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Emigração
O
fim do sonho americano
A
aventura e o sofrimento dos brasileiros
que tentam ingressar clandestinamente em
território americano

Malu
Gaspar, do Arizona (EUA)
Juca Varella/Folha Imagem
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DEPORTADOS
277 brasileiros desembarcaram na quarta-feira passada em Belo
Horizonte |
A
cena de uma balsa cheia de cubanos miseráveis flutuando em
águas americanas é a imagem mais conhecida do descompasso
entre pobres e ricos, entre a ilusão e o desespero. No sul
dos Estados Unidos, explodiu no ano passado uma versão brasileira
dessa migração desesperada. Mais de 1.000
brasileiros estão presos em cadeias americanas aguardando
o fim do processo de deportação. São acusados
de imigração ilegal, não têm direito
a fiança e recebem tratamento rigoroso. Na semana passada,
uma parte desses imigrantes, 277 brasileiros que estavam presos
nos EUA, foi mandada de volta ao Brasil em um vôo fretado
pelo governo americano. Entre os que voltaram há pessoas
com os mais variados perfis, mas com histórias de vida muito
parecidas. Elas largaram tudo no Brasil, enfrentaram os perigos
de uma incursão clandestina em território americano,
sofreram humilhações, foram presas, expulsas e, agora,
em sua maioria, só pensam em uma coisa: reencontrar a família,
juntar algum dinheiro e, quem sabe, um dia tentar de novo. "A gente
vê esse pessoal que volta dos Estados Unidos e compra carro,
casa nova, monta um comércio e arruma a vida. Então,
muito ruim não pode ser", diz Evandro Tolentino de Andrade,
um contabilista de 43 anos que resolveu arriscar a travessia da
fronteira do México em dezembro passado.
Ganhando 500 reais por mês como administrador de motéis
e dividindo com a mulher o sustento da família em Patos de
Minas, no interior de Minas Gerais, Evandro planejou ficar dois
ou três anos nos EUA e depois voltar com dinheiro suficiente
para pagar os estudos das duas filhas. Para Bruno Ferreira Mendes,
fiscal de tributos em Mato Grosso, o salário de 400 reais
mal dava para alimentar a família. "Se eu ganhasse 1.000
reais hoje no Brasil, não iria embora." Sem se conhecerem,
ambos traçaram o mesmo plano, trilharam o mesmo caminho,
sonharam com as mesmas coisas e, juntos, acabaram no mesmo lugar
uma cela do presídio da cidade de Florence, no Arizona,
para onde é levada hoje a maioria dos brasileiros presos
tentando cruzar a fronteira com o México. Dos 277 deportados
que chegaram ao Brasil na semana passada, 211 estavam detidos no
Arizona. Há outros 1.400 brasileiros
na região aguardando decisão do governo americano
para voltar.
Hayes
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SEM
FISCALIZAÇÃO
A cerca na fronteira entre México e Estados Unidos:
rota de passagem dos imigrantes ilegais |
Antes,
as leis americanas davam aos estrangeiros presos a possibilidade
de pagar uma fiança e responder ao processo em liberdade.
A maioria aproveitava a brecha para desaparecer em território
americano. Hoje, as autoridades não permitem mais a liberdade
por fiança, alegando questões de segurança
nacional. "Essa regra foi criada para ser usada contra terroristas,
mas aqui no Arizona só se aplica aos brasileiros", afirma
a advogada Suzannah Maclay, da Florence Immigrant & Refugee
Rights Project, uma ONG que se dedica a defender os imigrantes ilegais
presos no Arizona. O rigor na fiscalização e a dificuldade
em obter visto de turista transformaram a fronteira do México
no principal ponto de entrada de imigrantes ilegais. No fim do ano
passado, a polícia de fronteira chegou a prender sessenta
brasileiros em uma única semana, pessoas que, muitas vezes
em nome de uma ilusão, mergulham em uma perigosa aventura
que nem sempre termina bem.
A do fiscal Bruno Mendes, por exemplo, durou dez dias, dois dos
quais passados em uma prisão mexicana. Ele e a mulher, Sueli,
saíram de Mato Grosso em meados de dezembro. Desembarcaram
na Cidade do México e compraram passagens de avião
para Hermosillo, uma cidade de médio porte no norte do país,
de onde os imigrantes ilegais costumam partir para as pequenas cidades
da fronteira. Lá, Bruno foi preso pela imigração
mexicana. Ficou detido com a mulher e só saiu depois que
contratou um advogado. "Ser preso por um policial mexicano é
muito pior do que pelos americanos. Os mexicanos são corruptos,
humilham e maltratam a gente." Bruno comprou a liberdade por 400
dólares. Mas era só o começo da aventura. De
Hermosillo, o casal foi até Naco, cidade-dormitório
na fronteira mexicana que vive da imigração ilegal.
