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Brasil Por
que parou? Parou por quê? A paralisia da
Câmara é produto do excesso de MPs, mas parte da culpa é
dos próprios parlamentares  Leandra
Peres
Joedson
Alves/AE
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cena comum nos últimos dias: plenário quase vazio, sessões
sem debates e nada de votação |
Nos últimos
trinta dias, os 513 deputados brasileiros votaram sete medidas provisórias,
e nada mais. Foram catorze sessões no plenário, algumas das quais
não duraram mais do que vinte minutos, e nenhuma outra proposta, projeto
ou idéia foi aprovada. Com esse suave ritmo de trabalho, os deputados,
que custam, cada um, 1,25 milhão de reais aos contribuintes todo ano, receberam
quase 20.000 reais por voto. É um péssimo negócio para o
Brasil e para a imagem do Congresso Nacional diante do eleitor. Na quarta-feira
passada, ao abrir uma reunião com os líderes partidários
na qual se discutiria a pauta de votações, o deputado Severino Cavalcanti,
presidente da Câmara, fez um desabafo, culpando o governo pela paralisia
dos trabalhos devido ao excesso de medidas provisórias as MPs, que,
quando chegam ao Congresso, têm de ser votadas em 45 dias e, se isso não
acontecer, nada mais pode ser apreciado."É um virtual fechamento do Congresso.
Falta muito pouco para se igualar aos sombrios tempos do regime militar", disse
Severino, que foi um sólido aliado dos tempos sombrios, ao referir-se ao
famigerado decreto-lei, instrumento semelhante às MPs. Ambos são
mecanismos espertos criados para dar ao Executivo um poder maior de governabilidade.
Ambos diminuem o poder do Legislativo. Renan Calheiros,
presidente do Senado, casa onde os trabalhos estão igualmente emperrados
pela montanha de MPs, também demonstrou sua indignação com
a situação. "É preciso colocar um ponto final nisso. As medidas
provisórias estão deturpando a imagem do Congresso. Essa paralisia
é insuportável", diz Calheiros, que acumula em sua pauta nada menos
que 559 projetos à espera de votação. Sabe-se que o governo,
e este não é o primeiro a fazê-lo, abusa das medidas provisórias.
Em tese, elas só deveriam ser assinadas pelo presidente da República
e enviadas ao Congresso em casos de extrema urgência e relevância
uma situação imprevista, uma catástrofe, uma guerra,
um caso de comoção nacional. Inspiradas na legislação
da Itália, as MPs deveriam ser um instrumento para driblar a burocracia
e dar agilidade ao governo nas horas necessárias. Nada disso, porém,
costuma ser levado em conta. Em governos anteriores, já houve MP sendo
editada até para comprar carro oficial. No atual, manteve-se a banalização
das administrações anteriores. O presidente Lula já editou
143 MPs, o que corresponde à estratosférica marca de cinco por mês.
O que os parlamentares costumam esconder é
o fato de que esse quadro é, também, culpa deles próprios.
No rito oficial, ao chegar ao Congresso, cada MP deveria ser analisada por uma
comissão de parlamentares, que se encarregaria de admiti-la ou não,
avaliando se preenche os critérios obrigatórios de urgência
e relevância. Só nesse filtro, previsto na Constituição
de 1988, cairia a esmagadora maioria das MPs. Ocorre que o Congresso, em dezessete
anos, cumpriu o rito uma única vez. Foi no ano passado, quando analisou
a MP que aumentava o valor do salário mínimo. Antes e depois, nunca
mais uma comissão discutiu a admissibilidade de uma MP. Por quê?
Por inércia dos líderes partidários, que não indicam
membros para a comissão. De novo, é o ócio remunerado. Em
sua defesa, os parlamentares alegam que, se formassem uma comissão para
cada MP editada pelo governo, o Congresso não faria outra coisa na vida.
É verdade, mas também é óbvio que, se uma MP fosse
recusada agora, depois outra e mais outra, logo o governo desistiria de insistir
nesse caminho, pois as MPs teriam deixado de ser eficazes para legislar sobre
tudo. "O problema é causado pelo governo,
mas a solução está no Congresso Nacional, que tem de alterar
o rito de tramitação das medidas provisórias", diz o líder
do PSB, deputado Renato Casagrande. No fim do ano passado, formou-se uma comissão
de deputados e senadores para estudar o assunto. O relatório do deputado
Sigmaringa Seixas, do PT do Distrito Federal, está pronto há mais
de um mês, mas ainda não foi oficialmente apresentado. Nele, o deputado
propõe, entre outras coisas, acabar com as comissões fantasmas,
as tais que deveriam ser formadas mas nunca o são, e transferir a responsabilidade
de admitir ou não as MPs para a Comissão de Constituição
e Justiça, que é permanente. Com isso, os deputados passariam a
exercer algo mais próximo de sua função legislativa. Medidas
provisórias esquisitas, como a que reduziu a tributação do
fubá ou a que obrigava fabricantes a instalar bloqueadores de programação
nos aparelhos de TV, seriam liminarmente rejeitadas pela inequívoca falta
de urgência e relevância. A paralisia
do Congresso, é claro, é circunstancial. Nos momentos em que se
movimentam, os deputados e senadores têm feito coisas importantes. Afinal,
votaram a reforma da Previdência Social, enterraram a parte da MP 232 que
aumentava a tributação sobre prestadores de serviço, aprovaram
a reforma do Judiciário e engavetaram delírios oficiais, como a
criação de um conselho que censuraria a imprensa. O ideal, porém,
seria que esse índice de produtividade se materializasse todas as semanas.
Na semana passada, no entanto, os deputados aprovaram apenas duas MPs uma
que autoriza fiscais da Receita Federal a portar arma de fogo e outra que promove
mudanças na estrutura de cargos no Ministério da Saúde. É
pouco, e o pior é que nem isso foi devidamente debatido. As duas MPs foram
aprovadas, a sessão durou uma hora e as votações ocorreram
em rito sumário, sem contestação ou debate. Nem os parlamentares
que estavam inscritos para defender ou contestar as MPs subiram à tribuna
para falar. Na hora da votação, muitos já estavam a caminho
do aeroporto. Afinal, era quinta-feira, dia de voltar para seus estados. Como
consolo, os deputados encerraram o mês embolsando 20.000 reais por voto.
É, sem dúvida, uma remuneração excelente, mas, aos
olhos dos eleitores, talvez os parlamentares estejam fazendo um mau negócio.
As urnas é que dirão. |