Dois atores fabulosos
recriam o enfrentamento
entre David Frost, um frívolo apresentador de TV,
e o ex-presidente caído em desgraça Richard
Nixon
Isabela Boscov
Fotos divulgação
ADVERSÁRIOS
IMPROVÁVEIS Sheen (à esq.),
como Frost, e Langella, como Nixon: para surpresa
geral, foi para o zé-ninguém que o ex-presidente
admitiu seus crimes
Em 1974, o presidente
Richard Nixon renunciou ao mandato em meio ao mais lamacento
escândalo da política americana: seu envolvimento
direto na espionagem das atividades internas do seu adversário,
o Partido Democrata. O caso Watergate, como ficou conhecido,
até hoje vem à baila quando uma tramoia governamental
é descoberta. E o nome de Nixon ficou também
ele arrasado, pelas razões que o levaram à renúncia
e pela arrogância que demonstrou nesse momento traumático:
desistiu do cargo apenas para evitar o impeachment, não
se explicou e não se desculpou. Um homem de grande
complexidade e de muitos complexos , Nixon já
foi objeto de inúmeras dissecções acadêmicas
e ficcionais. Uma das tentativas mais instigantes de jogar
luz sobre ele partiu do dramaturgo inglês Peter Morgan,
que recriou, em forma de teatro, um episódio notório.
Em 1977, Nixon concordou em gravar uma série de entrevistas
com o inglês David Frost, que não era jornalista
nem leitor assíduo de jornais, e sim apresentador de
programas de variedades. Para surpresa geral, Nixon terminou
dizendo a Frost o que nunca admitira antes: que sua conduta
fora ilegal. E fez um relutante, mas inesperado, pedido de
desculpas. A história desse enfrentamento é
o que narra Frost/Nixon (Estados Unidos/ Inglaterra,
2008), que estreia nesta sexta-feira no país.
Adaptado pelo próprio Morgan
roteirista também de A Rainha e
dirigido por Ron Howard, o filme tem um trunfo incalculável
em seu favor: a dupla formada por Michael Sheen (o Tony Blair
de A Rainha) e pelo veterano Frank Langella, que já
interpretara os mesmos papéis no palco. O trabalho de
Langella, que concorreu ao Oscar, é exemplar. Em vez
de se apoiar nos traços físicos de Nixon, como
o célebre nariz de pista de esqui, ele crava o ressentimento,
o senso de que fora injustiçado e a prepotência
que davam ao presidente seu ar escorregadio e sinistro. Sheen
não fica atrás, e tem uma tarefa talvez até
mais desafiadora: a de mostrar as correntes subterrâneas
de um homem que fazia questão de ser superficial. Ron
Howard, como já ficou amplamente demonstrado em filmes
como Apollo 13 e Uma Mente Brilhante, é
um diretor avesso a conflitos e dado a arredondar arestas. Tudo
o que ele tira em adrenalina de Frost/Nixon, porém,
seus atores contrabandeiam de volta para suas cenas. E com sobra.