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Brasil É
o peso do Estado que dispara os juros Na entrevista
coletiva de sexta-feira, Lula mostrou que sabe muito bem como funciona
a economia. Mas antes, ao pôr a culpa dos juros altos nos cidadãos,
chutou o próprio traseiro  Carina
Nucci e Chrystiane Silva
Numa única semana, o presidente Lula deu
duas contribuições ao debate sobre juros no Brasil. Uma desastrosa.
Outra, redentora. Na segunda-feira, com uma declaração extremamente
infeliz, atribuiu os altos juros cobrados pelos bancos à preguiça
da população. Disse o presidente, com palavras de gosto discutível:
"Às vezes, um cara está num bar com um grupo de amigos xingando
o banco, os juros, o cartão de crédito dele... mas, no dia seguinte,
ele é incapaz de levantar o traseiro de um banco, de uma cadeira, e ir
ao banco mudar, ou ir para o computador fazer a transferência de sua conta
para um banco mais barato. É o comodismo". A reação foi imediata.
Consumidores e empresários mostraram ao presidente, por meio de críticas
contundentes, que seu diagnóstico sobre os juros altos fora o mais estapafúrdio
já elaborado no já criativo e irresponsável debate econômico
brasileiro. Quatro dias depois, numa entrevista
coletiva, Lula redimiu-se espetacularmente ao mostrar que conhece o funcionamento
da economia brasileira. "Na hora em que eu colocar a inflação no
patamar dos países desenvolvidos, certamente nós vamos colocar os
juros também no patamar dos países desenvolvidos", disse ele. Lula
assegurou que a meta de inflação será cumprida com rigor
e reafirmou sua confiança no ministro da Fazenda, Antonio Palocci. "Eu
e Palocci somos unha e carne." Na entrevista, o presidente também foi muito
feliz ao dizer que o governo e a sociedade brasileira não podem depositar
sobre os ombros do Banco Central a responsabilidade única pela manutenção
da estabilidade. A razão é simples. O BC só tem como arma
o aumento dos juros. O governo possui muitas outras (veja
quadro), mas não as usa por timidez política.
Depois dessa semana rica, sob o ponto de vista da retórica presidencial,
Lula precisa agora executar o evangelho que prega. E tem de começar por
sua própria casa movendo o traseiro do Estado. O fato é que
os juros altos têm raízes na ineficiência do governo em controlar
seus gastos. Quando a dívida pública sobe, o governo faz exatamente
o mesmo que o cidadão brasileiro: corre atrás de empréstimos.
E, quando não poupa mais para sair do vermelho, o problema aumenta, como
uma bola-de-neve. Hoje, a dívida do Estado representa mais da metade das
riquezas que o país produz, e consome 68% de tudo o que os bancos têm
para emprestar. O resultado não poderia ser outro: sobra pouco para empresas
e consumidores, todos ávidos por investir e consumir. A situação
piorou muito nos últimos dez anos. Em 1994, quando a distorção
já era grave, o crédito que circulava na economia era 21% acima
da dívida pública. Mas a dívida do governo correu mais rápido
do que a da sociedade: hoje, representa o dobro de todo o crédito que circula
no país. Isso fez com que a economia brasileira conseguisse avançar
sem crédito, ainda que aos trancos e barrancos. No Brasil, a cada 100 reais
produzidos na economia, existem apenas 30 reais de crédito para financiar
a produção e o consumo. No Chile e nos Estados Unidos, essa mesma
relação supera os 60%. Na Europa e na China, a cada 100 euros e
iuanes produzidos, empresas e consumidores encontram outros 100 disponíveis
nos bancos. Portanto, se a discussão é
sobre traseiros, não há como não notar os contornos paquidérmicos
do Estado brasileiro. É ele o principal motivo pelo qual os bancos brasileiros
cobram os maiores juros e registram os maiores lucros do mundo. Na verdade, com
seu poder de sugar o crédito disponível na economia, o governo criou
no Brasil um capitalismo às avessas: em vez de os bancos disputarem a atenção
dos consumidores, os cidadãos e o Estado se digladiam para obter os parcos
recursos disponíveis no sistema financeiro. O resultado desse embate é
óbvio. Entre emprestar ao governo e a uma empresa privada, não há
dilema: o Estado é o melhor cliente que um banco pode querer. Paga religiosamente
em dia e paga bem, porque devolve o empréstimo corrigido pela taxa Selic.
