Edição 1839 . 4 de fevereiro de 2004

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Inglaterra
A vingança de Blair

Investigação de juiz conclui que o
primeiro-ministro não mentiu sobre
armas no Iraque


Fotos AP/Reuters
Blair acena depois de saber do veredicto favorável que forçou a renúncia de Davies da BBC

O que parecia se encaminhar para uma crise política forte o suficiente para derrubar o primeiro-ministro Tony Blair terminou como um caso de mau jornalismo. O juiz inglês Brian Hutton divulgou na semana passada o resultado de sua investigação do chamado "Caso Kelly", batizado assim depois do suicídio de um especialista em armas biológicas e consultor do Departamento de Defesa chamado David Kelly. A BBC, o sistema público de rádio e televisão da Inglaterra, acusara Blair de ter exagerado intencionalmente as provas da existência de um arsenal de armas de destruição em massa no Iraque – em especial, a informação de que o Iraque só precisaria de 45 minutos entre tomar a decisão e disparar esse tipo de arma. O objetivo seria justificar a entrada da Inglaterra na guerra em apoio aos Estados Unidos. Mais tarde, a BBC responsabilizou o governo pela revelação de que teria sido Kelly o informante do jornalista da organização, Andrew Gilligan, autor da reportagem original. Em meticulosa exposição, o juiz Hutton livrou Blair das acusações e deixou a BBC em péssima situação. A investigação mostrou que Gilligan colocou no ar em seu programa de maio de 2003 "acusações infundadas" e que "seus superiores na BBC não se deram ao trabalho de verificar a qualidade de suas fontes".

Embora toda a sua receita venha do governo, a BBC se orgulha de ser uma organização independente. Ela tem 40% da audiência de televisão e 50% dos ouvintes de rádio da Inglaterra. O relatório de Hutton derrubou a cúpula da organização e a deixou na pior crise de seus 82 anos de existência. Gavyn Davies, seu presidente, pediu demissão antes mesmo da divulgação do veredicto do juiz. O diretor-geral Greg Dyke caiu em seguida. Brian Hutton sugeriu que seja feita uma revisão dos mecanismos internos de aprovação das reportagens. "É triste dizer isso, mas a reportagem da BBC é um exemplo típico do jornalismo britânico moderno: a distorção ou falsificação dos fatos para que eles se encaixem na visão particular do jornalista sobre o que é a verdade", escreveu a revista The Economist sobre o episódio. Andrew Gilligan também se demitiu, mas o dano está feito. "Chegou o momento de a BBC passar a ser dirigida por um jornalista experiente e não por um grupo de homens e mulheres politicamente corretos", disse o escritor Frederick Forsyth, autor de O Dia do Chacal e O Dossiê Odessa.

Mesmo sem aumentar uma só vírgula no relatório de seus espiões, Blair acabou falando mentira, já que parece mesmo não existirem armas de destruição em massa no Iraque. Por que então condenar a BBC? O juiz Brian Hutton é cristalino a respeito. Ele diz que são duas coisas completamente diferentes e coube-lhe investigar apenas se Blair mentiu sobre o uso do documento produzido pelo serviço de espionagem. A conclusão foi que o governante não mentiu. Na visão do juiz, se e por que o documento estava errado deve ser fruto de outra investigação. Nos Estados Unidos, a Suprema Corte teve de decidir sobre uma questão aparentada. Em 1964, um funcionário do governo do Alabama chamado L.B. Sullivan processou o jornal The New York Times por ter cometido erros em um artigo pago condenando a repressão a ativistas dos direitos civis no Estado. O artigo realmente continha erros. Como a questão envolvia a Primeira Emenda, que garante a liberdade de expressão, o caso chegou à Suprema Corte. Em uma decisão histórica, os juízes determinaram que não pode ser punido "o erro honesto da imprensa, mesmo que resulte em afirmações difamatórias contra ocupantes de cargos públicos". A sentença dos juízes americanos estabeleceu também que deve ser punido o "erro fruto da malícia ou de flagrante desrespeito pela verdade". Nem nos EUA Andrew Gilligan e a BBC escapariam de uma condenação.

 
 
 
 
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