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"O Brasil poderia
ter aproveitado a bonança mundial A crise não deve quebrar o Brasil, mas o presidente Lula diz que tem gente torcendo para que isso aconteça. Deve ser algum lunático ou um político imbecil a imaginar que é bom herdar o caos. O discurso do presidente cheira a teoria conspiratória para sensibilizar certas plateias. Convencionou-se dizer que um país quebra quando não consegue honrar compromissos de sua dívida externa. É o resultado de erros de política econômica ou da chamada "parada súbita" de fluxos externos. Isso ocorreu com o Brasil várias vezes: na República Velha, no período Vargas, na quadra democrática de 1946-1964 e no regime militar. Sustado o pagamento da dívida, seguem-se discussões difíceis com os credores, que podem durar anos. O pior desses episódios, o de 1982, teve várias fases até ser concluído, em 1993. Em 1987, numa dessas fases, o novo governo civil decretou uma inconsequente moratória unilateral. Realçou a quebra do país (que vinha do regime militar) e declarou que não tinha intenção de pagar. O erro tem reflexos até hoje. A partir dos anos 1990, as quebras se tornaram raridade. Houve apenas duas: Rússia (1998) e Argentina (2001). A maioria dos países tem gestão macroeconômica responsável, evitando as crises externas de origem interna. Os gigantescos apoios do Fundo Monetário Internacional (FMI) impediram quebras via "paradas súbitas". Antes, o acordo máximo havia chegado a 6 bilhões de dólares. Em 1994, o do México inaugurou a nova realidade: mais de 50 bilhões de dólares. A essa dupla melhoria seguiu-se uma terceira: a combinação, particularmente a partir de 2003, do crescimento espetacular da China com um vigoroso ciclo de prosperidade mundial. Países emergentes que antes quebravam se beneficiaram do aumento da demanda e dos preços de suas commodities. O Brasil ganhou mais por ser também forte exportador de produtos manufaturados. Esses países passaram a produzir superávits externos e a acumular robustas reservas internacionais. Todos, inclusive o Brasil, pagaram a dívida com o FMI. Lula explorou politicamente o fato perante um público pouco informado e avesso ao Fundo. Teria sido um ato de coragem do presidente, que "mandou embora o FMI". Ato efetivo de coragem foi abandonar as ideias equivocadas do PT e manter a política econômica herdada do antecessor. A continuidade preservou o processo de amadurecimento das mudanças institucionais introduzidas por governos anteriores, das quais proveio o tripé que constituiu a barreira contra a maré da crise: metas para a inflação, câmbio flutuante e superávits fiscais primários. O Brasil poderia ter aproveitado melhor a bonança mundial se preconceitos ideológicos não tivessem retardado investimentos privados em infraestrutura como os de energia e transporte rodoviário e as reformas não houvessem minguado no atual governo. Mesmo assim, a estabilidade macroeconômica permitiu que tivessem curso a elevação do potencial de crescimento e a acumulação de robustas reservas internacionais. Ao contrário de crises passadas, esta encontrou os países emergentes menos vulneráveis. Nenhum quebrou até agora, apesar da gravidade e da duração da turbulência. O Brasil não é exceção nem deve isso apenas ao atual governo, como se tenta fazer crer. A estabilidade política, a política econômica crível com destaque para o Banco Central e o pagamento regular da dívida nos tornaram um risco relativamente menor. Isso é claro no prêmio de risco dos papéis brasileiros, medido pelo banco J.P. Morgan. No início de 2003, ainda sob os efeitos do "pânico Lula" (o medo de retrocesso), o prêmio era de 1.443 pontos básicos (cada 100 pontos equivalem a 1 ponto porcentual acima da taxa de juros de títulos do Tesouro americano), 89% pior do que a média dos países emergentes. Em abril de 2007, o prêmio igualou a média e em dezembro caiu para 163 pontos. Já era 7,5% melhor do que a média. Com a crise, agora supera os 400 pontos, mas piorou menos do que o dos outros países. É 35% melhor do que a média. Maiores pioras: Equador, Venezuela e Argentina, nessa ordem. Alguma pista? O Brasil quebra se houver uma guinada na política econômica, mas Lula é contra essa maluquice. Assim, o risco de irmos para o beleléu é muito baixo. Maílson da Nóbrega é economista
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