Não há risco algum de crédito, e o ganho é certo.
Aliás, justamente pelo fato de o governo pagar a Selic é que os
bancos só aceitam emprestar a empresas e consumidores se eles pagarem muito
além da taxa básica. "A taxa de juros no Brasil é altíssima,
e, para reduzi-la, o governo precisa melhorar sua situação fiscal.
Esse problema respinga no setor privado porque os juros altos diminuem os investimentos
e inibem o crescimento", explica o analista John Williamson, do Instituto de Economia
Internacional. Joedson
Alves/AE
 | "Tenho
uma ligação política, ideológica, tenho uma relação
de quase trinta anos com o Palocci. Eu e o Palocci somos unha e carne."
Lula sobre Palocci |
Em seu primeiro ano de governo, o presidente Lula parecia ter aplicado a receita
dura, porém necessária, para corrigir o problema. Fez um dos maiores
cortes de gastos já produzidos por um governo democrático. Além
disso, deu os primeiros passos para a mais necessária das reformas, a da
Previdência, cujo déficit consome 15% do orçamento e continua
crescendo. Infelizmente, no entanto, os gastos da administração
federal voltaram a aumentar no ano passado. Despesas com passagens aéreas,
água, luz, cafezinho, telefone, consultorias e pagamento de terceiros subiram
25% para 13 bilhões de reais. A contratação de novos
funcionários inchou a folha de pagamento em outros 7 bilhões de
reais. Na entrevista de sexta-feira, o presidente
Lula mostrou compreender que o desafio de reduzir os juros no Brasil não
pode ser jogado somente nas costas do BC. É de presumir, portanto, que
o governo fará sua parte, cortando na própria carne. Poderia fazer
mais do que isso. Hoje, leis que datam da década de 60, quando o Estado
decidia quem podia investir nesse ou naquele setor da economia, obrigam os bancos
a financiar a produção agrícola e a compra da casa própria
a juros que são a metade da taxa Selic. Esses empréstimos, ao contrário
do que possam sugerir seus nobres propósitos, causam mais malefícios
do que facilidades para a população. Como não controla o
fluxo dessa torneira, o BC é obrigado a dobrar a dose dos juros quando
precisa desaquecer a economia. A melhor imagem para ilustrar o que o BC faz para
compensar esses créditos baratos é a do ato de enxugar o gelo. Ou
a de um helicóptero jogando 1 milhão de reais sobre a metade de
uma cidade enquanto o BC, para cumprir seu papel de controlar a liquidez de todo
o município, retira o exato milhão de reais do bolso dos cidadãos
da outra metade. A carga tributária também contribui para o encarecimento
do crédito no Brasil. No sistema financeiro, os tributos indiretos, como
o do cheque e o que incide sobre as aplicações financeiras, são
embutidos nos juros cobrados do consumidor. A solução, de novo,
está centrada na gastança pública. A Receita Federal só
aceitará reduzir os impostos sobre os empréstimos bancários
se a despesa da máquina administrativa cair.
Se preferir uma medida de efeito, paralelamente à redução
dos gastos públicos, o governo poderia encaminhar com seriedade o projeto
de autonomia do Banco Central, retoricamente defendido pela equipe econômica,
mas travado no Congresso. Um Banco Central autônomo é imune às
pressões políticas e empresariais. A experiência em outros
países provou que onde o BC tem autonomia, a inflação cai
muito mais rápido porque a sociedade confia que a decisão da autoridade
monetária considera somente aspectos técnicos e não sofre
respingos políticos e eleitoreiros. A autonomia também permitiria
ao BC usar a política monetária apenas para controlar a inflação
e assegurar o crescimento econômico contínuo e seguro da economia.
