Edição 1903 . 4 de maio de 2005

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Brasil
Não havia o que temer

Lula demorou mais de dois
anos para conceder sua primeira
entrevista coletiva. Ele deu um show.
A imprensa nem tanto


Alexandre Oltramari

 
Jamil Bittar/Reuters
O presidente Lula, na coletiva: seguro, desenvolto e bem-humorado
"Na hora em que eu colocar a inflação no patamar dos países desenvolvidos, certamente nós vamos colocar os juros também no patamar dos países desenvolvidos"

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As entrevistas coletivas são uma das formas mais eficientes de as autoridades de um país prestarem contas de seus atos à sociedade. Quanto mais democrática é uma nação, mais freqüentes são essas sabatinas públicas. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso concedeu uma coletiva por ano durante seus dois mandatos. No mesmo período, Bill Clinton, ex-presidente dos Estados Unidos, foi entrevistado 117 vezes. O atual presidente, George W. Bush, dá uma entrevista por mês, a mesma média do primeiro-ministro da Inglaterra, Tony Blair. Na semana passada, depois de 28 meses de governo, o presidente Lula finalmente deu sua primeira coletiva à imprensa brasileira. A demora deveu-se ao fato de que seus principais assessores temiam que, numa coletiva, ele amplificasse gafes que, volta e meia, aparecem em seus improvisos. Não havia o que temer. Com habilidade para enfrentar platéias e gosto por discorrer sobre seu governo, Lula deu um baile. Estava seguro e desenvolto, foi enfático quando preciso e, na medida certa, distribuiu doses de seu bom humor.

Em uma hora e dez minutos, falando para 178 jornalistas, Lula, que chegou de cara fechada e saiu sorrindo, desfiou bons números do governo, contou histórias de seu tempo de sindicalista e reafirmou sua confiança no ministro Antonio Palocci, da Fazenda. "Eu e o Palocci somos unha e carne", disse. O presidente estava tão seguro que dispensou a leitura de um texto, preparado na véspera por sua assessoria, que deveria servir como introdução à coletiva e no qual ressaltaria o bom desempenho da economia. O discurso era um antídoto ao que os assessores do presidente identificaram como uma "agenda negativa", causada pelas insistentes denúncias contra o ministro da Previdência Social, Romero Jucá, pela discussão sobre o aumento dos juros e pela mancada de Lula ao dizer que os juros não caem porque os brasileiros não tiram o "traseiro" da cadeira para trocar de banco. "Vamos entrar direto na entrevista para ninguém dizer que estou fazendo discurso", brincou Lula. Na prática, o que aconteceu foi mesmo um discurso do presidente.

O formato da entrevista, aliado a perguntas mornas e desinteressantes, foi fundamental para que Lula transformasse a prestação de contas num show. Ao todo, foram catorze perguntas, sem direito a réplica. Quando listou os três principais erros de seu governo, reconhecendo que a política de juros altos não pode ser o único mecanismo para conter a inflação, a platéia ficou sem saber o que o presidente queria dizer com isso. Os juros vão cair? A política econômica vai mudar? Lula descobriu uma alternativa para romper com essa lógica perversa? Ele disse que não vai permitir gastança em 2006, ano eleitoral, e que a estabilidade e o crescimento sustentável são a herança que deixará para as futuras gerações. Igualmente esclarecedoras foram suas declarações a respeito de acusações contra membros do governo. "Se o Supremo Tribunal Federal decidir abrir uma investigação, é apenas uma investigação. Só posso tomar uma atitude quando houver conclusão", afirmou Lula.

Isso quer dizer que um ministro enrolado, como Romero Jucá, só sai do posto se tiver de ir direto para o xilindró. Infelizmente nenhum jornalista se lembrou de adverti-lo de que o ex-presidente Fernando Collor nunca foi condenado pela Justiça. O que mais chamou atenção, encerrada a coletiva, foi o despreparo de parte da imprensa, que não se adaptou ao modelo de entrevista coletiva. Lula fez seu dever de casa, preparou-se para a entrevista, memorizou números e sabia de cor e salteado o que tinha de responder na maioria dos casos. Os jornalistas não fizeram sua parte. Pareciam mais nervosos do que o presidente. Só existe um remédio: tornar essas entrevistas a intervalos cada vez menores – uma vez por mês, por exemplo.

 
 
 
 
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