Edição 1839 . 4 de fevereiro de 2004

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Televisão
Movimento dos Sem-Tela

Eles perderam seu espaço na TV,
e agora lutam para voltar ao ar


Ricardo Valladares

Montagem sobre fotos de Claudio Rossi/João Passos/Heudes Regis/Cida Souza. Ilustração Baptistão
Babi, Jackeline Petkovic, Gorete Milagres, Olga Bongiovanni e Marcos Mion: reforma televisiva já!

Eles já tiveram um lugar ao sol, mas a lógica implacável dos negócios os empurrou para as margens do sistema. Excluídos, eles lutam para sobreviver. Não fazem passeatas nem gritam palavras de ordem. Mas, se um dia resolverem se unir, uma boa sigla já está à mão: MST – Movimento dos Trabalhadores Sem-Tela. No momento, engrossam as fileiras desse grupo figuras como Olga Bongiovanni, Gorete Milagres, Marcos Mion, Babi e Jackeline Petkovic. Todos tiveram os contratos encerrados nas emissoras em que trabalhavam até recentemente, e estão à procura de emprego. A seu favor conta o fato de que os canais de TV podem ser uma espécie de latifúndio, mas não do tipo improdutivo: sempre há programas germinando. Outros fatores, porém, pesam contra eles. Alguns deram passos em falso na carreira. Além disso, há uma multidão de aspirantes à fama no mercado. E a TV adora uma cara nova.

Uma sem-tela graúda é Olga Bongiovanni. Até o fim do ano passado, ela ficava três horas e meia à frente do Dia Dia, exibido diariamente pela Bandeirantes. Seu contrato venceu em dezembro e não foi renovado. Olga diz que vai gravar um piloto para o SBT e que já foi sondada por outra emissora. "Espero voltar ao ar em março", afirma. Elegantemente, a Bandeirantes desdobra-se em elogios à ex-funcionária, mas diz que pretende aumentar os negócios de televendas no horário da manhã e para isso precisa de outro tipo de apresentador. Não que Olga fizesse feio. Ela chegava a comandar 480 inserções de merchandising por mês. Entre salário e extras, embolsava 200.000 reais. "Podia até ficar com mais dinheiro, mas eu não faço rolo como algumas pessoas da TV e pago meus impostos direitinho. Além disso, essas empresas de merchandising nem sempre acertam as contas em dia. Tenho dívidas a receber", diz Olga.

Dinheiro quase nunca é um problema imediato para quem passou pela TV. Mais graves podem ser os danos ao ego. Para a ex-animadora de programas infantis Mara Maravilha, o ostracismo está entre os piores flagelos de um sem-tela. "Muitos amigos me deixaram quando saí da TV", diz Mara, 10 quilos mais gorda do que no auge da fama. "Demorou para eu pôr a cabeça no lugar, mas agora estou pronta para voltar." Olga Bongiovanni diz que está feliz, mas, por via das dúvidas, fez uma daquelas cirurgias com que as mulheres elevam a auto-estima: na semana passada, pôs silicone nos seios.

Olga saiu de uma carreira longa para um desemprego que, parece, será breve. Um tipo mais comum de sem-tela é aquele que teve uma ascensão vertiginosa e uma queda igualmente rápida. Por exemplo, Marcos Mion. Ele começou na MTV e então foi contratado pela Bandeirantes com mordomias de estrela e um salário de 50.000 reais por mês. Mion tinha grande autonomia em seu programa. Como não encontrou a fórmula certa, saiu do ar em maio de 2003 e ficou na geladeira da emissora até o fim do ano, quando seu contrato acabou. "Não é fácil sobreviver na TV", reconhece o rapaz. "Nem sei mais se quero ser apresentador. Sou ator, e tentarei seguir esse caminho." Se tudo der errado, ele tem uma pizzaria – e vai lançar uma grife de camisetas.

Ex-namorada de Mion, a apresentadora Babi teve trajetória semelhante. Também estourou na MTV, depois foi contratada pelo SBT para comandar um show noturno. Quando esse show fracassou, ela ficou sem espaço na emissora. Antes de virar sem-tela, vinha fazendo pontas no humorístico A Praça É Nossa. A seu lado, aparecia Gorete Milagres. Quatro anos atrás, Gorete fazia tanto sucesso no SBT que chegou a ser sondada pela Globo. A negociação se transformou num imbróglio e Gorete acabou ficando no SBT, onde viu seu prestígio diminuir progressivamente. "Quem trabalha em televisão vive ciclos. É assim mesmo", diz a atriz.

Nos últimos anos, o número de programas cresceu na televisão em vez de diminuir. Isso facilita a tarefa de retornar ao status de "com-tela", mas, em alguns casos, será preciso mudar de perfil ou se contentar com menos. Jackeline, por exemplo, deve aproveitar a beleza para alçar outros vôos. É difícil que emplaque novamente como apresentadora infantil. O SBT rescindiu com ela ao perceber que sua presença não influía na audiência do Bom Dia & Cia. Em vez de pagar-lhe 20 000 reais, decidiu gastar 6 000 com duas crianças. "Os salários dos apresentadores são irreais. Talvez tenha chegado o momento de investir mais em produção do que em nomes", diz Silvio Santos, do SBT.

Para aqueles que se virem na situação de sem-tela, eis a lição de Clodovil. Ele já entrou e saiu da TV várias vezes. No ano passado, amargava um longo período de esquecimento quando fez uma ousadia. Foi ao Altas Horas, apresentado por Serginho Groisman na Globo, e rasgou o coração em público. "Fiz como a atriz Bette Davis nos anos 60. Pedi licença para me vender ao público, uma coisa que sei fazer bem." A dramatização deu certo e Clodovil tem hoje um horário na Rede TV!. Para quem faz parte do MST (dos sem-tela, enfatize-se), invadir o programa alheio pode render um assentamento em algum canal.

 
 
 
 
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