Hoje, existem pressões fortes e o governo às vezes cede a
várias delas para que a taxa de juros seja usada para desvalorizar
o câmbio. Fabio
Motta/AE
 | "As
taxas altas inibem os investimentos e o consumo. Eu concordo com a proposta do
presidente Severino." José Alencar |
Um
bom incentivo para o presidente Lula avançar nesse processo são
medidas implementadas por ele mesmo e que trouxeram resultados surpreendentes
no campo do crédito popular. Em meados de 2003, o governo permitiu que
os bancos cobrassem o empréstimo do cliente assim que seu salário
caísse na conta. O risco zero de calote baixou os juros de 84% para 37%
ao ano. Mais de 5 milhões de pessoas já usaram 15,5 bilhões
de reais do crédito consignado. Desse total, 5 bilhões pertencem
a aposentados do INSS que, em sua maioria, ganhavam até dois salários
mínimos. "Garantias melhores produzem juros menores. O crédito consignado
e o financiamento de automóveis são exemplos disso", avalia Luiz
Fernando Figueiredo, ex-diretor de política monetária do Banco Central.
Muitos brasileiros se perguntam se não é
exagero dar mais garantias aos bancos, que já lucram muito e teriam uma
espécie de oligopólio. O sistema financeiro brasileiro é
concentrado, sim. Os seis maiores bancos controlam mais de 65% do dinheiro dos
brasileiros. Mas é assim também no resto do mundo, tanto nas economias
ricas como em países em desenvolvimento. O problema é que, em virtude
da dívida do governo e do excesso de pessoas e empresas que buscam empréstimos,
os bancos não são estimulados a oferecer taxas diferenciadas para
competir. Aqui, se uma pessoa que usou 1.000 reais de seu cheque especial sair
à procura de juros menores, vai economizar no máximo 10 reais no
fim do mês se trocar de banco e vai pagar muito mais que isso só
para abrir uma nova conta. Também não há opção
quando o assunto é a taxa de manutenção da conta. E o problema
é ainda pior para quem paga juros no cartão de crédito. Nesse
caso, os juros são praticamente idênticos. Raul
Junior
 | | Crédito
com desconto em folha já supera 15 bilhões de reais e aquece as vendas no comércio
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Os brasileiros também não
trocam de banco porque ainda não existe um sistema de informações
que permita aos clientes responsáveis carregar seu bom histórico
de crédito quando mudam de instituição financeira. Está
em discussão no governo a adoção de um Cadastro Positivo,
justamente para cumprir esse objetivo. Esse cadastro, ao contrário da lista
negra de devedores consultada hoje pelos bancos e pelo comércio, teria
somente o nome dos bons pagadores. "É uma medida testada e aprovada em
vários países, que beneficiará o bom pagador", afirma um
dos maiores defensores do projeto no Brasil, o secretário de Defesa Econômica
do Ministério da Justiça, Daniel Goldberg. A partir de junho, o
cliente também poderá incluir em seu talão de cheques a data
em que abriu sua primeira conta bancária. Dessa forma, passará a
valer o tempo em que se tornou cliente do sistema financeiro, e não de
determinado banco. Outro bom projeto em discussão no Congresso é
o que permitirá ao trabalhador escolher o banco no qual vai receber o salário.
Hoje, pelo menos 37 milhões de assalariados não escolhem o banco
com o qual trabalham. Portanto, não podem trocar de banco mesmo se quiserem.
Estado forte e eficiente, competição bancária e segurança
de que o emprestador vai reaver seu dinheiro. Isso funcionou nos países
que deram certo. Vai funcionar no Brasil.
