Edição 1839 . 4 de fevereiro de 2004

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Moda
O furacão que veio de Itabira

A mineira Ana Beatriz Barros arrasa
por onde passa: revistas, desfiles,
outdoors e até as areias do Iraque


Bel Moherdaui

 
Fotos Bob Wolfenson/Elle/J. R. Duran/divulgação
Ana Beatriz em três versões: chique, sexy, e mais sexy

Outras fotos da modelo

Ana Beatriz Barros é a coisa mais espetacular saída da mineira Itabira desde Carlos Drummond de Andrade. E, antes que alguém reclame da comparação, garanta-se que o poeta ficaria de queixo caidíssimo diante da fulgurante beleza de sua conterrânea, talvez até tentasse uns versinhos de vezo conquistador. Andar com a modelo pela rua é o atestado de como são poucas – e excepcionais – as mulheres que podem sair de casa com o cabelo desalinhado, vestígios da maquiagem do dia anterior, usando calça jeans, sandália de dedo e uma regatinha, e arrancar suspiros, às vezes até mais do que isso, do público masculino em geral. Em uma manhã de janeiro, às vésperas da São Paulo Fashion Week, Ana Beatriz, eleita a modelo mais bonita do mundo pelos soldados americanos no Iraque, deixou atônito um rapaz em uma padaria no Ipiranga (ele quase caiu do balcão enquanto ela comia um magro sanduíche de queijo branco) e, pouco depois, causou igual efeito sobre um grupo de executivos no Itaim – um deles, mais assanhado, arranhou versos da música Sonho Meu, de Ivone Lara. "Tenho até fã-clube, imagine. Toda vez que desfilo nos Estados Unidos aparecem uns quinze meninos pedindo autógrafo. Morro de vergonha", diz, toda tímida, a beldade de 21 anos, olhos de esmeraldas líquidas sombreados por um levíssimo e misterioso resquício de olheiras, rosto que mistura as jovens Brigitte Bardot e Jane Fonda com aquele não-sei-o-quê de encanto à brasileira que faz a fama das modelos nacionais. "Ela é uma modelo muito profissional, que valoriza as criações", elogia o estilista Alexandre Herchcovitch, que em geral prefere pôr nas passarelas garotas com menos curvas e mais assimetria. "Acho a Ana Beatriz uma modelo excepcional. Tem porte de mulherão, muita segurança, faz o gênero sedutora, forte", ecoa Tufi Duek, da Forum.

 
Carol Quitanilha
Tatuagem em família: pais e filhas mostram a lua e a estrela

Cabelos (agora) loiros, pele bronzeada, Ana Beatriz pode ser vista atualmente tanto em cartazes nas ruas e pontos de ônibus de todo o Brasil, anunciando uma linha de produtos para cabelo, quanto nos catálogos da grife de lingerie americana Victoria's Secret. Logo mais deve estrelar uma campanha de cosméticos da Chanel. É desses contratos que vem o grosso do faturamento. Também aparece, mais pelo prestígio que pelo cheque, em revistas badaladas, como a Vogue espanhola, as Elle americana e brasileira (atenção para a edição de fevereiro, em que enfeita um ensaio de moda) e as masculinas GQ e Sports Illustrated. Foi esta última, em especial, com fotos de um corpo que parece ter sido desenhado num mundo de perfeição platônica para usar biquínis, que lhe garantiu um lugar de honra no imaginário dos rapazes que estão penando nas areias do Iraque. Tudo isso faz com que Ana integre o time de modelos brasileiras que faturam acima de 1 milhão de dólares por ano, amealhados em graduações diversas: por um desfile em passarelas nacionais, cobra em torno de 4.000 reais; no exterior, chega a ganhar até 200.000 dólares por um dia de fotos. Apesar da carreira em impressionante ascensão, ainda há espaço para subir. Ana precisa trabalhar mais o lado fashion, como se diz no ramo, o que lhe garantirá acesso ao ranking das cinqüenta melhores modelos do momento, eleitas com base nos trabalhos de maior prestígio e impacto pelo site models.com. Cinco brasileiras constam da última lista, contrariando os prognósticos de que as belezas nacionais seriam substituídas por belgas, russas ou croatas. "Como no Brasil temos biótipos muito diferentes, somos privilegiadas no mercado da moda. Sempre tem um tipo que agrada", diz Letícia Birkheuer, a 12ª do ranking. As outras são: Isabeli Fontana (9º), Liliane Ferrarezi (21º), Caroline Trentini (37º) e Jeísa Chiminazzo (43º). As modelos já definitivamente consagradas figuram num olimpo à parte onde Bündchen fica em segundo lugar e a inglesa Kate Moss em primeiro.

Filha do engenheiro mecânico Reinato Barros e da dona-de-casa Sônia, Ana é uma das poucas modelos brasileiras de sucesso internacional que não têm um sobrenome alemão ou italiano (ou ambos) acoplado ao prenome, mas o laboratório familiar de aprimoramento estético não fica atrás: da mesma fonte brotou a belíssima Patrícia, a irmã mais velha, morena de olhos azuis que também é modelo. Sua carreira teve um início convencional. Com 14 anos e já perto do 1,80 metro atual, venceu a etapa brasileira do concurso da Elite e ficou em segundo lugar na disputa mundial. Espera um pouco daqui, pena uma rejeição ali – e em alguns anos escalou com as pernas de gazela a escada que conduz ao topo. Hoje, leva a vida de cigana de luxo das modelos de sucesso, desfilando a beleza mundo afora, numa correria que só aumenta sua tendência natural à distração – ela já perdeu um anel de brilhante e vive esquecendo tudo em todos os lugares, como atestam, entre suspiros, suas duas irmãs. "Não dá para emprestar nada para a Ana. Ela ou perde, ou estraga", entrega Patrícia. Embora em cidades diferentes – Ana mora em Nova York, Patrícia em São Paulo, Maria Luisa, a caçula, com os pais em Belo Horizonte –, a família é unida tanto pela afeição quanto pelas tatuagens: todos têm a mesma lua e estrela gravada no pé. Sônia, a mãe moderna, tem ainda desenhos vistosos em cada ombro, com flores e as iniciais das meninas. No momento, a família está em São Paulo, paparicando Ana nos intervalos da maratona de desfiles. E o futuro, que na efemeridade do meio está apenas uns poucos anos à frente? "Quero ter produtos com o meu nome", declara, previsivelmente. E mais previsivelmente ainda: "E quem sabe trabalhar como atriz ou apresentadora. Adoro crianças".

 
 
 
 
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