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Inglaterra
A vingança de Blair
Investigação
de juiz conclui que o
primeiro-ministro não mentiu sobre
armas no Iraque
Fotos AP/Reuters
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| Blair
acena depois de saber do veredicto favorável que forçou
a renúncia de Davies da BBC |
O que
parecia se encaminhar para uma crise política forte o suficiente
para derrubar o primeiro-ministro Tony Blair terminou como um caso
de mau jornalismo. O juiz inglês Brian Hutton divulgou na
semana passada o resultado de sua investigação do
chamado "Caso Kelly", batizado assim depois do suicídio de
um especialista em armas biológicas e consultor do Departamento
de Defesa chamado David Kelly. A BBC, o sistema público de
rádio e televisão da Inglaterra, acusara Blair de
ter exagerado intencionalmente as provas da existência de
um arsenal de armas de destruição em massa no Iraque
em especial, a informação de que o Iraque só
precisaria de 45 minutos entre tomar a decisão e disparar
esse tipo de arma. O objetivo seria justificar a entrada da Inglaterra
na guerra em apoio aos Estados Unidos. Mais tarde, a BBC responsabilizou
o governo pela revelação de que teria sido Kelly o
informante do jornalista da organização, Andrew Gilligan,
autor da reportagem original. Em meticulosa exposição,
o juiz Hutton livrou Blair das acusações e deixou
a BBC em péssima situação. A investigação
mostrou que Gilligan colocou no ar em seu programa de maio de 2003
"acusações infundadas" e que "seus superiores na BBC
não se deram ao trabalho de verificar a qualidade de suas
fontes".
Embora
toda a sua receita venha do governo, a BBC se orgulha de ser uma
organização independente. Ela tem 40% da audiência
de televisão e 50% dos ouvintes de rádio da Inglaterra.
O relatório de Hutton derrubou a cúpula da organização
e a deixou na pior crise de seus 82 anos de existência. Gavyn
Davies, seu presidente, pediu demissão antes mesmo da divulgação
do veredicto do juiz. O diretor-geral Greg Dyke caiu em seguida.
Brian Hutton sugeriu que seja feita uma revisão dos mecanismos
internos de aprovação das reportagens. "É triste
dizer isso, mas a reportagem da BBC é um exemplo típico
do jornalismo britânico moderno: a distorção
ou falsificação dos fatos para que eles se encaixem
na visão particular do jornalista sobre o que é a
verdade", escreveu a revista The Economist sobre o episódio.
Andrew Gilligan também se demitiu, mas o dano está
feito. "Chegou o momento de a BBC passar a ser dirigida por um jornalista
experiente e não por um grupo de homens e mulheres politicamente
corretos", disse o escritor Frederick Forsyth, autor de O Dia
do Chacal e O Dossiê Odessa.
Mesmo
sem aumentar uma só vírgula no relatório de
seus espiões, Blair acabou falando mentira, já que
parece mesmo não existirem armas de destruição
em massa no Iraque. Por que então condenar a BBC? O juiz
Brian Hutton é cristalino a respeito. Ele diz que são
duas coisas completamente diferentes e coube-lhe investigar apenas
se Blair mentiu sobre o uso do documento produzido pelo serviço
de espionagem. A conclusão foi que o governante não
mentiu. Na visão do juiz, se e por que o documento estava
errado deve ser fruto de outra investigação. Nos Estados
Unidos, a Suprema Corte teve de decidir sobre uma questão
aparentada. Em 1964, um funcionário do governo do Alabama
chamado L.B. Sullivan processou o jornal The New York Times por
ter cometido erros em um artigo pago condenando a repressão
a ativistas dos direitos civis no Estado. O artigo realmente continha
erros. Como a questão envolvia a Primeira Emenda, que garante
a liberdade de expressão, o caso chegou à Suprema
Corte. Em uma decisão histórica, os juízes
determinaram que não pode ser punido "o erro honesto da imprensa,
mesmo que resulte em afirmações difamatórias
contra ocupantes de cargos públicos". A sentença dos
juízes americanos estabeleceu também que deve ser
punido o "erro fruto da malícia ou de flagrante desrespeito
pela verdade". Nem nos EUA Andrew Gilligan e a BBC escapariam de
uma condenação.
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