Edição 1839 . 4 de fevereiro de 2004

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Comportamento
Em casa e com dor

O parto doméstico, sem anestesia
e às vezes até sem obstetra,
conquista adeptas no país


Adriana Negreiros

Caras
A modelo Caroline, que quer dar à luz sem anestesia: "Sempre deu certo"


Há grávidas que fazem questão de ter um parto à moda antiga e são capazes de pagar até 15 000 reais para viver essa experiência. E há, também, médicos e grupos organizados que pregam esse tipo de parto. A julgar pelos números apresentados pelos defensores desse método, trata-se de uma nova moda entre as parturientes. Nos consultórios que aceitam fazer essa modalidade de parto, 90% das pacientes fazem questão de ter seu bebê assim. Há dois anos, eram 10%. As visitas diárias ao site do grupo Amigas do Parto, que divulga o procedimento, aumentaram, no mesmo período, de 100 para 800. O chamado parto humanizado vem sendo praticado tanto na casa dos futuros pais quanto em alguns hospitais. Na hora do nascimento, evitam-se anestesias, cortes e medicamentos para induzir o parto. Não são poucos os casos em que se substitui o obstetra por uma parteira, como há dois séculos. Para dar um ar de festa ao evento, há quem convide amigos para comemorar o feito, como num aniversário.

Uma das vantagens citadas pelos adeptos do parto à antiga é a rápida recuperação da mulher. Outra é de ordem emocional: "No parto não humanizado, a mãe nem se sente protagonista do evento", diz o obstetra Ricardo Herbert Jones, de Porto Alegre. "A dor guia naturalmente o movimento da mulher e facilita a saída do bebê", ele defende. Quem passou pela experiência, como a psicoterapeuta Adriana Tanese Nogueira, concorda. Aos 36 anos, ela teve a primeira filha em casa, sem anestesia, de cócoras. Quer repetir a dose. "Dor de dente é pior que dor de parto", assegura Adriana, autora de um livro com depoimentos de outras mães que optaram por esse método. A modelo Caroline Ribeiro, grávida de oito meses, fez a mesma escolha. Terá a criança numa maternidade, mas com o mínimo de intervenções. "Não tenho medo. Sempre deu certo desse jeito."

Em termos estatísticos, isso não é exatamente verdade. Com a popularização das maternidades no século XX, nas cidades americanas a redução da mortalidade de mães em decorrência de complicações do parto foi da ordem de 90%. No Brasil não foi diferente. Não é por acaso que muitos vêem o parto humanizado com desconfiança. "Querendo evitar as cesáreas, muitas pessoas cometem um exagero tolo", diz o médico José Aristodemo Pinotti, do Hospital das Clínicas de São Paulo. "Mãe e criança podem morrer se não houver equipamentos e médico disponíveis em caso de emergência." Abner Lobão Filho, coordenador do pré-natal personalizado da Universidade Federal de São Paulo, afirma que partos domiciliares só devem ser feitos com uma ambulância à porta. "A futura mãe tem de estar em excelentes condições de saúde, e mesmo assim os riscos são maiores do que na maternidade", alerta Lobão.

Os defensores do parto com dor rejeitam o rótulo de esotéricos, apesar de chegarem a propor música ambiente e orações na hora do nascimento e sessões de ioga para a mulher grávida. Uma grande diferença entre esse modelo e o que de fato acontecia no passado são os gastos para ter o bebê. Enquanto muitas parteiras trabalhavam por amor ao ofício, médicos adeptos do método cobram valores equivalentes ao de um parto tradicional. Em termos de tempo, isso faz sentido. O médico Jorge Kuhn, professor da Universidade Federal de São Paulo, faz de dois a três desses partos por mês. Conta que já ficou até 24 horas com uma paciente. Numa cesárea, demoraria no máximo uma hora. "Olhando por esse ângulo, a cesariana é mais rentável e mais prática para o médico", ele diz.

 
 
 
 
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