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Livros
Capitalismo
selvagem
Como
as feras do mundo animal, os ricos têm
o "triplo A" de ávido, agressivo e acumulador

Marilia Pacheco Fiorillo
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O zoomorfismo,
que consiste em tratar gente como se fosse bicho, tem uma longa
história em mitos religiosos e fábulas literárias.
O jornalista americano Richard Conniff retoma essa tradição
de maneira hilariante em História Natural dos Ricos
(tradução de Lúcia Ribeiro da Silva,
Jorge Zahar, 383 páginas, 45 reais), acrescentando-lhe elementos
de pesquisas biológicas recentes, que exploram semelhanças
entre o homem e os outros animais. Colaborador das revistas National
Geographic e Smithsonian, Conniff conhece bem esse material.
Ele é autor de livros sobre roedores, vermes e outros seres
arrepiantes. Em História Natural dos Ricos brinca
com os dados científicos para enfocar a hipotética
subespécie do Homo sapiens pecuniosus (os milionários)
e mostrar como ela se comporta na hora de acasalar, "conquistar
territórios" e "partilhar a comida". Exatamente como os machos
alfa entre os símios, ricaços como Ted Turner, John
D. Rockefeller, Bill Gates, J.P. Getty, Donald Trump, Warren Buffett,
os Vanderbilt e os Rothschild possuiriam características
que os biólogos agrupam sob a sigla "triplo A" de
ávido, agressivo e acumulador.
Ao
contrário dos biólogos, que observam um mesmo grupo
de animais durante um longo período de tempo, Richard Conniff
borboleteia de Paris a Palm Beach em busca de seus espécimes.
Sua taxonomia inclui, por exemplo, os ricos cascas-grossas como
Henry T. Nicholas, da Broadcom Corporation, que, ao humilhar seus
subordinados publicamente, está imitando o chimpanzé
"Mike", estudado pela primatologista Jane Goodall. "Mike" ficou
famoso porque descobriu um atalho para a posição de
macho dominante, fazendo um barulho intimidatório com duas
latas vazias. No outro extremo, há os ricos que mandam na
maciota filantropos e festeiros que se assemelham ao chimpanzé
"Ntologi", observado na Tanzânia por Frans de Waal, outro
importante estudioso dos símios. "Ntologi" usava comida para
aliciar a simpatia de fêmeas e machos mais velhos. Em espírito
semelhante, um dos irmãos Rothschild teria observado certa
vez que os "entretenimentos pródigos" (ou seja, as festas
de boca-livre) eram "o mesmo que subornos".
Já
a infidelidade, como diria o biólogo Richard Dawkins, autor
do clássico estudo evolucionista O Gene Egoísta,
faz parte do DNA de todo animal dominante, seja ele lorde antigo
ou novo-rico. Somada à endogamia os Rothschild e os
Du Pont, lembra Conniff, vivem casando entre primos , a infidelidade
é a melhor tática de formação de dinastias,
pois permite que os genes se disseminem ao máximo, enquanto
as fortunas não saem do círculo familiar (os bastardos
raramente herdam). Exibicionista ou discreto, todo rico, segundo
Conniff, pratica ainda a "estratégia de catação"
da macaca "Leslie", observada no Quênia pelos biólogos
americanos Seyfarth e Cheney. A técnica de "Leslie" era lançar
beijinhos no ar para suas rivais, depois catar-lhes carrapichos,
fazê-las abaixar a guarda e, no final, dar-lhes uma boa dentada.
Sob o sol das savanas ou sob os holofotes da revista Fortune,
não importa: reúna três primatas e infalivelmente
você encontrará bajulação, mexerico,
traição e oportunismo.
A
escritora americana Dorothy Parker dizia, irônica, que, se
alguém quiser saber o que Deus acha do dinheiro, "só
precisa olhar para as pessoas a quem Ele o deu". O livro de Conniff
permite que elas sejam vistas com lupa. Além da maneira engenhosa
como tece suas comparações entre humanos e animais,
outra fonte de diversão está no grande número
de curiosidades maldosas a respeito do estilo de vida dos ricos
que ele compilou. Como naturalistas que penetram escondidos no habitat
de certos bichos, somos levados à mansão de Aristóteles
Onassis, para descobrir que ele forrava as cadeiras de seu bar com
a pele dos genitais de baleias, ou visitamos a alcova do rei Vitor
Emanuel II, da Itália, que presenteava suas amantes com pedacinhos
de suas unhas cravejadas de ouro e diamantes. Richard Conniff, contudo,
não despreza os animais endinheirados que estudou. E lembra,
de maneira pertinente, que todos gostaríamos de enriquecer
um dia.
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