia levava cerca
de seis semanas o tempo de viagem do mensageiro para
alcançar o Egito. Convites para festas, consultas a oráculos,
horóscopos: as pequenas notas contidas entre os papiros permitem
que se entenda melhor o universo que gerou tantos gigantes da filosofia
e da literatura.
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