|
|

Brasil Não havia o
que temer Lula demorou mais de dois anos para
conceder sua primeira entrevista coletiva. Ele deu um show. A imprensa
nem tanto  Alexandre
Oltramari
Jamil Bittar/Reuters
 | O
presidente Lula, na coletiva: seguro, desenvolto e bem-humorado |
| "Na hora em que eu colocar a inflação
no patamar dos países desenvolvidos, certamente nós vamos colocar os juros também
no patamar dos países desenvolvidos" | |
As entrevistas coletivas são
uma das formas mais eficientes de as autoridades de um país prestarem contas
de seus atos à sociedade. Quanto mais democrática é uma nação,
mais freqüentes são essas sabatinas públicas. O ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso concedeu uma coletiva por ano durante seus dois mandatos.
No mesmo período, Bill Clinton, ex-presidente dos Estados Unidos, foi entrevistado
117 vezes. O atual presidente, George W. Bush, dá uma entrevista por mês,
a mesma média do primeiro-ministro da Inglaterra, Tony Blair. Na semana
passada, depois de 28 meses de governo, o presidente Lula finalmente deu sua primeira
coletiva à imprensa brasileira. A demora deveu-se ao fato de que seus principais
assessores temiam que, numa coletiva, ele amplificasse gafes que, volta e meia,
aparecem em seus improvisos. Não havia o que temer. Com habilidade para
enfrentar platéias e gosto por discorrer sobre seu governo, Lula deu um
baile. Estava seguro e desenvolto, foi enfático quando preciso e, na medida
certa, distribuiu doses de seu bom humor. Em
uma hora e dez minutos, falando para 178 jornalistas, Lula, que chegou de cara
fechada e saiu sorrindo, desfiou bons números do governo, contou histórias
de seu tempo de sindicalista e reafirmou sua confiança no ministro Antonio
Palocci, da Fazenda. "Eu e o Palocci somos unha e carne", disse. O presidente
estava tão seguro que dispensou a leitura de um texto, preparado na véspera
por sua assessoria, que deveria servir como introdução à
coletiva e no qual ressaltaria o bom desempenho da economia. O discurso era um
antídoto ao que os assessores do presidente identificaram como uma "agenda
negativa", causada pelas insistentes denúncias contra o ministro da Previdência
Social, Romero Jucá, pela discussão sobre o aumento dos juros e
pela mancada de Lula ao dizer que os juros não caem porque os brasileiros
não tiram o "traseiro" da cadeira para trocar de banco. "Vamos entrar direto
na entrevista para ninguém dizer que estou fazendo discurso", brincou Lula.
Na prática, o que aconteceu foi mesmo um discurso do presidente.
O formato da entrevista, aliado a perguntas mornas e desinteressantes, foi fundamental
para que Lula transformasse a prestação de contas num show. Ao todo,
foram catorze perguntas, sem direito a réplica. Quando listou os três
principais erros de seu governo, reconhecendo que a política de juros altos
não pode ser o único mecanismo para conter a inflação,
a platéia ficou sem saber o que o presidente queria dizer com isso. Os
juros vão cair? A política econômica vai mudar? Lula descobriu
uma alternativa para romper com essa lógica perversa? Ele disse que não
vai permitir gastança em 2006, ano eleitoral, e que a estabilidade e o
crescimento sustentável são a herança que deixará
para as futuras gerações. Igualmente esclarecedoras foram suas declarações
a respeito de acusações contra membros do governo. "Se o Supremo
Tribunal Federal decidir abrir uma investigação, é apenas
uma investigação. Só posso tomar uma atitude quando houver
conclusão", afirmou Lula. Isso quer dizer
que um ministro enrolado, como Romero Jucá, só sai do posto se tiver
de ir direto para o xilindró. Infelizmente nenhum jornalista se lembrou
de adverti-lo de que o ex-presidente Fernando Collor nunca foi condenado pela
Justiça. O que mais chamou atenção, encerrada a coletiva,
foi o despreparo de parte da imprensa, que não se adaptou ao modelo de
entrevista coletiva. Lula fez seu dever de casa, preparou-se para a entrevista,
memorizou números e sabia de cor e salteado o que tinha de responder na
maioria dos casos. Os jornalistas não fizeram sua parte. Pareciam mais
nervosos do que o presidente. Só existe um remédio: tornar essas
entrevistas a intervalos cada vez menores uma vez por mês, por exemplo.
|