Edição 1839 . 4 de fevereiro de 2004

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Há vida, e muita, depois dos 70

O polêmico Carlos Manga supera uma crise
pessoal e pilota outra minissérie de sucesso


João Gabriel de Lima

 
Oscar Cabral

Carlos Manga hoje e em dois momentos de sua carreira. Abaixo, à esquerda, nos anos 50, dirigindo um filme na Atlântida (Manga está segurando o revólver). Abaixo, à direita, comandando o Quem Tem Medo da Verdade?, em 1969

Divulgação

Paulo Salomão

Carlos Manga, ao vivo, parece um filme – com cenas, diálogos e até trilha sonora. Ao contar episódios de sua vida, ele imita Fellini em italiano, faz caras e vozes de vários personagens de Chico Anysio e, entre uma fala e outra, entoa sucessos de Frank Sinatra: "When somebody loves you..." Manga se empolga ao falar de si próprio. Aos 76 anos, sua trajetória é uma das mais bem-sucedidas do show business brasileiro. Ela começa nas chanchadas dos anos 50. Na Atlântida, Manga dirigiu clássicos do gênero, como Nem Sansão Nem Dalila e Matar ou Correr. Hoje é considerado o mago das minisséries da Globo. Um Só Coração, a sétima produção do gênero comandada por ele, atingiu uma média de 33 pontos de audiência nas duas primeiras semanas – o melhor desempenho de uma minissérie nos últimos cinco anos. No tempo das chanchadas, seus filmes eram sucesso de público, mas levavam pauladas da crítica. Hoje ele é considerado um cult, um precursor das paródias do Casseta & Planeta, do humorismo malicioso do Zorra Total e até do sensacionalismo de Márcia Goldschmidt. "Demoraram a me reconhecer porque eu sempre me preocupei em ser popular, e a crítica brasileira prefere incensar filmes que poucos vêem", diz Manga.

Um Só Coração sepulta um período difícil na vida do diretor. Há dois anos, ele se separou da terceira mulher, Denise, e entrou em depressão. Para Manga, foi um golpe duro morar longe da caçula de 11 anos, Maria Eduarda. "Ele é um pai apaixonado, e a Maria Eduarda, nascida quando ele tinha 64 anos, é também um símbolo de seu orgulho masculino", acredita o ator e diretor Paulo José, um de seus amigos mais próximos. Como Charles Foster Kane no Cidadão Kane de Orson Welles, Manga sentiu-se repentinamente sozinho em sua casa de 800 metros quadrados no Rio de Janeiro, onde há fotos e pôsteres da filha por toda parte. "O trabalho me salvou. A data em que Um Só Coração estreou representa o dia em que eu nasci de novo." Para ver Maria Eduarda com mais freqüência, Manga fez um pedido especial à Globo: incluir a menina na minissérie. Filha de um casamento anterior, a atriz Paula Hunter também está no elenco. Solitário em casa, o diretor reuniu a família no trabalho.

Quem se assusta na TV com os esgares do Coronel Totonho, vilão interpretado por Tarcísio Meira, está na verdade vendo Carlos Manga. São do diretor as caretas do coronel, que retorce a boca e revira os olhos o tempo todo. Manga só sabe dirigir assim. Ele imita os personagens e pede que os atores reproduzam o que faz. Um dos grandes momentos de sua filmografia é a caricatura de Brigitte Bardot que aparece em O Homem do Sputnik (1959). No set, entre um oui mon amour e outro, o diretor começou a rebolar e a fazer biquinho para que a atriz Norma Bengell se inspirasse. Quando dirigia Oscarito no tempo das chanchadas, Manga o imitava – e Oscarito imitava Manga imitando Oscarito. "Ele tem uma tremenda noção da parte visual, e isso é o seu forte", avalia a diretora Denise Saraceni, ex-discípula de Manga e hoje à frente de Da Cor do Pecado. "Mais do que trabalhar a parte psicológica, ele sabe o que funciona na tela", define o ator Ney Latorraca. Manga concorda. "Só ouvi falar de psicologia e de método Stanislavski na Itália, quando vi Fellini dirigindo." Durante as filmagens de Amarcord, em 1973, Manga passou um tempo como papagaio de pirata do italiano, em Cinecittà. O período valeu por uma pós-graduação.

Carlos Manga também é bom de briga. Diz que perdeu a conta dos inimigos que fez ao longo da carreira. O mais notório foi Daniel Filho, com quem por muitos anos alimentou uma encarniçada rivalidade. Hoje são amigos. Manga já comprou briga por amor. Quando era diretor na Atlântida, apaixonou-se por uma de suas atrizes, Edith Morel. Havia no estúdio uma norma que proibia o envolvimento entre funcionários. Foi sumariamente demitido. "Imagine se existisse uma portaria do gênero hoje na Globo. Não sobraria ninguém", diverte-se Manga. Ele também já comprou briga por fazer piada. Sucesso no Brasil, foi convidado no fim dos anos 50 para uma reciclagem em Hollywood. Antes da viagem, fez o filme O Homem do Sputnik, em que satirizava os Estados Unidos – numa das cenas, via-se uma águia americana cujo corpo era uma garrafa de Coca-Cola. O convite de Hollywood foi cancelado pouco depois. O auge de sua persona belicosa veio à tona no programa Quem Tem Medo da Verdade?, que ele criou para a TV Record nos anos 60. No auditório em forma de tribunal, Manga confrontava famosos e estrelas decadentes. Quando Grande Otelo, seu amigo dos tempos de Atlântida, se sentou na cadeira dos réus, Manga disparou: "Como o senhor encara o fato de ser um alcoólatra e, por causa disso, ter estragado meu primeiro filme, Dupla do Barulho?" O diretor hoje se envergonha dessa folha do currículo.

Manga tem planos para o futuro. Quer, em primeiro lugar, mudar da casa onde se sente solitário. Profissionalmente, seu principal projeto é voltar a fazer cinema. Ele não filma desde que dirigiu Os Trapalhões e o Rei do Futebol, em 1986. Não tem ainda um roteiro na cabeça. Mas sabe bem o que não quer fazer. "Não gosto de favela, nem com samba, nem sem samba. Certamente não vou entrar nessa onda do cinema brasileiro atual, de ganhar dinheiro com a desgraça dos pobres." Carlos Manga, o polêmico, está em grande forma.

 
 
 
 
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