Junto com outros cinco brasileiros, eles andaram três horas
pelo deserto. O plano previa chegar a uma estrada de terra em território
americano, onde seriam resgatados por guias mexicanos os
chamados "coiotes".
Hayes
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CLAUSURA
NO DESERTO
Brasileiros presos no Arizona: sonho de vida melhor
acaba em pesadelo |
Para
despistar a polícia, a caminhada é feita no escuro,
entre arbustos e coiotes de verdade. Uma patrulha, porém,
localizou o grupo. Presos, os dois foram enviados ao "inferninho",
um centro de triagem em Tucson que, segundo o relato dos brasileiros,
merece o apelido que tem de tão precárias que são
as condições do lugar. Bruno recebeu um colchonete,
não podia tomar banho e as refeições se limitavam
a três sanduíches por dia. Separados na prisão,
os dois nunca mais se viram. Sueli foi liberada pela imigração.
Ele, enviado a Florence, a 100 quilômetros de distância.
"Tenho medo de entrar em depressão. Aqui na cadeia, nosso
pensamento não anda, vai e volta para o mesmo lugar", diz.
Bruno soube que a mulher está em Broadway, no interior do
Estado de Nova Jersey, trabalhando como faxineira. De vez em quando
consegue telefonar para a mãe, que ficou em Rio Branco, em
Mato Grosso, cuidando da casa que os dois deixaram vazia. Para conseguir
comprar o cartão telefônico vendido dentro da prisão,
a 5 dólares cada um, ele tem de trabalhar uma semana inteira
na cadeia. Os presos de Florence ganham 1 dólar para cada
dia trabalhado, recolhendo lixo, ajudando na lavanderia ou no refeitório
e limpando as celas. O dinheiro arrecadado na semana dá para
falar três minutos com a família.
Hayes
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TRAVESSIA
NOTURNA
Patrulha
de fronteira em ação: dezenas de brasileiros são
presos todas as semanas tentando cruzar o deserto |
O
mineiro Evandro e o mato-grossense Bruno vão permanecer em
Florence até uma decisão da Justiça americana,
que deve acabar por mandá-los de volta ao Brasil. O maior
drama dos brasileiros presos hoje é a espera. A deportação
é o passo final de uma agonia que leva, em média,
100 dias. Uma comissão de parlamentares brasileiros esteve
acompanhando os presos nos Estados Unidos e conseguiu acelerar a
libertação de boa parte do grupo. A preocupação
dos senadores e deputados é que houve denúncias de
maus-tratos em alguns presídios. Em seu relatório
de viagem, o senador Marcelo Crivella ressaltou ter encontrado brasileiras
presas com criminosas comuns. Mas, felizmente, não é
a regra. As cadeias para os imigrantes ilegais são confortáveis
se comparadas com as prisões brasileiras. A de Florence,
por exemplo, mesmo lotada, oferece cama a todos os detentos. Os
presos recebem roupa limpa e sapatos, tomam banho e fazem pelo menos
três refeições por dia. Podem ver TV, têm
acesso a uma área de recreação com campo de
futebol, mesas de pingue-pongue e aparelhos para musculação.
A cadeia está sempre limpa e há atendimento psicológico,
médico e dentário com equipamentos de primeira linha.
"O problema não é sermos maltratados. É ficar
esperando todo esse tempo sem ir nem voltar. É um tempo perdido,
que a gente não sabe no que vai dar", reclama Mauro Siqueira
Rodrigues, mineiro de Carmo do Paranaíba. Em duas semanas
de aventura migratória, ele gastou 3.000
dólares, economizados em cinco anos de trabalho como operário
da construção civil. Animado por amigos que trabalham
como motoristas de van em Nova York e Boston, ele resolveu arriscar
tudo para "fazer a América", como ele mesmo diz. Recebendo
300 reais por mês e ajudando no sustento da mãe, morando
com dois irmãos e um sobrinho, ele achou que valia a pena
largar tudo para poder ganhar em dólares nos Estados Unidos,
fazendo mais ou menos o que fazia no Brasil. De novo, a mesma história.
Fotos John Hayes
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ayes
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SONHO
E PESADELO
Histórias que se repetem: Ivo Gontijo e Bruno
Mendes só queriam mudar de vida acabaram na cadeia
e longe da família |
Ivo
Billar Gontijo, que mora em Valparaíso de Goiás, no
entorno de Brasília, desestruturou toda a família
por causa da aventura americana. Preso no Arizona, ele não
quer voltar. Sua expedição incluiu a mulher, Edriana,
e a filha, Yasmin, de apenas 1 ano. Gontijo vendeu uma padaria por
60.000 reais, deixou um irmão cuidando
da casa e comprou passagens para a Cidade do México. Numa
jornada que durou duas semanas, ele, a mulher e a filha ficaram
quatro dias trancados no hotel da capital mexicana, enfrentaram
32 horas de ônibus até a fronteira, onde se encontraram
com um taxista, que cobrou 250 dólares para levá-los
até Naco, a porta de saída. Lá, Gontijo e a
família ainda esperaram dois dias num hotel velho pelo aviso
dos "coiotes" que os guiariam até o lado americano. Por segurança,
Gontijo atravessou a fronteira à noite junto com outros nove
brasileiros e sete mexicanos. Sua mulher fez o mesmo trajeto na
manhã seguinte, horário menos perigoso para o bebê.
