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História
Inferno visto do céu
Fotos
aéreas de Auschwitz reacendem
o debate sobre se os aliados deveriam
ter agido para salvar judeus dos campos
de extermínio
AP
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| Foto
de Auschwitz tirada pela Força Aérea inglesa em
agosto de 1944: o alvo aliado era Berlim |
Um
crime da extensão e do grau de barbárie do holocausto
produzido pelos nazistas não pode ser esquecido nem perdoado.
O filósofo alemão Jürgen Habermas, de 74 anos,
defende a tese de que cada alemão deveria meditar diariamente
sobre o delito coletivo de seus antepassados. Essa expiação,
por parte de pessoas sem nenhuma responsabilidade sobre os eventos
do passado, seria, na visão do filósofo, a única
forma de manter uma sociedade sadia na Alemanha. O termo holocausto
como definição do assassinato sistemático de
6 milhões de judeus pelo regime de Adolf Hitler só
começou a ser usado cerca de dois anos depois do término
da II Guerra Mundial. Desde então, toda revelação,
por menor que seja, sobre o conflito faz emergir questões
relacionadas com o holocausto que parecem não ter resposta.
A divulgação há duas semanas pela Universidade
Keele, na Inglaterra, de fotos aéreas feitas por pilotos
ingleses dos campos de extermínio nazistas de Auschwitz e
Birkenau, na Polônia, reacendeu um antigo debate. Afinal,
o que exatamente o alto-comando aliado sabia sobre a máquina
de extermínio de judeus montada por Hitler na Europa ocupada?
E, em sabendo, por que os aliados não intervieram militarmente
bombardeando as câmaras de gás ou os fornos crematórios
dos campos de extermínio ou, pelo menos, suas vias de acesso,
de modo a dificultar o processo de aniquilamento?
Continuam
não existindo respostas simples e definitivas para essas
questões. As fotos feitas em arriscados vôos rasantes
pelos pilotos de reconhecimento da RAF, a força aérea
inglesa, e divulgadas pelos pesquisadores da Universidade Keele
(elas podem ser vistas no site www.evidenceincamera.co.uk)
esclarecem pouca coisa. Uma delas, de agosto de 1944, mostra os
alojamentos de presos em Auschwitz. Analistas especializados conseguiram
divisar nela filas de prisioneiros e fumaça negra saindo
de uma chaminé do que, veio a se saber mais tarde, era um
forno crematório. "A missão dos pilotos era localizar
instalações industriais. Os campos de prisioneiros
aparecem nas fotos por acidente. As imagens não devem ter
despertado muito interesse nos planejadores militares aliados, a
não ser para mapear áreas que deveriam ser poupadas
nos bombardeios, justamente para não matar prisioneiros",
disse a VEJA o historiador Steve Paulsson, coordenador do Projeto
de Exibição do Holocausto, do Museu Imperial da Guerra,
de Londres.
Muito
antes de as imagens dos campos serem feitas, chegaram às
mãos das autoridades aliadas evidências de que os nazistas
estavam levando a cabo o que chamaram de "Solução
Final do Problema Judeu na Europa". No fim de 1942, Winston Churchill,
primeiro-ministro inglês, recebeu do serviço de espionagem
de seu país a gravação de conversas em que
oficiais nazistas falavam do progresso da Solução
Final. Em julho de 1943, o presidente dos Estados Unidos, Franklin
Roosevelt, ouviu pessoalmente um relato detalhado das atrocidades
feito a ele pelo polonês Jan Karski, espião que, fazendo-se
passar por estoniano, conseguiu emprego de guarda de prisão
no campo de extermínio de Belzec. Karski fez também
um relatório por escrito, endossado pelo governo polonês
no exílio, em que descrevia o processo desde a prisão
dos judeus nos guetos e seu transporte em trens até o "extermínio
em massa nas câmaras de gás". Para muitos historiadores,
a mensagem interceptada pelos espiões ingleses e a visita
de Karski à Casa Branca são provas suficientes para
ter produzido uma reação militar dos aliados. Essa
é a opinião de Avraham Milgram, judeu brasileiro que
dirige o Museu do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém: "Eles
poderiam ter bombardeado pelo menos as câmaras de gás
e os fornos crematórios. O motivo de não terem bombardeado
é um assunto problemático até os dias de hoje".
Para
o historiador Steve Paulsson, a certeza sobre a real finalidade
dos campos nunca foi completa durante a guerra. Não havia
consenso nem mesmo entre os líderes da comunidade judaica
na Inglaterra e nos Estados Unidos. Paulsson esclarece também
que o bombardeio dos alvos com a precisão necessária
só teria sido possível com o uso de caças,
os pequenos e ágeis aviões Mustang (americano) e Mosquito
(inglês). "Esses aviões não tinham autonomia
para decolar da Inglaterra, bombardear Auschwitz e voltar com segurança.
Isso só se tornou possível em julho de 1944, com a
tomada pelos aliados das bases italianas de Brindisi e Foggia",
explica Paulsson. Segundo ele, os Mosquitos e os Mustangs de reconhecimento
conseguiram atravessar o Canal da Mancha, fazer as fotos dos campos
e voltar porque os compartimentos de bombas foram adaptados para
levar combustível extra. Conclui Paulsson: "A maneira mais
eficiente encontrada pelos aliados de aliviar o sofrimento dos judeus
foi concentrar-se no objetivo final de chegar rapidamente a Berlim
e infligir uma derrota completa aos nazistas".
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