Edição 1839 . 4 de fevereiro de 2004

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Ambiente
Um urso incomoda muita gente...

...300 000 ursos incomodam muito mais, revirando lixo e invadindo casas nos EUA


Diogo Schelp


AP
Habilidade de urso: em busca de comida, um urso-negro levanta a tampa da lata de lixo


As crianças de Vernon, no Estado americano de Nova Jersey, quando vão ao colégio e topam com um urso no meio do caminho têm uma tática peculiar de defesa: atiram o lanche do recreio para o animal e depois fogem. É um acontecimento tão comum que elas já saem de casa com a comida na mão, nunca na mochila. Encontros tensos como esses são cada vez mais freqüentes nos Estados Unidos, em parte devido ao aumento do número de ursos no país. Nos subúrbios das cidades e em outras áreas residenciais próximas a parques florestais e fazendas, os ursos costumam invadir o quintal das casas à procura de comida. Reviram o lixo, matam cachorros e às vezes vasculham até as cozinhas. Habilidosos, são capazes de abrir a geladeira para se deliciar com quitutes como costeletas de porco e bolos de chocolate. No ano passado, depois de uma dessas incursões, um urso-negro resolveu tirar uma soneca no corredor da casa de uma moradora das montanhas de Sierra Nevada, na Califórnia. Não é difícil imaginar o tamanho do susto: os machos chegam a pesar 300 quilos e a medir 2 metros de altura quando estão de pé. No Estado de Nova Jersey, que é vizinho a Nova York, foram registradas 58 ocorrências desse tipo em 2003, contra a metade em 1998. Para combater o problema, o governo estadual permitiu a caça do animal durante seis dias em dezembro, atividade suspensa há 33 anos.

Os ursos-negros habitam uma vasta região que vai do norte do México ao Canadá. Estima-se que haja 600.000 em toda a América do Norte, metade deles nos EUA. A quantidade cresce a cada ano. No Estado de Minnesota, foram recenseados 6.000 ursos-negros em 1969. Hoje são 22.000. Contribuiu para isso a criação de novas reservas florestais nos Estados Unidos nesse período. Além disso, os ursos, animais inteligentes e com alta capacidade de adaptação, começaram a entrar nas cidades e descobriram o sistema de fast food: latões de lixo de restaurantes e residências. É uma fonte de alimento que facilita muito a vida do animal selvagem, porque está disponível o ano inteiro, pode ser encontrada sempre no mesmo lugar e é renovada constantemente. Um urso-negro consome em média 20.000 calorias diárias. No ambiente selvagem, passa treze horas por dia à procura de comida. Na cidade, revirando lixo e saqueando cozinhas, gasta apenas oito. Durante o tempo que sobra, esses ursos urbanos ficam descansando – e engordam. Cientistas descobriram que os exemplares que vivem nas redondezas das cidades pesam 30% mais que os que vivem na floresta. E muitos até pararam de hibernar


AP
Semana de caça em Nova Jersey, em dezembro: 328 animais mortos em apenas seis dias

Para tentar conter a expansão da espécie, 27 Estados americanos permitem a caça controlada. Só no Estado de Nova York, que teve um caso de pessoa morta por um urso em 2002, foram abatidos 900 no ano passado. No Canadá, além do urso-negro, há temporadas de caça também do grizzly, espécie que chega a medir 3 metros de altura e a pesar 600 quilos. A recente experiência de caça em Nova Jersey deverá ter pouco ou nenhum efeito prático para evitar os encontros indesejáveis com os mamíferos peludos. Os mais de 5.000 caçadores cadastrados conseguiram matar apenas 328 dos 3.300 ursos existentes no Estado, que serão repostos rapidamente: calcula-se que devam nascer entre 500 e 700 filhotes na região até o fim de fevereiro. Os ambientalistas acham que a caça é uma maneira incorreta de resolver o problema. "Mesmo nos Estados em que a caça é permitida, o número de ocorrências continua crescendo", disse a VEJA a ecologista americana Lynda Smith, diretora do Grupo de Educação e Pesquisa sobre o Urso, de Nova Jersey. O certo seria encontrar um jeito de conviver pacificamente com o animal. Desenvolvendo latas de lixo à prova de ursos, por exemplo.

A política de boa vizinhança com os grandalhões baseia-se no princípio de que, no fundo, são os seres humanos que incomodam os ursos, e não o contrário. "Quanto mais as pessoas se mudam para as áreas originalmente habitadas pelos ursos, mais aumenta o contato entre o homem e o animal", disse a VEJA o biólogo Lynn Rogers, que estuda o urso-negro há 37 anos e dirige o Centro Norte-Americano do Urso, de Minnesota. Para Rogers, as pessoas que querem viver perto da zona rural não deveriam ter medo dos ursos-negros. Os indivíduos dessa espécie costumam ser, por natureza, dóceis e assustadiços. É fácil espantá-los estourando rojões, batendo panelas ou tocando cornetas de plástico. Eles só nos atacam quando se sentem ameaçados ou quando invadimos seu território. Caso isso aconteça, recomendam os caçadores do Canadá, nunca se deve olhar diretamente nos olhos do bicho. Ele entende isso como mais uma ameaça.

 
 
 
 
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