Ambos foram presos. Edriana foi libertada dias depois e seguiu sua
rota. "Voltar para o Brasil não dá mais. Se meu marido
não conseguir vir agora, eu fico esperando", diz Edriana,
que está morando em Nova Jersey, com parentes, e iniciando
a carreira na faxina. As autoridades de imigração
são liberais com as mulheres. Quando levam crianças,
a situação fica mais fácil ainda, já
que as instalações da imigração na fronteira
não têm condições de abrigar mães
e filhos.
Hoje, existem cerca de 800.000 brasileiros vivendo
clandestinamente nos Estados Unidos. Boa parte entrou no país
como turista e não voltou mais. Os imigrantes que decidem
encarar o deserto enfrentam temperaturas que variam de zero a 50
graus positivos e uma fauna perigosa, com cobras, escorpiões,
aranhas e abelhas. No ano passado, 139 pessoas morreram tentando
atravessar a fronteira do México com o Arizona. Não
se tem notícia de brasileiros entre as vítimas. A
região é toda cercada por censores de movimento espalhados
no solo e torres com câmeras de raios infravermelhos. A central
da patrulha de fronteira também é uma das maiores
do país, mas México e EUA são separados apenas
por uma cerca velha de arame farpado, com vários buracos
em sua extensão, o que facilita a entrada dos clandestinos.
A patrulha de fronteira, que acompanha essa rota de imigração
há mais de cinco anos, sabe que a região é
toda dividida entre grupos de atravessadores, alguns especializados
em atrair brasileiros. O centro de detenção de Florence,
por tudo isso, se tornou a prisão com o maior número
de brasileiros detidos em todos os Estados Unidos. A cidade, encravada
no meio do deserto e cercada pelos enormes cactos, que são
a marca registrada do Arizona, é conhecida como "cidade-prisão"
são 6.000 habitantes do lado de
fora das cadeias e cerca de 23.000 dentro delas.
O lugar já foi um campo de trabalho forçado para prisioneiros
na II Guerra Mundial. Agora é um espécie de pólo
de concentração de imigrantes ilegais. O número
de brasileiros presos cresceu tanto que foi transferido para lá
um agente que fala português. Jared Gallahan, um ex-missionário
mórmon que passou dois anos no Paraná no início
da década de 90, ajuda os brasileiros a ler os documentos,
traduz o que dizem os policiais e advogados. Mas também enche
os presos de perguntas, tentando obter nomes e telefones dos atravessadores
mexicanos.
John Hayes
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VOLTA
POR CIMA
Gervásio Pereira: distante da família
e doente, ainda alimenta a esperança de fazer fortuna
na América |
O
paranaense Gervásio Pereira da Costa, de 45 anos, é
um especialista no assunto. Ele chegou aos EUA pela primeira vez
em 1990, como turista. Com as economias que levou, montou em Miami
um lava-jato e, segundo conta, ganhou muito dinheiro. A maioria
dos brasileiros, por melhores que os Estados Unidos lhes pareçam,
sempre pensa em voltar e Gervásio voltou. No Brasil,
teve prejuízo nos negócios e perdeu tudo o que possuía.
Decidiu emigrar de novo para os EUA, mas não conseguiu o
visto. "Tentei dez vezes", conta. A alternativa foi seguir o caminho
da fronteira do México", lembra ele, que hoje mora em Los
Angeles e trabalha como mecânico em uma loja de motocicletas.
Gervásio ganha 2 000 dólares por mês, mas só
está recebendo 1.000. Recentemente, ele
sofreu um acidente e está impossibilitado de trabalhar. Faz
sete anos que não vê a família, com quem fala
apenas pelo telefone. Sua filha, de 23 anos, está noiva no
Brasil, mas ele não sabe se irá ao casamento. Não
viu crescer o filho de 18 anos. Há dois anos não recebe
fotos da mulher. Desde que chegou aos Estados Unidos, Gervásio
imaginava poder trazer a família para o país. Não
conseguiu e fixou uma data para seu retorno, que também não
cumpriu. Desesperado e doente, foi buscar ajuda em uma igreja evangélica.
Ele conta que recebeu uma premonição divina: vai montar
um negócio na internet e ficar milionário. Essa é
a beleza americana, pelo menos no imaginário de alguns brasileiros.
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