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Filantropia
Ricos
e generosos
Magnatas americanos não esperam mais
a morte para doar dinheiro a causas sociais,
e valores chegam à casa do bilhão
Os ricos americanos cultivam uma longa tradição de
mecenato e filantropia. Desde o século XIX, doações
milionárias de magnatas resultaram em magníficos museus,
salas de concerto e universidades. A filantropia atingiu dimensão
inusitada nos Estados Unidos. Apenas em 2002, as doações
somaram 240 bilhões de dólares, valor equivalente
a metade do produto interno bruto (PIB) do Brasil. Diferentemente
do que ocorria no passado, os benfeitores agora não esperam
mais a morte para ajudar as causas em que acreditam. Em vez disso,
transferem parte significativa de suas fortunas ainda em vida, como
mostra o ranking dos maiores filantropos dos Estados Unidos publicado
pela revista BusinessWeek. E cada vez mais cedo. "O modelo
do velho moribundo na cama do hospital que deixa tudo para uma fundação
está superado", diz Rick Cohen, diretor executivo do Comitê
Nacional de Filantropia Responsável. "Agora, o sujeito monta
uma fundação aos 30, 40 anos de idade."
A mudança tem uma grande vantagem: permite que os doadores
controlem melhor o destino dado ao dinheiro para que ele seja aplicado
exatamente nas causas que eles escolheram. Também evita o
risco de futuros gestores desviarem verbas por meio de fraudes.
"Michael e eu queremos direcionar a maior parte de nossos recursos
em vida para garantir que sejam investidos de forma eficaz", diz
Susan Dell. Entre 1999 e 2003, o casal, cuja fortuna vem da venda
de computadores, doou 1,2 bilhão de dólares, o que
o coloca na sexta posição da lista de maiores doadores.
Como exigem resultados mensuráveis, eficiência e transparência,
os novos benfeitores também estão obrigando as entidades
que recebem o dinheiro a se tornarem mais profissionais. Outra característica
da atual geração de filantropos americanos é
que eles são os que mais ganharam dinheiro na história
de seu país. A cultura da benemerência é ajudada
ainda pela estrutura fiscal dos Estados Unidos. O abatimento por
doação pode chegar a metade do imposto devido sobre
a herança. "A ética protestante sobre a qual foram
fundados os Estados Unidos destaca a responsabilidade individual
no desenvolvimento social", diz Marcos Kisil, presidente do Instituto
para o Desenvolvimento do Investimento Social. "Por isso, a legislação
foi formulada para favorecer a filantropia."
No topo do ranking aparece Bill Gates, dono da Microsoft e o homem
mais rico do mundo. Nos últimos cinco anos, Bill e sua esposa,
Melinda, doaram 22,9 bilhões de dólares, mais que
a soma das doações dos outros dezenove primeiros colocados
no ranking. A Fundação Bill & Melinda Gates investe
em projetos de saúde e educação em países
do Terceiro Mundo, inclusive o Brasil. O casal doou quase 1 bilhão
de dólares para um programa de erradicação
de doenças infantis, como a poliomielite, nos países
pobres, por meio da vacinação. A fundação
é a maior patrocinadora privada de pesquisas que buscam descobrir
vacinas contra a malária e a Aids. Investir em países
pobres é uma tendência entre os novos benfeitores americanos.
Philip Berber, fundador da corretora on-line CyBerCorp, direciona
seu dinheiro para fornecer água, melhorar a educação
e reduzir a pobreza na Etiópia. Gary Comer, da empresa do
ramo de vestuário Land's End, financia pesquisas sobre o
aquecimento global.
Além da vontade de resolver problemas sociais, os magnatas
têm outra razão para doar seu dinheiro enquanto ainda
estão vivos. Não querem deixar grandes heranças
para os filhos com medo de estragá-los. Nos Estados Unidos,
a figura do self-made man, aquele que faz fortuna por si
próprio, é muito valorizada. Daí a crença
de que grandes heranças roubariam a possibilidade de os herdeiros
terem a sensação de que realizaram algo. "Se nossos
filhos têm tanto dinheiro que lhes falta motivo para sair
da cama de manhã, estamos lhes fazendo mal", diz o quinto
colocado da lista, James Stowers.
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