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Televisão
Movimento
dos Sem-Tela
Eles
perderam seu espaço na TV,
e agora lutam para voltar ao ar

Ricardo Valladares
Montagem sobre fotos de Claudio Rossi/João
Passos/Heudes Regis/Cida Souza. Ilustração Baptistão
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| Babi,
Jackeline Petkovic, Gorete Milagres, Olga Bongiovanni e Marcos
Mion: reforma televisiva já! |
Eles
já tiveram um lugar ao sol, mas a lógica implacável
dos negócios os empurrou para as margens do sistema. Excluídos,
eles lutam para sobreviver. Não fazem passeatas nem gritam
palavras de ordem. Mas, se um dia resolverem se unir, uma boa sigla
já está à mão: MST Movimento
dos Trabalhadores Sem-Tela. No momento, engrossam as fileiras desse
grupo figuras como Olga Bongiovanni, Gorete Milagres, Marcos Mion,
Babi e Jackeline Petkovic. Todos tiveram os contratos encerrados
nas emissoras em que trabalhavam até recentemente, e estão
à procura de emprego. A seu favor conta o fato de que os
canais de TV podem ser uma espécie de latifúndio,
mas não do tipo improdutivo: sempre há programas germinando.
Outros fatores, porém, pesam contra eles. Alguns deram passos
em falso na carreira. Além disso, há uma multidão
de aspirantes à fama no mercado. E a TV adora uma cara nova.
Uma
sem-tela graúda é Olga Bongiovanni. Até o fim
do ano passado, ela ficava três horas e meia à frente
do Dia Dia, exibido diariamente pela Bandeirantes. Seu contrato
venceu em dezembro e não foi renovado. Olga diz que vai gravar
um piloto para o SBT e que já foi sondada por outra emissora.
"Espero voltar ao ar em março", afirma. Elegantemente, a
Bandeirantes desdobra-se em elogios à ex-funcionária,
mas diz que pretende aumentar os negócios de televendas no
horário da manhã e para isso precisa de outro tipo
de apresentador. Não que Olga fizesse feio. Ela chegava a
comandar 480 inserções de merchandising por mês.
Entre salário e extras, embolsava 200.000
reais. "Podia até ficar com mais dinheiro, mas eu não
faço rolo como algumas pessoas da TV e pago meus impostos
direitinho. Além disso, essas empresas de merchandising nem
sempre acertam as contas em dia. Tenho dívidas a receber",
diz Olga.
Dinheiro
quase nunca é um problema imediato para quem passou pela
TV. Mais graves podem ser os danos ao ego. Para a ex-animadora de
programas infantis Mara Maravilha, o ostracismo está entre
os piores flagelos de um sem-tela. "Muitos amigos me deixaram quando
saí da TV", diz Mara, 10 quilos mais gorda do que no auge
da fama. "Demorou para eu pôr a cabeça no lugar, mas
agora estou pronta para voltar." Olga Bongiovanni diz que está
feliz, mas, por via das dúvidas, fez uma daquelas cirurgias
com que as mulheres elevam a auto-estima: na semana passada, pôs
silicone nos seios.
Olga
saiu de uma carreira longa para um desemprego que, parece, será
breve. Um tipo mais comum de sem-tela é aquele que teve uma
ascensão vertiginosa e uma queda igualmente rápida.
Por exemplo, Marcos Mion. Ele começou na MTV e então
foi contratado pela Bandeirantes com mordomias de estrela e um salário
de 50.000 reais por mês. Mion tinha
grande autonomia em seu programa. Como não encontrou a fórmula
certa, saiu do ar em maio de 2003 e ficou na geladeira da emissora
até o fim do ano, quando seu contrato acabou. "Não
é fácil sobreviver na TV", reconhece o rapaz. "Nem
sei mais se quero ser apresentador. Sou ator, e tentarei seguir
esse caminho." Se tudo der errado, ele tem uma pizzaria e
vai lançar uma grife de camisetas.
Ex-namorada
de Mion, a apresentadora Babi teve trajetória semelhante.
Também estourou na MTV, depois foi contratada pelo SBT para
comandar um show noturno. Quando esse show fracassou, ela ficou
sem espaço na emissora. Antes de virar sem-tela, vinha fazendo
pontas no humorístico A Praça É Nossa.
A seu lado, aparecia Gorete Milagres. Quatro anos atrás,
Gorete fazia tanto sucesso no SBT que chegou a ser sondada pela
Globo. A negociação se transformou num imbróglio
e Gorete acabou ficando no SBT, onde viu seu prestígio diminuir
progressivamente. "Quem trabalha em televisão vive ciclos.
É assim mesmo", diz a atriz.
Nos
últimos anos, o número de programas cresceu na televisão
em vez de diminuir. Isso facilita a tarefa de retornar ao status
de "com-tela", mas, em alguns casos, será preciso mudar de
perfil ou se contentar com menos. Jackeline, por exemplo, deve aproveitar
a beleza para alçar outros vôos. É difícil
que emplaque novamente como apresentadora infantil. O SBT rescindiu
com ela ao perceber que sua presença não influía
na audiência do Bom Dia & Cia. Em vez de pagar-lhe
20 000 reais, decidiu gastar 6 000 com duas crianças. "Os
salários dos apresentadores são irreais. Talvez tenha
chegado o momento de investir mais em produção do
que em nomes", diz Silvio Santos, do SBT.
Para
aqueles que se virem na situação de sem-tela, eis
a lição de Clodovil. Ele já entrou e saiu da
TV várias vezes. No ano passado, amargava um longo período
de esquecimento quando fez uma ousadia. Foi ao Altas Horas,
apresentado por Serginho Groisman na Globo, e rasgou o coração
em público. "Fiz como a atriz Bette Davis nos anos 60. Pedi
licença para me vender ao público, uma coisa que sei
fazer bem." A dramatização deu certo e Clodovil tem
hoje um horário na Rede TV!. Para quem faz parte do MST (dos
sem-tela, enfatize-se), invadir o programa alheio pode render um
assentamento em algum canal.
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