Edição 1839 . 4 de fevereiro de 2004

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Cinema
Tudo em família

Com a ajuda das filhas, o irlandês Jim Sheridan
cria um drama tocante inspirado em sua vida


Marcelo Marthe


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Terra de Sonhos: Samantha (à dir.) concorre ao Oscar pela segunda vez


Fotos
Trailer

Ao cruzarem a fronteira canadense em direção aos Estados Unidos, onde pretendem recomeçar sua vida como imigrantes ilegais, os irlandeses Johnny (Paddy Considine) e Sarah (Samantha Morton) são abordados por um agente aduaneiro. Ele pergunta quantos filhos o casal tem. "Três", diz Johnny. "Dois", corrige Sarah, com ar de tristeza. O ato falho não é à toa: a família, que se completa com duas filhas pequenas, ainda não superou a morte do caçula, Frankie, acometido por um tumor cerebral. Mais que uma tentativa de escapar à dureza em que viviam em Dublin – e, no caso de Johnny, de se realizar como ator –, a ida para Nova York é uma fuga desse fantasma. O drama Terra de Sonhos (In America, Irlanda/Inglaterra, 2002), que estréia no país nesta sexta, é um exercício de expiação autobiográfica do irlandês Jim Sheridan. Nos anos 80, antes de se tornar o bem-sucedido diretor de Meu Pé Esquerdo (1989), ele também passou uma temporada difícil nos Estados Unidos. Na infância, perdeu um irmão do mesmo nome e pela mesma causa. Além disso, sua mulher enfrentou uma gravidez de alto risco, como a vivida pela personagem de Samantha Morton. Graças ao papel, a atriz inglesa obteve sua segunda indicação ao Oscar (a primeira foi em 2000, com Poucas e Boas, de Woody Allen). O filme concorre ainda às estatuetas de roteiro original, concebido pelo cineasta e suas filhas Kirsten e Naomi, e ator coadjuvante, com o africano Djimon Hounsou (de Amistad).


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Hounsou: papel de um pintor atormentado

Terra de Sonhos é uma história de redenção familiar com um quê de conto de fadas. Em boa parte da fita, a perspectiva é a das filhas do casal, interpretadas pelas atrizes mirins Emma e Sarah Bolger, irmãs na vida real. A garota mais velha acredita ter ligação espiritual com o irmão morto, o que lhe daria o dom de realizar três desejos pela felicidade do clã – artifício usado em momentos críticos, como aquele em que eles quase são barrados na fronteira americana. Hounsou vive um pintor atormentado, vizinho da família num cortiço nova-iorquino habitado por delinqüentes. Personagem típico de melodrama, sua função na trama é liberar as travas dos relacionamentos. Depois de ter sua existência iluminada pelo contato com as meninas, ele será figura-chave para que o casal supere seus tormentos.

Com tais ingredientes, um diretor de mão pesada produziria um filme sentimentalista e manipulativo. Não é esse o caso de Sheridan, que demonstrou sua habilidade em lidar com temas edificantes em Meu Pé Esquerdo, no qual um deficiente vence obstáculos para se tornar artista. Ele constrói personagens que parecem de carne e osso e extrai interpretações sinceras. Em Terra de Sonhos, não são apenas os indicados ao Oscar que se destacam. Há que se fazer justiça ao pouco conhecido Considine, que imprime intensidade à figura do pai em luta para recobrar o sentido da vida.

 
As indicações

• Atriz ­ Samantha Morton

• Ator coadjuvante ­ Djimon Hounsou

• Roteiro original

 
 
 
 
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