Edição 1839 . 4 de fevereiro de 2004

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Livros
Achados a cada página

Ricardo Piglia mistura ensaio,
ficção, memória e crítica literária
em sua nova obra


Jerônimo Teixeira


Editorial Perfil
Piglia: crítica como autobiografia


O título Formas Breves (tradução de José Marcos Mariani de Macedo; Companhia das Letras; 118 páginas; 27 reais) poderia englobar virtualmente qualquer coisa e, de fato, o novo livro do argentino Ricardo Piglia, de 62 anos, inclui um tanto de ensaio, de ficção, de memória, de crítica literária. No epílogo, Piglia propõe que seus textos sejam lidos como "páginas perdidas no diário de um escritor" ou "tentativas de uma autobiografia futura". Para ele, a crítica – gênero predominante nessa nova obra – é a forma mais depurada da autobiografia. "O crítico é aquele que encontra sua vida no interior dos textos que lê", diz ele no epílogo. E o escritor, poderíamos dizer em reverso, é quem esconde sua vida no interior dos textos que produz.

Os eventos centrais na vida do leitor Ricardo Piglia são Roberto Arlt, Macedonio Fernández e, claro, Jorge Luis Borges. Com obras e temperamentos muito distintos, esses três nomes da literatura argentina do século XX são os personagens centrais de Formas Breves. Leitor sensível das formas fragmentadas de Macedonio, das extravagâncias de Arlt e das obsessões literárias de Borges, Piglia soube cozinhar muito bem essas influências. Sua dívida para com tais antecessores é evidente, mas o autor de Respiração Artificial está muito longe de ser um mero epígono. Em Formas Breves, avulta a lucidez criativa com que ele recorre à lição desses e de outros escritores, como Kafka.

Piglia é professor universitário. Sua familiaridade com a teoria literária é evidente, mas ele não se vale do jargão acadêmico. Em linhas rápidas, vai acumulando achados a cada página. Mencionemos um daqueles achados tão originais que chegam a parecer óbvios depois de revelados: em várias obras consagradas da literatura argentina, como O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar, ou O Aleph, de Borges, o personagem central alcança uma iluminação intelectual depois de sofrer uma desilusão amorosa. Piglia nota que esse também é o esquema básico do tango: depois de perder a mulher, o homem "olha o mundo com olhos metafísicos e extrema lucidez". Cambalache, tango de Discépolo, seria "O Aleph dos pobres".

O título Formas Breves encontra sua justificativa mais clara nos textos Teses sobre o Conto e Novas Teses sobre o Conto. Esse gênero, segundo Piglia, é sempre duplo. Traz uma história superficial, conduzida pelos eventos factuais narrados, e uma história secreta, da qual o leitor só toma conhecimento por indícios e sugestões mais ou menos sutis. O bom contista tem de conhecer a arte do ocultamento, fazendo a história subterrânea aflorar em momentos decisivos. De certa forma, pode ser um roteiro para ler a ficção do próprio Piglia – de quem o leitor vai querer conhecer mais, ao chegar ao final deste livro.

 
Vanguarda, ser ou não ser


"A vanguarda é uma das ideologias espontâneas de todo escritor. (A outra é o realismo.) Se ser de vanguarda quer dizer ser 'moderno', todos nós, escritores, queremos ser de vanguarda. A modernidade é o grande mito da literatura contemporânea. Ao mesmo tempo, nos dias de hoje, pelo menos na Argentina, a vanguarda converteu-se num gênero. Existe uma maneira cristalizada, tão plena de convicções e de regras que se poderia escrever um romance de vanguarda com a mesma facilidade com que se pode escrever, por exemplo, um romance policial. Por tudo isso, caberia dizer, enfim, que o problema não está tanto em uma obra ser ou não de vanguarda: o fundamental para um escritor é que o público e a crítica sejam de vanguarda."

Trecho de Formas Breves

 
 
 
 
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