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Edição 2102

4 de março de 2009
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Sociedade
Tudo na vida tem preço

Até a morte: a inglesa Jade Goody, conhecida
participante de reality shows, descobre que tem câncer
e vende os direitos de imagem de seus últimos meses

A inglesa Jade Goody, 27 anos, fez carreira no mundo dos reality shows. Quem já assistiu a um Big Brother entende por quê: é do tipo que nunca ganha a disputa, mas fala pelos cotovelos, tem comportamento inconveniente e não hesita em abrir seus sentimentos mais íntimos, mesmo não tendo muito que mostrar lá dentro. Em suma, não tem censura. Fazendo o personagem que o público adora criticar, Jade garantiu seu lugar no congestionado mundo das celebridades de segunda linha. Assim que ganhou os primeiros dividendos da fama, fez os seios implantados e os lábios precocemente inflados que são quase uma marca registrada da categoria. Suas gafes viraram parte do patrimônio nacional de asneiras. No primeiro Big Brother, em 2002, confundiu Rio de Janeiro, a cidade, com Rio Ferdinand, o jogador de futebol, e achou que pistache fosse o nome de um pintor. No segundo, em 2007, fez comentários de teor racista sobre uma participante indiana e acabou expulsa do programa. A falta de jeito e a exposição sem limites não mudaram, ao contrário, acentuaram-se em agosto passado, quando Jade descobriu, diante das câmeras, que tinha câncer cervical. Desde então, ela vem protagonizando uma espécie de reality show terminal. Diante das câmeras, ela iniciou a quimioterapia. Diante das câmeras, perdeu o cabelo. Diante das câmeras, foi informada de que o câncer se espalhou e que tem pouco tempo de vida. Diante das câmeras, no último dia 22, casou-se. Diante delas, nos próximos dias, pretende batizar os filhos Bobby, 5 anos, e Freddie, 4. Com a mesma naturalidade com que as moças bonitas saem do Big Brother para posar nuas (e os rapazes também, "desde que paguem"), Jade admite que está fazendo tudo por dinheiro. "Quero deixar dinheiro para a escola dos meus filhos", declarou em entrevista, paga, naturalmente. Com o show do câncer, Jade amealhou até agora cerca de 1 milhão de libras (3,3 milhões de reais) e a simpatia de famosos e anônimos, que antes riam dela e agora se condoem. Até o primeiro-ministro Gordon Brown, pouco conhecido pela expressão de emoções, manifestou-lhe solidariedade. Jade ri, chora e diz frases do gênero "agora já posso ir para o céu".

O drama da ex-assistente de dentista, gordinha e suburbana, começou em agosto de 2008, quando ela já estava de malinha pronta para entrar no Big Boss, programa nos moldes do Big Brother passado em Mumbai, na Índia (sim, os tais comentários racistas também renderam). Ela sabia que tinha lesões pré-cancerosas, fez exames, viajou e, duas semanas depois, com tudo arranjado para dramatizar a chegada do resultado, recebeu um telefonema informando que o diagnóstico era câncer. A Índia, e em seguida a Inglaterra, acompanhou segundo a segundo seu choro e seu desespero. Jade já estava sob contrato com uma produtora de TV interessada em produzir uma série de programas sobre sua vida. Ela voltou a Londres, e a equipe passou a gravar, e mostrar em uma espécie de seriado, todos os seus momentos importantes: a cirurgia para extrair útero e ovários, as sessões de quimioterapia, a calvície primeiro escondida e depois exposta na TV. O namoro dela com um rapaz de 21 anos, Jack Straw, também teve capítulos movimentados, não obstante ele estivesse momentaneamente fora do circuito, curtindo pena de cadeia por agressão. Há um mês, desabou a notícia dramática de que o câncer havia progredido e ela só teria algumas "semanas" de vida. Em liberdade vigiada, Jack fez o pedido de casamento (ela em cadeira de rodas, um fotógrafo a postos). A festa foi bancada por patrocinadores e as fotos, exclusivas, saíram na revista OK!, que pagou o equivalente a 2,3 milhões de reais pelos direitos. "Passei os últimos anos falando da minha vida. A única diferença é que agora falo da minha morte. Tudo bem. Vivi na frente das câmeras. Pode ser que venha a morrer diante delas", disse Jade.



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