Edição 1839 . 4 de fevereiro de 2004

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Livros
Capitalismo selvagem

Como as feras do mundo animal, os ricos têm
o "triplo A" – de ávido, agressivo e acumulador


Marilia Pacheco Fiorillo



Trechos do livro

O zoomorfismo, que consiste em tratar gente como se fosse bicho, tem uma longa história em mitos religiosos e fábulas literárias. O jornalista americano Richard Conniff retoma essa tradição de maneira hilariante em História Natural dos Ricos (tradução de Lúcia Ribeiro da Silva, Jorge Zahar, 383 páginas, 45 reais), acrescentando-lhe elementos de pesquisas biológicas recentes, que exploram semelhanças entre o homem e os outros animais. Colaborador das revistas National Geographic e Smithsonian, Conniff conhece bem esse material. Ele é autor de livros sobre roedores, vermes e outros seres arrepiantes. Em História Natural dos Ricos brinca com os dados científicos para enfocar a hipotética subespécie do Homo sapiens pecuniosus (os milionários) e mostrar como ela se comporta na hora de acasalar, "conquistar territórios" e "partilhar a comida". Exatamente como os machos alfa entre os símios, ricaços como Ted Turner, John D. Rockefeller, Bill Gates, J.P. Getty, Donald Trump, Warren Buffett, os Vanderbilt e os Rothschild possuiriam características que os biólogos agrupam sob a sigla "triplo A" – de ávido, agressivo e acumulador.

Ao contrário dos biólogos, que observam um mesmo grupo de animais durante um longo período de tempo, Richard Conniff borboleteia de Paris a Palm Beach em busca de seus espécimes. Sua taxonomia inclui, por exemplo, os ricos cascas-grossas como Henry T. Nicholas, da Broadcom Corporation, que, ao humilhar seus subordinados publicamente, está imitando o chimpanzé "Mike", estudado pela primatologista Jane Goodall. "Mike" ficou famoso porque descobriu um atalho para a posição de macho dominante, fazendo um barulho intimidatório com duas latas vazias. No outro extremo, há os ricos que mandam na maciota – filantropos e festeiros que se assemelham ao chimpanzé "Ntologi", observado na Tanzânia por Frans de Waal, outro importante estudioso dos símios. "Ntologi" usava comida para aliciar a simpatia de fêmeas e machos mais velhos. Em espírito semelhante, um dos irmãos Rothschild teria observado certa vez que os "entretenimentos pródigos" (ou seja, as festas de boca-livre) eram "o mesmo que subornos".

Já a infidelidade, como diria o biólogo Richard Dawkins, autor do clássico estudo evolucionista O Gene Egoísta, faz parte do DNA de todo animal dominante, seja ele lorde antigo ou novo-rico. Somada à endogamia – os Rothschild e os Du Pont, lembra Conniff, vivem casando entre primos –, a infidelidade é a melhor tática de formação de dinastias, pois permite que os genes se disseminem ao máximo, enquanto as fortunas não saem do círculo familiar (os bastardos raramente herdam). Exibicionista ou discreto, todo rico, segundo Conniff, pratica ainda a "estratégia de catação" da macaca "Leslie", observada no Quênia pelos biólogos americanos Seyfarth e Cheney. A técnica de "Leslie" era lançar beijinhos no ar para suas rivais, depois catar-lhes carrapichos, fazê-las abaixar a guarda e, no final, dar-lhes uma boa dentada. Sob o sol das savanas ou sob os holofotes da revista Fortune, não importa: reúna três primatas e infalivelmente você encontrará bajulação, mexerico, traição e oportunismo.

A escritora americana Dorothy Parker dizia, irônica, que, se alguém quiser saber o que Deus acha do dinheiro, "só precisa olhar para as pessoas a quem Ele o deu". O livro de Conniff permite que elas sejam vistas com lupa. Além da maneira engenhosa como tece suas comparações entre humanos e animais, outra fonte de diversão está no grande número de curiosidades maldosas a respeito do estilo de vida dos ricos que ele compilou. Como naturalistas que penetram escondidos no habitat de certos bichos, somos levados à mansão de Aristóteles Onassis, para descobrir que ele forrava as cadeiras de seu bar com a pele dos genitais de baleias, ou visitamos a alcova do rei Vitor Emanuel II, da Itália, que presenteava suas amantes com pedacinhos de suas unhas cravejadas de ouro e diamantes. Richard Conniff, contudo, não despreza os animais endinheirados que estudou. E lembra, de maneira pertinente, que todos gostaríamos de enriquecer um dia.

 
 
 
 
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