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Ambiente
Um urso incomoda muita gente...
...300
000 ursos incomodam muito mais, revirando lixo e invadindo casas
nos EUA

Diogo Schelp
AP
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| Habilidade
de urso: em busca de comida, um urso-negro levanta a tampa da
lata de lixo |
As crianças de Vernon, no Estado americano de Nova Jersey,
quando vão ao colégio e topam com um urso no meio
do caminho têm uma tática peculiar de defesa: atiram
o lanche do recreio para o animal e depois fogem. É um acontecimento
tão comum que elas já saem de casa com a comida na
mão, nunca na mochila. Encontros tensos como esses são
cada vez mais freqüentes nos Estados Unidos, em parte devido
ao aumento do número de ursos no país. Nos subúrbios
das cidades e em outras áreas residenciais próximas
a parques florestais e fazendas, os ursos costumam invadir o quintal
das casas à procura de comida. Reviram o lixo, matam cachorros
e às vezes vasculham até as cozinhas. Habilidosos,
são capazes de abrir a geladeira para se deliciar com quitutes
como costeletas de porco e bolos de chocolate. No ano passado, depois
de uma dessas incursões, um urso-negro resolveu tirar uma
soneca no corredor da casa de uma moradora das montanhas de Sierra
Nevada, na Califórnia. Não é difícil
imaginar o tamanho do susto: os machos chegam a pesar 300 quilos
e a medir 2 metros de altura quando estão de pé. No
Estado de Nova Jersey, que é vizinho a Nova York, foram registradas
58 ocorrências desse tipo em 2003, contra a metade em 1998.
Para combater o problema, o governo estadual permitiu a caça
do animal durante seis dias em dezembro, atividade suspensa há
33 anos.
Os
ursos-negros habitam uma vasta região que vai do norte do
México ao Canadá. Estima-se que haja 600.000
em toda a América do Norte, metade deles nos EUA. A quantidade
cresce a cada ano. No Estado de Minnesota, foram recenseados 6.000
ursos-negros em 1969. Hoje são 22.000.
Contribuiu para isso a criação de novas reservas florestais
nos Estados Unidos nesse período. Além disso, os ursos,
animais inteligentes e com alta capacidade de adaptação,
começaram a entrar nas cidades e descobriram o sistema de
fast food: latões de lixo de restaurantes e residências.
É uma fonte de alimento que facilita muito a vida do animal
selvagem, porque está disponível o ano inteiro, pode
ser encontrada sempre no mesmo lugar e é renovada constantemente.
Um urso-negro consome em média 20.000
calorias diárias. No ambiente selvagem, passa treze horas
por dia à procura de comida. Na cidade, revirando lixo e
saqueando cozinhas, gasta apenas oito. Durante o tempo que sobra,
esses ursos urbanos ficam descansando e engordam. Cientistas
descobriram que os exemplares que vivem nas redondezas das cidades
pesam 30% mais que os que vivem na floresta. E muitos até
pararam de hibernar
AP
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| Semana
de caça em Nova Jersey, em dezembro: 328 animais mortos
em apenas seis dias |
Para
tentar conter a expansão da espécie, 27 Estados americanos
permitem a caça controlada. Só no Estado de Nova York,
que teve um caso de pessoa morta por um urso em 2002, foram abatidos
900 no ano passado. No Canadá, além do urso-negro,
há temporadas de caça também do grizzly,
espécie que chega a medir 3 metros de altura e a pesar 600
quilos. A recente experiência de caça em Nova Jersey
deverá ter pouco ou nenhum efeito prático para evitar
os encontros indesejáveis com os mamíferos peludos.
Os mais de 5.000 caçadores cadastrados
conseguiram matar apenas 328 dos 3.300
ursos existentes no Estado, que serão repostos rapidamente:
calcula-se que devam nascer entre 500 e 700 filhotes na região
até o fim de fevereiro. Os ambientalistas acham que a caça
é uma maneira incorreta de resolver o problema. "Mesmo nos
Estados em que a caça é permitida, o número
de ocorrências continua crescendo", disse a VEJA a ecologista
americana Lynda Smith, diretora do Grupo de Educação
e Pesquisa sobre o Urso, de Nova Jersey. O certo seria encontrar
um jeito de conviver pacificamente com o animal. Desenvolvendo latas
de lixo à prova de ursos, por exemplo.
A
política de boa vizinhança com os grandalhões
baseia-se no princípio de que, no fundo, são os seres
humanos que incomodam os ursos, e não o contrário.
"Quanto mais as pessoas se mudam para as áreas originalmente
habitadas pelos ursos, mais aumenta o contato entre o homem e o
animal", disse a VEJA o biólogo Lynn Rogers, que estuda o
urso-negro há 37 anos e dirige o Centro Norte-Americano do
Urso, de Minnesota. Para Rogers, as pessoas que querem viver perto
da zona rural não deveriam ter medo dos ursos-negros. Os
indivíduos dessa espécie costumam ser, por natureza,
dóceis e assustadiços. É fácil espantá-los
estourando rojões, batendo panelas ou tocando cornetas de
plástico. Eles só nos atacam quando se sentem ameaçados
ou quando invadimos seu território. Caso isso aconteça,
recomendam os caçadores do Canadá, nunca se deve olhar
diretamente nos olhos do bicho. Ele entende isso como mais uma ameaça.
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