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Livros
Achados a cada página
Ricardo
Piglia mistura ensaio,
ficção, memória e crítica literária
em sua nova obra

Jerônimo Teixeira
Editorial Perfil
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| Piglia:
crítica como autobiografia |
O título Formas Breves (tradução
de José Marcos Mariani de Macedo; Companhia das Letras; 118
páginas; 27 reais) poderia englobar virtualmente qualquer
coisa e, de fato, o novo livro do argentino Ricardo Piglia, de 62
anos, inclui um tanto de ensaio, de ficção, de memória,
de crítica literária. No epílogo, Piglia propõe
que seus textos sejam lidos como "páginas perdidas no diário
de um escritor" ou "tentativas de uma autobiografia futura". Para
ele, a crítica gênero predominante nessa nova
obra é a forma mais depurada da autobiografia. "O
crítico é aquele que encontra sua vida no interior
dos textos que lê", diz ele no epílogo. E o escritor,
poderíamos dizer em reverso, é quem esconde sua vida
no interior dos textos que produz.
Os
eventos centrais na vida do leitor Ricardo Piglia são Roberto
Arlt, Macedonio Fernández e, claro, Jorge Luis Borges. Com
obras e temperamentos muito distintos, esses três nomes da
literatura argentina do século XX são os personagens
centrais de Formas Breves. Leitor sensível das formas
fragmentadas de Macedonio, das extravagâncias de Arlt e das
obsessões literárias de Borges, Piglia soube cozinhar
muito bem essas influências. Sua dívida para com tais
antecessores é evidente, mas o autor de Respiração
Artificial está muito longe de ser um mero epígono.
Em Formas Breves, avulta a lucidez criativa com que ele recorre
à lição desses e de outros escritores, como
Kafka.
Piglia
é professor universitário. Sua familiaridade com a
teoria literária é evidente, mas ele não se
vale do jargão acadêmico. Em linhas rápidas,
vai acumulando achados a cada página. Mencionemos um daqueles
achados tão originais que chegam a parecer óbvios
depois de revelados: em várias obras consagradas da literatura
argentina, como O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar,
ou O Aleph, de Borges, o personagem central alcança
uma iluminação intelectual depois de sofrer uma desilusão
amorosa. Piglia nota que esse também é o esquema básico
do tango: depois de perder a mulher, o homem "olha o mundo com olhos
metafísicos e extrema lucidez". Cambalache, tango
de Discépolo, seria "O Aleph dos pobres".
O
título Formas Breves encontra sua justificativa mais
clara nos textos Teses sobre o Conto e Novas Teses sobre
o Conto. Esse gênero, segundo Piglia, é sempre
duplo. Traz uma história superficial, conduzida pelos eventos
factuais narrados, e uma história secreta, da qual o leitor
só toma conhecimento por indícios e sugestões
mais ou menos sutis. O bom contista tem de conhecer a arte do ocultamento,
fazendo a história subterrânea aflorar em momentos
decisivos. De certa forma, pode ser um roteiro para ler a ficção
do próprio Piglia de quem o leitor vai querer conhecer
mais, ao chegar ao final deste livro.
| Vanguarda,
ser ou não ser |
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"A
vanguarda é uma das ideologias espontâneas
de todo escritor. (A outra é o realismo.) Se
ser de vanguarda quer dizer ser 'moderno', todos nós,
escritores, queremos ser de vanguarda. A modernidade
é o grande mito da literatura contemporânea.
Ao mesmo tempo, nos dias de hoje, pelo menos na Argentina,
a vanguarda converteu-se num gênero. Existe uma
maneira cristalizada, tão plena de convicções
e de regras que se poderia escrever um romance de vanguarda
com a mesma facilidade com que se pode escrever, por
exemplo, um romance policial. Por tudo isso, caberia
dizer, enfim, que o problema não está
tanto em uma obra ser ou não de vanguarda: o
fundamental para um escritor é que o público
e a crítica sejam de vanguarda."
Trecho
de Formas Breves
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