Edição 1839 . 4 de fevereiro de 2004

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Decoração
O retrato da solidão

Designers alemãs criam papéis de parede
para a casa de pessoas sozinhas


Juliana Linhares

 
Divulgação
Andrea e Susanne: o homem e o sofá são um papel de parede

Galeria de imagens: papéis de parede para os solitários

Nunca tantos viveram tão sozinhos. Principalmente no norte da Europa. Na Suécia, 40% das casas são ocupadas por apenas uma pessoa. Na Alemanha, elas somam 35%. No Brasil, a taxa cai para 9%, mas a tendência é que esse número suba bastante nas próximas duas décadas. Trata-se de uma curva diretamente proporcional ao crescente desencanto com o casamento e à difusão do individualismo nas sociedades modernas. Viver sozinho traz vantagens objetivas bastante evidentes e uma circunstância de caráter subjetivo bem deprimente: a solidão. É duro chegar do trabalho a uma casa completamente às escuras e em silêncio, sem ninguém à espera. É triste comer sozinho, em frente da televisão, sem ter um companheiro com quem comentar as bobajadas que desfilam na tela. Para pelo menos dar a impressão de que não se está sozinho, uma empresa alemã lançou uma linha de papéis de parede que trazem estampadas fotos de pessoas em tamanho natural, em situações cotidianas. O realismo é impressionante. Há, por exemplo, o papel de parede com a imagem de uma mulher que aparentemente está para sair de casa, aquele que mostra um sujeito escarrapachado no sofá e outro que exibe uma bela mulher sentada numa poltrona, segurando uma taça de vinho. O preço de cada "amigo" é 224 euros (cerca de 830 reais).

As designers que os criaram, Susanne Schmidt e Andrea Baum, ambas solteiras e na faixa dos 30 anos, dizem ter se inspirado em outro produto para solteiros, também alemão, que fez sucesso no ano passado: o CD Never Alone Again (sozinho nunca mais). O disco é composto de sons domésticos, como o de um secador de cabelos ligado, o de uma cafeteira em funcionamento, o de ranger de portas e o de papéis sendo mexidos. Para os produtores do CD, ele propicia uma sensação de companhia. Esse tipo de coisa parece ser uma maluquice (e é), mas não há como recriminar quem tenta atenuar os efeitos deletérios da solidão. Tanto melhor se o sujeito se sente bem conversando com uma foto na parede, enquanto escuta uma cafeteira que não existe. O preocupante é quando se começa a fazer isso também fora de casa.

 
 
 
 
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