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Iraque
Armas?
Xiii... foi engano
AFP
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| Bush,
na semana passada: discursos baseados em informações erradas
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George
W. Bush teve pressa em iniciar a guerra contra o Iraque, em março
de 2003, porque acreditava que Saddam Hussein estava sentado sobre
uma montanha de armas químicas e biológicas prontas
para ser usadas contra os países vizinhos ou até contra
os Estados Unidos. Na semana passada, David Kay, o funcionário
americano designado pela Casa Branca para encontrar as armas de
destruição em massa do Iraque, fez uma confissão
espantosa em depoimento ao Senado: "Estávamos todos enganados".
Saddam, no fim das contas, não representava uma ameaça
tão imediata como Bush e o primeiro-ministro inglês
Tony Blair afirmavam em seus discursos. O Iraque, sustenta Kay,
não tinha mais armas químicas nem biológicas,
apenas pequenos esforços de pesquisa nessa área. Também
estava muito longe de montar uma bomba nuclear. O depoimento do
inspetor que pediu demissão há duas semanas
foi corajoso porque ele próprio acreditou na existência
do arsenal secreto e defendeu com veemência o ataque preventivo
para eliminar o ditador iraquiano. A ausência das armas leva
à pergunta inevitável: Bush e Blair teriam mentido
deliberadamente?
Ao que tudo indica, a resposta é não. Quando apresentou
à população as razões para a guerra,
Bush provavelmente acreditava nas próprias palavras, baseadas
em relatórios da CIA, a Agência Central de Inteligência.
Existiam bons motivos para depor Saddam. O ditador era um fator
de instabilidade no Oriente Médio e uma desgraça para
seu próprio povo. Já havia invadido dois países
vizinhos, patrocinava o terrorismo palestino e durante doze anos
impediu o trabalho dos inspetores da ONU enviados para examinar
seus arsenais. Mas eram exatamente as armas de destruição
em massa que exigiam uma ação preventiva, como a chamou
o governo Bush. Os americanos não eram os únicos a
superestimar o arsenal de Saddam. Até um ano atrás,
nenhum especialista da ONU diria que o tirano estava desarmado.
Nem Jacques Chirac, o presidente francês que foi contra a
invasão, acreditava nisso. Não é por menos.
Saddam Hussein sempre deu motivos para suspeitarem dele. Seus generais
usaram armas químicas contra os curdos, em 1988. Depois da
Guerra do Golfo, em 1991, os inspetores da ONU descobriram que os
iraquianos estavam bastante avançados em seu programa nuclear.
Em 1995, um genro do ditador fugiu e entregou à CIA milhares
de documentos sobre as armas de destruição em massa
que o Iraque mantinha escondidas. Três anos depois, o ditador
expulsou os inspetores internacionais do país. Com tal histórico,
não havia por que imaginar que, pressionado por sanções
econômicas internacionais, ele tivesse destruído as
armas proibidas.
Mas foi exatamente o que aconteceu, na opinião de David Kay.
Por volta de 1996, logo depois do escândalo desencadeado pelo
genro desertor, a grande quantidade de material químico letal
e o programa nuclear existentes no Iraque foram eliminados. Saddam
poderia então ter cooperado com a ONU e livrado o país
das sanções econômicas. Ninguém sabe
ao certo por que ele não aproveitou essa oportunidade. Ao
contrário, continuou proclamando que dispunha de meios terríveis
de retaliação militar. Kenneth Pollack, diretor de
assuntos do Golfo no Conselho de Segurança Nacional no governo
Clinton, acredita que Saddam não abriu o país às
inspeções internacionais porque ainda tinha algo para
esconder. De fato, conforme revelou Kay, o Iraque mantinha alguns
mísseis de longo alcance e pesquisas rudimentares com venenos
biológicos. Mas o principal motivo, segundo Pollack,
é que Saddam, para se sustentar no poder, precisava manter
a população do Iraque convicta de seu poder. Tariq
Aziz, que foi chanceler do Iraque e hoje é prisioneiro dos
americanos, tem uma explicação diferente. De acordo
com ele, Saddam fingia que possuía as armas para garantir
prestígio entre as nações árabes.
O ditador também imaginava que, se o mundo continuasse acreditando
em seu potencial bélico, ninguém se meteria com ele.
Nem os americanos. E, ao mesmo tempo, esperava que a ONU derrubasse
as sanções, já que não surgiam provas
da existência de seu arsenal. Com essa estratégia contraditória,
Saddam tentava garantir tanto o respeito militar das potências
internacionais como um atestado de inocência da ONU. Não
conseguiu nem uma coisa nem outra, claro. As sanções
não foram retiradas e o país acabou invadido. Deputados
americanos pedem agora uma investigação para apurar
como o serviço de informações da maior potência
do planeta conseguiu fazer previsões tão erradas sobre
o potencial bélico do país árabe. Uma explicação
trôpega é que, depois da expulsão dos inspetores
internacionais em 1998, a inteligência americana ficou dependente
de informações duvidosas passadas por desertores iraquianos
e de fotos de satélite.
Durante anos, a busca pelas armas proibidas usou listas de importação
de produtos químicos pelo Iraque como prova de que Saddam
tinha um programa de armas ativo. A investigação da
equipe de Kay indica que a maior parte dessa matéria-prima
nunca chegou ao Iraque. O dinheiro para a compra simplesmente diluiu-se
no bolso de funcionários corruptos. Enquanto isso, o ditador
mergulhava em delírios de grandeza. Tariq Aziz contou que,
às vésperas da invasão, Saddam continuava lhe
enviando rascunhos de um romance que estava escrevendo. Os espiões
americanos não se deram conta desse cenário patético
em Bagdá. Os relatórios da CIA sobre o armamento do
Iraque eram baseados em indícios fracos. E de nada adiantava
os agentes da inteligência fazerem ressalvas sobre a baixa
confiabilidade de algumas informações. Embalados pela
decisão ideológica de destruir Saddam, os figurões
da Casa Branca e do Pentágono ignoravam as notas de rodapé
e só levavam em conta os dados que sustentavam a tese de
que o ditador era uma grande ameaça.
No ano passado, a imprensa publicou queixas de agentes da CIA de
que estavam sendo pressionados para encontrar ligações
entre o Iraque e a Al Qaeda (uma alegação baseada
em depoimento de um dissidente iraquiano e para a qual nunca surgiram
provas). Informações como essa era o que o governo
americano precisava para justificar a guerra, e era o que Bush usava
em seus discursos. Na semana passada, questionado a respeito, o
presidente americano não contestou as informações
de Kay, mas disse que a guerra se justificava de qualquer forma
porque Saddam era um ditador perigoso. Com certeza será obrigado
a explicar melhor essa história.
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