|
|
Perfil
Há vida, e muita, depois
dos 70
O polêmico Carlos Manga supera uma crise
pessoal e pilota outra minissérie de sucesso

João
Gabriel de Lima
Oscar Cabral
 |
Carlos
Manga hoje e em dois momentos de sua carreira. Abaixo, à
esquerda, nos anos 50, dirigindo um filme na Atlântida
(Manga está segurando o revólver). Abaixo,
à direita, comandando o Quem Tem Medo da Verdade?,
em 1969
|
Divulgação
 |
Paulo Salomão
|
Carlos
Manga, ao vivo, parece um filme com cenas, diálogos
e até trilha sonora. Ao contar episódios de sua vida,
ele imita Fellini em italiano, faz caras e vozes de vários
personagens de Chico Anysio e, entre uma fala e outra, entoa sucessos
de Frank Sinatra: "When somebody loves you..." Manga se empolga
ao falar de si próprio. Aos 76 anos, sua trajetória
é uma das mais bem-sucedidas do show business brasileiro.
Ela começa nas chanchadas dos anos 50. Na Atlântida,
Manga dirigiu clássicos do gênero, como Nem Sansão
Nem Dalila e Matar ou Correr. Hoje é considerado
o mago das minisséries da Globo. Um Só Coração,
a sétima produção do gênero comandada
por ele, atingiu uma média de 33 pontos de audiência
nas duas primeiras semanas o melhor desempenho de uma minissérie
nos últimos cinco anos. No tempo das chanchadas, seus filmes
eram sucesso de público, mas levavam pauladas da crítica.
Hoje ele é considerado um cult, um precursor das paródias
do Casseta & Planeta, do humorismo malicioso do Zorra
Total e até do sensacionalismo de Márcia Goldschmidt.
"Demoraram a me reconhecer porque eu sempre me preocupei em ser
popular, e a crítica brasileira prefere incensar filmes que
poucos vêem", diz Manga.
Um
Só Coração sepulta um período difícil
na vida do diretor. Há dois anos, ele se separou da terceira
mulher, Denise, e entrou em depressão. Para Manga, foi um
golpe duro morar longe da caçula de 11 anos, Maria Eduarda.
"Ele é um pai apaixonado, e a Maria Eduarda, nascida quando
ele tinha 64 anos, é também um símbolo de seu
orgulho masculino", acredita o ator e diretor Paulo José,
um de seus amigos mais próximos. Como Charles Foster Kane
no Cidadão Kane de Orson Welles, Manga sentiu-se repentinamente
sozinho em sua casa de 800 metros quadrados no Rio de Janeiro, onde
há fotos e pôsteres da filha por toda parte. "O trabalho
me salvou. A data em que Um Só Coração
estreou representa o dia em que eu nasci de novo." Para ver Maria
Eduarda com mais freqüência, Manga fez um pedido especial
à Globo: incluir a menina na minissérie. Filha de
um casamento anterior, a atriz Paula Hunter também está
no elenco. Solitário em casa, o diretor reuniu a família
no trabalho.
Quem se assusta na TV com os esgares do Coronel Totonho, vilão
interpretado por Tarcísio Meira, está na verdade vendo
Carlos Manga. São do diretor as caretas do coronel, que retorce
a boca e revira os olhos o tempo todo. Manga só sabe dirigir
assim. Ele imita os personagens e pede que os atores reproduzam
o que faz. Um dos grandes momentos de sua filmografia é a
caricatura de Brigitte Bardot que aparece em O Homem do Sputnik
(1959). No set, entre um oui mon amour e outro, o diretor
começou a rebolar e a fazer biquinho para que a atriz Norma
Bengell se inspirasse. Quando dirigia Oscarito no tempo das chanchadas,
Manga o imitava e Oscarito imitava Manga imitando Oscarito.
"Ele tem uma tremenda noção da parte visual, e isso
é o seu forte", avalia a diretora Denise Saraceni, ex-discípula
de Manga e hoje à frente de Da Cor do Pecado. "Mais
do que trabalhar a parte psicológica, ele sabe o que funciona
na tela", define o ator Ney Latorraca. Manga concorda. "Só
ouvi falar de psicologia e de método Stanislavski na Itália,
quando vi Fellini dirigindo." Durante as filmagens de Amarcord,
em 1973, Manga passou um tempo como papagaio de pirata do italiano,
em Cinecittà. O período valeu por uma pós-graduação.
Carlos Manga também é bom de briga. Diz que perdeu
a conta dos inimigos que fez ao longo da carreira. O mais notório
foi Daniel Filho, com quem por muitos anos alimentou uma encarniçada
rivalidade. Hoje são amigos. Manga já comprou briga
por amor. Quando era diretor na Atlântida, apaixonou-se por
uma de suas atrizes, Edith Morel. Havia no estúdio uma norma
que proibia o envolvimento entre funcionários. Foi sumariamente
demitido. "Imagine se existisse uma portaria do gênero hoje
na Globo. Não sobraria ninguém", diverte-se Manga.
Ele também já comprou briga por fazer piada. Sucesso
no Brasil, foi convidado no fim dos anos 50 para uma reciclagem
em Hollywood. Antes da viagem, fez o filme O Homem do Sputnik,
em que satirizava os Estados Unidos numa das cenas, via-se
uma águia americana cujo corpo era uma garrafa de Coca-Cola.
O convite de Hollywood foi cancelado pouco depois. O auge de sua
persona belicosa veio à tona no programa Quem Tem Medo
da Verdade?, que ele criou para a TV Record nos anos 60. No
auditório em forma de tribunal, Manga confrontava famosos
e estrelas decadentes. Quando Grande Otelo, seu amigo dos tempos
de Atlântida, se sentou na cadeira dos réus, Manga
disparou: "Como o senhor encara o fato de ser um alcoólatra
e, por causa disso, ter estragado meu primeiro filme, Dupla do
Barulho?" O diretor hoje se envergonha dessa folha do currículo.
Manga tem planos para o futuro. Quer, em primeiro lugar, mudar da
casa onde se sente solitário. Profissionalmente, seu principal
projeto é voltar a fazer cinema. Ele não filma desde
que dirigiu Os Trapalhões e o Rei do Futebol, em 1986.
Não tem ainda um roteiro na cabeça. Mas sabe bem o
que não quer fazer. "Não gosto de favela, nem com
samba, nem sem samba. Certamente não vou entrar nessa onda
do cinema brasileiro atual, de ganhar dinheiro com a desgraça
dos pobres." Carlos Manga, o polêmico, está em grande
forma.
|