Edição 1839 . 4 de fevereiro de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Economia e Negócios
Geral
Guia
Artes e Espetáculos
Marcos Sawaya Jank
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

História
Inferno visto do céu

Fotos aéreas de Auschwitz reacendem
o debate sobre se os aliados deveriam
ter agido para salvar judeus dos campos
de extermínio



AP
Foto de Auschwitz tirada pela Força Aérea inglesa em agosto de 1944: o alvo aliado era Berlim

Um crime da extensão e do grau de barbárie do holocausto produzido pelos nazistas não pode ser esquecido nem perdoado. O filósofo alemão Jürgen Habermas, de 74 anos, defende a tese de que cada alemão deveria meditar diariamente sobre o delito coletivo de seus antepassados. Essa expiação, por parte de pessoas sem nenhuma responsabilidade sobre os eventos do passado, seria, na visão do filósofo, a única forma de manter uma sociedade sadia na Alemanha. O termo holocausto como definição do assassinato sistemático de 6 milhões de judeus pelo regime de Adolf Hitler só começou a ser usado cerca de dois anos depois do término da II Guerra Mundial. Desde então, toda revelação, por menor que seja, sobre o conflito faz emergir questões relacionadas com o holocausto que parecem não ter resposta. A divulgação há duas semanas pela Universidade Keele, na Inglaterra, de fotos aéreas feitas por pilotos ingleses dos campos de extermínio nazistas de Auschwitz e Birkenau, na Polônia, reacendeu um antigo debate. Afinal, o que exatamente o alto-comando aliado sabia sobre a máquina de extermínio de judeus montada por Hitler na Europa ocupada? E, em sabendo, por que os aliados não intervieram militarmente bombardeando as câmaras de gás ou os fornos crematórios dos campos de extermínio ou, pelo menos, suas vias de acesso, de modo a dificultar o processo de aniquilamento?

Continuam não existindo respostas simples e definitivas para essas questões. As fotos feitas em arriscados vôos rasantes pelos pilotos de reconhecimento da RAF, a força aérea inglesa, e divulgadas pelos pesquisadores da Universidade Keele (elas podem ser vistas no site www.evidenceincamera.co.uk) esclarecem pouca coisa. Uma delas, de agosto de 1944, mostra os alojamentos de presos em Auschwitz. Analistas especializados conseguiram divisar nela filas de prisioneiros e fumaça negra saindo de uma chaminé do que, veio a se saber mais tarde, era um forno crematório. "A missão dos pilotos era localizar instalações industriais. Os campos de prisioneiros aparecem nas fotos por acidente. As imagens não devem ter despertado muito interesse nos planejadores militares aliados, a não ser para mapear áreas que deveriam ser poupadas nos bombardeios, justamente para não matar prisioneiros", disse a VEJA o historiador Steve Paulsson, coordenador do Projeto de Exibição do Holocausto, do Museu Imperial da Guerra, de Londres.

Muito antes de as imagens dos campos serem feitas, chegaram às mãos das autoridades aliadas evidências de que os nazistas estavam levando a cabo o que chamaram de "Solução Final do Problema Judeu na Europa". No fim de 1942, Winston Churchill, primeiro-ministro inglês, recebeu do serviço de espionagem de seu país a gravação de conversas em que oficiais nazistas falavam do progresso da Solução Final. Em julho de 1943, o presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, ouviu pessoalmente um relato detalhado das atrocidades feito a ele pelo polonês Jan Karski, espião que, fazendo-se passar por estoniano, conseguiu emprego de guarda de prisão no campo de extermínio de Belzec. Karski fez também um relatório por escrito, endossado pelo governo polonês no exílio, em que descrevia o processo desde a prisão dos judeus nos guetos e seu transporte em trens até o "extermínio em massa nas câmaras de gás". Para muitos historiadores, a mensagem interceptada pelos espiões ingleses e a visita de Karski à Casa Branca são provas suficientes para ter produzido uma reação militar dos aliados. Essa é a opinião de Avraham Milgram, judeu brasileiro que dirige o Museu do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém: "Eles poderiam ter bombardeado pelo menos as câmaras de gás e os fornos crematórios. O motivo de não terem bombardeado é um assunto problemático até os dias de hoje".

Para o historiador Steve Paulsson, a certeza sobre a real finalidade dos campos nunca foi completa durante a guerra. Não havia consenso nem mesmo entre os líderes da comunidade judaica na Inglaterra e nos Estados Unidos. Paulsson esclarece também que o bombardeio dos alvos com a precisão necessária só teria sido possível com o uso de caças, os pequenos e ágeis aviões Mustang (americano) e Mosquito (inglês). "Esses aviões não tinham autonomia para decolar da Inglaterra, bombardear Auschwitz e voltar com segurança. Isso só se tornou possível em julho de 1944, com a tomada pelos aliados das bases italianas de Brindisi e Foggia", explica Paulsson. Segundo ele, os Mosquitos e os Mustangs de reconhecimento conseguiram atravessar o Canal da Mancha, fazer as fotos dos campos e voltar porque os compartimentos de bombas foram adaptados para levar combustível extra. Conclui Paulsson: "A maneira mais eficiente encontrada pelos aliados de aliviar o sofrimento dos judeus foi concentrar-se no objetivo final de chegar rapidamente a Berlim e infligir uma derrota completa aos nazistas".

 
 
 
 
topo voltar