Edição 1839 . 4 de fevereiro de 2004

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Filantropia
Ricos e generosos

Magnatas americanos não esperam mais
a morte para doar dinheiro a causas sociais,
e valores chegam à casa do bilhão

Os ricos americanos cultivam uma longa tradição de mecenato e filantropia. Desde o século XIX, doações milionárias de magnatas resultaram em magníficos museus, salas de concerto e universidades. A filantropia atingiu dimensão inusitada nos Estados Unidos. Apenas em 2002, as doações somaram 240 bilhões de dólares, valor equivalente a metade do produto interno bruto (PIB) do Brasil. Diferentemente do que ocorria no passado, os benfeitores agora não esperam mais a morte para ajudar as causas em que acreditam. Em vez disso, transferem parte significativa de suas fortunas ainda em vida, como mostra o ranking dos maiores filantropos dos Estados Unidos publicado pela revista BusinessWeek. E cada vez mais cedo. "O modelo do velho moribundo na cama do hospital que deixa tudo para uma fundação está superado", diz Rick Cohen, diretor executivo do Comitê Nacional de Filantropia Responsável. "Agora, o sujeito monta uma fundação aos 30, 40 anos de idade."

A mudança tem uma grande vantagem: permite que os doadores controlem melhor o destino dado ao dinheiro para que ele seja aplicado exatamente nas causas que eles escolheram. Também evita o risco de futuros gestores desviarem verbas por meio de fraudes. "Michael e eu queremos direcionar a maior parte de nossos recursos em vida para garantir que sejam investidos de forma eficaz", diz Susan Dell. Entre 1999 e 2003, o casal, cuja fortuna vem da venda de computadores, doou 1,2 bilhão de dólares, o que o coloca na sexta posição da lista de maiores doadores. Como exigem resultados mensuráveis, eficiência e transparência, os novos benfeitores também estão obrigando as entidades que recebem o dinheiro a se tornarem mais profissionais. Outra característica da atual geração de filantropos americanos é que eles são os que mais ganharam dinheiro na história de seu país. A cultura da benemerência é ajudada ainda pela estrutura fiscal dos Estados Unidos. O abatimento por doação pode chegar a metade do imposto devido sobre a herança. "A ética protestante sobre a qual foram fundados os Estados Unidos destaca a responsabilidade individual no desenvolvimento social", diz Marcos Kisil, presidente do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social. "Por isso, a legislação foi formulada para favorecer a filantropia."

No topo do ranking aparece Bill Gates, dono da Microsoft e o homem mais rico do mundo. Nos últimos cinco anos, Bill e sua esposa, Melinda, doaram 22,9 bilhões de dólares, mais que a soma das doações dos outros dezenove primeiros colocados no ranking. A Fundação Bill & Melinda Gates investe em projetos de saúde e educação em países do Terceiro Mundo, inclusive o Brasil. O casal doou quase 1 bilhão de dólares para um programa de erradicação de doenças infantis, como a poliomielite, nos países pobres, por meio da vacinação. A fundação é a maior patrocinadora privada de pesquisas que buscam descobrir vacinas contra a malária e a Aids. Investir em países pobres é uma tendência entre os novos benfeitores americanos. Philip Berber, fundador da corretora on-line CyBerCorp, direciona seu dinheiro para fornecer água, melhorar a educação e reduzir a pobreza na Etiópia. Gary Comer, da empresa do ramo de vestuário Land's End, financia pesquisas sobre o aquecimento global.

Além da vontade de resolver problemas sociais, os magnatas têm outra razão para doar seu dinheiro enquanto ainda estão vivos. Não querem deixar grandes heranças para os filhos com medo de estragá-los. Nos Estados Unidos, a figura do self-made man, aquele que faz fortuna por si próprio, é muito valorizada. Daí a crença de que grandes heranças roubariam a possibilidade de os herdeiros terem a sensação de que realizaram algo. "Se nossos filhos têm tanto dinheiro que lhes falta motivo para sair da cama de manhã, estamos lhes fazendo mal", diz o quinto colocado da lista, James Stowers.

 

 

 
 
 
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