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Cinema A vitória de
Quem Quer Ser um Milionário? no
A cena estampada acima, da comemoração do elenco e equipe de Quem Quer Ser um Milionário? no palco do Oscar no último domigo, causou espanto: por quais caminhos um filme feito com 15 milhões de dólares, falado quase todo em hindi e rodado nas favelas de Mumbai, sem atores conhecidos do público ocidental, chega ao prêmio máximo do Oscar, tendo já colecionado outras sete estatuetas no decorrer da cerimônia? A sensação é a de que algo inédito e imprevisível ocorreu; na história da Academia, presume-se, não é regra que cavalinhos humildes saiam vitoriosos de um páreo com puros-sangues como O Curioso Caso de Benjamin Button. Mas, em que pesem as aparências, Milionário não anuncia uma mudança. O mais certo seria dizer que ele simboliza um conjunto de transformações que já há algum tempo estão em curso e agora atingem seu ápice. O primeiro mito a ser desfeito é o de que o Oscar é uma corrida para superproduções. É claro que os grandes sucessos, como Titanic, são mais lembrados do que as produções modestas, como Shakespeare Apaixonado, o filme baratinho (veja o quadro) que derrubou o dispendioso e ambicioso O Resgate do Soldado Ryan na premiação de 1999. Mas, nos últimos anos, os baratinhos têm sido presença prevalente no Oscar: o cinema independente responde por boa parte da produção ou coprodução americana; e é dele que vêm muitos dos votantes agregados à Academia em tempos recentes. Junta-se, assim, a oportunidade à afinidade. Um exemplo cristalino: em 2006, o favorito O Segredo de Brokeback Mountain, de 14 milhões de dólares, foi derrotado por Crash No Limite, de exíguos 6,5 milhões (e talvez o filme mais barato a jamais conquistar um Oscar). Ou seja: o orçamento de 15 milhões de Milionário está longe de constituir um assombro. O estrangeirismo de Milionário também parece ser original mas não é. Milionário foi rodado em Mumbai, com técnicos na maioria indianos e dinheiro inglês captado em seu país pelo diretor Danny Boyle, e então distribuído no mercado mundial por estúdios americanos. A palavra globalização pode ter virado um clichê vazio mas as práticas que ela possibilita, não. Hoje, o cinema mal tem nacionalidade: o dinheiro transita para lá e para cá, filmes americanos são rodados na Bulgária ou na Austrália, diretores estrangeiros trabalham em Hollywood e às vezes voltam a seu país de origem. Acima de tudo, os temas, rostos e sotaques vindos de outras partes do mundo cada vez menos causam estranheza. Milionário já fez mais de 100 milhões de dólares de bilheteria nos Estados Unidos, onde, rezava a tradição, a plateia rejeita filmes com legendas. Quem Quer Ser um Milionário? deixou, porém, uma pergunta meio desconsolada no ar: por que os indianos conseguiram, e nós não? De novo, a história não é bem essa. O filme de Danny Boyle quase foi lançado direto em DVD nos Estados Unidos, por causa de mudanças nas empresas que detinham seus direitos de distribuição. Acabou ganhando os cinemas porque se considerou que sempre há lugar para filmes "exóticos"; parte do público os prestigia e a crítica faz a festa. Caso mais célebre: Cidade de Deus era violento demais para ser indicado a melhor filme, mas disputou o Oscar em várias das mesmas categorias que Milionário. Pode-se até argumentar que, se Fernando Meirelles já fosse tão conhecido em 2004 quanto Danny Boyle o é desde os anos 90, quando lançou Trainspotting, Cidade de Deus teria tido boas chances de figurar no páreo principal. Só numa coisa, essa irreplicável, Boyle acertou mesmo no alvo: no otimismo de seu filme, que coincide em cheio com o espírito do momento. E, assim, ganhou o Oscar inaugural da era Obama.
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