Edição 1839 . 4 de fevereiro de 2004

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Empresas
A conexão brasileira

A Parmalat pede concordata no Brasil
e filial levanta suspeitas na Itália

 
AP
Protesto na Itália: a sede da Parmalat virou romaria de produtores com prejuízo

Notícias diárias sobre a crise da Parmalat

Quando grandes corporações quebram em meio a acusações de fraudes, a real extensão dos danos costuma aflorar bem devagar. Até hoje não se sabe ao certo o tamanho do rombo das empresas Enron e WorldCom, os dois maiores escândalos recentes nos Estados Unidos. A Parmalat, a multinacional italiana com a segunda maior fatia do mercado brasileiro de laticínios, veio abaixo em dezembro passado, assustando investidores e consumidores em mais de trinta países. No começo, as estimativas falavam em um rombo de 12 bilhões de dólares provocado pela maquiagem do balanço. A última avaliação, feita na semana passada, revela que as dívidas totais da empresa italiana no mundo chegam a 16,6 bilhões de dólares.

A Parmalat chegou ao Brasil na década de 70, em seu primeiro grande salto para fora da Europa. Depoimentos de funcionários da multinacional aos investigadores italianos dão conta de que, embora tenha sido bem-sucedida em ganhar mercado e firmar uma imagem de qualidade, a operação no Brasil nunca foi lucrativa. Os investigadores italianos suspeitam agora que a operação brasileira tenha sido usada pela matriz justamente como um grande ralo de dinheiro. Um dos contadores do grupo, Gianfranco Bocchi, revelou às autoridades italianas que a empresa enviou "um monte de dinheiro" ao Brasil. "Não posso garantir, mas tenho uma pista. Não sei muito, mas com certeza era lá que acabava um monte de dinheiro", disse Bocchi, que está preso.

Paulo Pinto/AE
Gonçalves: "A concordata foi difícil, mas inevitável"


O contágio da crise na matriz para a filial brasileira ainda precisa ser explicado, mas na semana passada seus efeitos já foram sentidos. Com uma dívida equivalente a 1,5 bilhão de dólares com fornecedores e bancos, a Parmalat Alimentos e sua controladora no país, a Parmalat Participações, entraram com pedido de concordata. No começo de janeiro, os bancos credores da Parmalat no Brasil endureceram o jogo na tentativa de reaver o dinheiro que lhe emprestaram. O banco japonês Sumitomo Mitsui, que emprestou 10 milhões de dólares, obteve na Justiça o direito de bloquear parte do patrimônio da companhia. O Banco do Brasil conseguiu o bloqueio de recursos da Parmalat em conta-corrente e chegou a apreender o estoque de duas fábricas em Jundiaí, no interior de São Paulo.

Caso o pedido de concordata seja aceito, a empresa poderá ter até dois anos para renegociar e pagar as dívidas. Ela promete liquidar 40% dos débitos no primeiro ano e 60% no ano seguinte. "A decisão da concordata, embora difícil, tornou-se inevitável", disse Ricardo Gonçalves, presidente da Parmalat no Brasil. Para tentar sair do buraco aqui, a companhia formou um grupo de gestão de crises com as empresas especializadas Galeazzi & Associados e Aggrego Consultores, que pertence ao ex-ministro Alcides Tápias. Com 6.000 funcionários, a Parmalat tem oito unidades industriais, cinco centros de distribuição no Brasil e compra 1,2 bilhão de litros de leite por ano, o equivalente a 5% de toda a produção nacional. Se ela vier a quebrar, produzirá um choque negativo na vida de muita gente.

 
 
 
 
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