Cinco medidas para baixar
os juros sem mágica Não dá mais para
segurar todas as distorções da economia brasileira apenas pela âncora
dos juros. Essa constatação está se tornando uma unanimidade
nacional. Até Lula reconheceu isso na semana passada. Abaixo, o que fazer:
DAR AUTONOMIA AO BC
Um Banco Central independente afastaria qualquer dúvida de que as decisões
sobre juros possam subordinar-se a interesses políticos ou privados. A
eficiência da política monetária seria aumentada, reduzindo
os juros reais. Segundo o cálculo de Alan Greenspan, presidente do Fed
(o banco central dos EUA), só a autonomia do BC brasileiro reduziria imediatamente
os juros em 3 pontos porcentuais. CORTAR
DESPESAS Como gasta mais do que arrecada, o governo recorre aos bancos
e consome 68% do que as instituições têm para emprestar. Sobra
pouco para os consumidores e empresas, que acabam pagando juros mais altos. Por
essa razão, os bancos brasileiros são os que menos emprestam a empresas
e consumidores no mundo somente 30% do PIB. No Chile, esse porcentual é
de 65%. Na China, ultrapassa 100%. Para reduzir os gastos, é essencial
reformar a Previdência e implantar um sistema austero de gestão do
Estado. DEIXAR O REAL SE VALORIZAR Em
regimes de câmbio flutuante, como o adotado formalmente no Brasil, o Banco
Central não deveria interferir nas taxas de câmbio. A política
monetária deve usar a taxa de juros apenas para manter a inflação
dentro da meta e assegurar o crescimento econômico contínuo e seguro
da economia, independentemente do impacto dos juros sobre a cotação
do real. Para isso, é necessário resistir às pressões
de setores exportadores que, instintivamente, sempre vão pedir um câmbio
mais desvalorizado para incentivar as vendas. REDUZIR
OS IMPOSTOS SOBRE EMPRÉSTIMOS O Brasil
é um dos países que mais tributam as operações financeiras.
A cada 100 reais que o banco empresta ao cliente, pagam-se 29 reais de impostos
e compulsórios. Os tributos que mais punem as operações de
crédito são o imposto sobre operações financeiras
e a CPMF. Para piorar, o Estado cobra menos impostos quando os bancos compram
títulos públicos. Essa é mais uma distorção
na competição desigual entre governo, de um lado, e os cidadãos
e empresas, do outro, pelo pouco crédito disponível para empréstimos
no país. DESENGESSAR O CRÉDITO
Poucas pessoas sabem, mas o BC não controla as taxas de quase 40% dos créditos
disponíveis na economia brasileira. São empréstimos a taxas
subsidiadas que o Estado direciona por lei para a compra da casa própria,
produção rural e financiamentos do BNDES. Ao contrário do
que possam sugerir seus propósitos, esses empréstimos causam mais
mal do que benefícios à sociedade. Como não controla o fluxo
dessa torneira, o BC é obrigado a dobrar a dose dos juros quando precisa
desaquecer a economia. A maioria paga o preço. Carla
Romero/Folha Imagem
 | "Bancos
centrais não autônomos sempre são mais conservadores porque
precisam provar sua independência com juros maiores que os necessários." MAILSON
DA NOBREGA, EX-MINISTRO DA FAZENDA | Tasso
Marcelo/AE
 | "Qualquer
corte abrupto dos juros, sem uma redução da dívida pública,
teria efeitos perversos para o país." JOHN
WILLIAMSOM, ANALISTA DO INSTITUTO DE ECONOMIA INTERNACIONAL DE WASHINGTON
| Paulo Pinto/AE
 | "Só
uma política que alie maior flexibilidade cambial, aumento do superávit
e corte de gastos permitirá a redução dos juros."
PAULO LEME, ANALISTA
DO BANCO GOLDMAN SACHS, EM NOVA YORK | Alaor
Filho/AE
 | "Quem
paga a conta é o cliente, pois o banco repassa o custo dos tributos, encarecendo
o empréstimo." EDWARD
AMADEO, EX-MINISTRO DO TRABALHO | Fabio
Motta/AE
 | "É
injusto o cliente do cheque especial financiar grandes produtores rurais e a casa
própria da classe média." ARMANDO
CASTELAR PINHEIRO, ECONOMISTA DO IPEA |
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