Edição 1839 . 4 de fevereiro de 2004

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Iraque
Armas? Xiii... foi engano

AFP
Bush, na semana passada: discursos baseados em informações erradas

Em profundidade: A Era Saddam Hussein

George W. Bush teve pressa em iniciar a guerra contra o Iraque, em março de 2003, porque acreditava que Saddam Hussein estava sentado sobre uma montanha de armas químicas e biológicas prontas para ser usadas contra os países vizinhos ou até contra os Estados Unidos. Na semana passada, David Kay, o funcionário americano designado pela Casa Branca para encontrar as armas de destruição em massa do Iraque, fez uma confissão espantosa em depoimento ao Senado: "Estávamos todos enganados". Saddam, no fim das contas, não representava uma ameaça tão imediata como Bush e o primeiro-ministro inglês Tony Blair afirmavam em seus discursos. O Iraque, sustenta Kay, não tinha mais armas químicas nem biológicas, apenas pequenos esforços de pesquisa nessa área. Também estava muito longe de montar uma bomba nuclear. O depoimento do inspetor – que pediu demissão há duas semanas – foi corajoso porque ele próprio acreditou na existência do arsenal secreto e defendeu com veemência o ataque preventivo para eliminar o ditador iraquiano. A ausência das armas leva à pergunta inevitável: Bush e Blair teriam mentido deliberadamente?

Ao que tudo indica, a resposta é não. Quando apresentou à população as razões para a guerra, Bush provavelmente acreditava nas próprias palavras, baseadas em relatórios da CIA, a Agência Central de Inteligência. Existiam bons motivos para depor Saddam. O ditador era um fator de instabilidade no Oriente Médio e uma desgraça para seu próprio povo. Já havia invadido dois países vizinhos, patrocinava o terrorismo palestino e durante doze anos impediu o trabalho dos inspetores da ONU enviados para examinar seus arsenais. Mas eram exatamente as armas de destruição em massa que exigiam uma ação preventiva, como a chamou o governo Bush. Os americanos não eram os únicos a superestimar o arsenal de Saddam. Até um ano atrás, nenhum especialista da ONU diria que o tirano estava desarmado. Nem Jacques Chirac, o presidente francês que foi contra a invasão, acreditava nisso. Não é por menos. Saddam Hussein sempre deu motivos para suspeitarem dele. Seus generais usaram armas químicas contra os curdos, em 1988. Depois da Guerra do Golfo, em 1991, os inspetores da ONU descobriram que os iraquianos estavam bastante avançados em seu programa nuclear. Em 1995, um genro do ditador fugiu e entregou à CIA milhares de documentos sobre as armas de destruição em massa que o Iraque mantinha escondidas. Três anos depois, o ditador expulsou os inspetores internacionais do país. Com tal histórico, não havia por que imaginar que, pressionado por sanções econômicas internacionais, ele tivesse destruído as armas proibidas.

Mas foi exatamente o que aconteceu, na opinião de David Kay. Por volta de 1996, logo depois do escândalo desencadeado pelo genro desertor, a grande quantidade de material químico letal e o programa nuclear existentes no Iraque foram eliminados. Saddam poderia então ter cooperado com a ONU e livrado o país das sanções econômicas. Ninguém sabe ao certo por que ele não aproveitou essa oportunidade. Ao contrário, continuou proclamando que dispunha de meios terríveis de retaliação militar. Kenneth Pollack, diretor de assuntos do Golfo no Conselho de Segurança Nacional no governo Clinton, acredita que Saddam não abriu o país às inspeções internacionais porque ainda tinha algo para esconder. De fato, conforme revelou Kay, o Iraque mantinha alguns mísseis de longo alcance e pesquisas rudimentares com venenos biológicos. Mas o principal motivo, segundo Pollack, é que Saddam, para se sustentar no poder, precisava manter a população do Iraque convicta de seu poder. Tariq Aziz, que foi chanceler do Iraque e hoje é prisioneiro dos americanos, tem uma explicação diferente. De acordo com ele, Saddam fingia que possuía as armas para garantir prestígio entre as nações árabes.

O ditador também imaginava que, se o mundo continuasse acreditando em seu potencial bélico, ninguém se meteria com ele. Nem os americanos. E, ao mesmo tempo, esperava que a ONU derrubasse as sanções, já que não surgiam provas da existência de seu arsenal. Com essa estratégia contraditória, Saddam tentava garantir tanto o respeito militar das potências internacionais como um atestado de inocência da ONU. Não conseguiu nem uma coisa nem outra, claro. As sanções não foram retiradas e o país acabou invadido. Deputados americanos pedem agora uma investigação para apurar como o serviço de informações da maior potência do planeta conseguiu fazer previsões tão erradas sobre o potencial bélico do país árabe. Uma explicação trôpega é que, depois da expulsão dos inspetores internacionais em 1998, a inteligência americana ficou dependente de informações duvidosas passadas por desertores iraquianos e de fotos de satélite.

Durante anos, a busca pelas armas proibidas usou listas de importação de produtos químicos pelo Iraque como prova de que Saddam tinha um programa de armas ativo. A investigação da equipe de Kay indica que a maior parte dessa matéria-prima nunca chegou ao Iraque. O dinheiro para a compra simplesmente diluiu-se no bolso de funcionários corruptos. Enquanto isso, o ditador mergulhava em delírios de grandeza. Tariq Aziz contou que, às vésperas da invasão, Saddam continuava lhe enviando rascunhos de um romance que estava escrevendo. Os espiões americanos não se deram conta desse cenário patético em Bagdá. Os relatórios da CIA sobre o armamento do Iraque eram baseados em indícios fracos. E de nada adiantava os agentes da inteligência fazerem ressalvas sobre a baixa confiabilidade de algumas informações. Embalados pela decisão ideológica de destruir Saddam, os figurões da Casa Branca e do Pentágono ignoravam as notas de rodapé e só levavam em conta os dados que sustentavam a tese de que o ditador era uma grande ameaça.

No ano passado, a imprensa publicou queixas de agentes da CIA de que estavam sendo pressionados para encontrar ligações entre o Iraque e a Al Qaeda (uma alegação baseada em depoimento de um dissidente iraquiano e para a qual nunca surgiram provas). Informações como essa era o que o governo americano precisava para justificar a guerra, e era o que Bush usava em seus discursos. Na semana passada, questionado a respeito, o presidente americano não contestou as informações de Kay, mas disse que a guerra se justificava de qualquer forma porque Saddam era um ditador perigoso. Com certeza será obrigado a explicar melhor essa história.

 
 
 
 
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