Edição 1839 . 4 de fevereiro de 2004

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Emigração
O fim do sonho americano

A aventura e o sofrimento dos brasileiros
que tentam ingressar clandestinamente em
território americano


Malu Gaspar, do Arizona (EUA)


Juca Varella/Folha Imagem
DEPORTADOS
277 brasileiros desembarcaram na quarta-feira passada em Belo Horizonte

A cena de uma balsa cheia de cubanos miseráveis flutuando em águas americanas é a imagem mais conhecida do descompasso entre pobres e ricos, entre a ilusão e o desespero. No sul dos Estados Unidos, explodiu no ano passado uma versão brasileira dessa migração desesperada. Mais de 1.000 brasileiros estão presos em cadeias americanas aguardando o fim do processo de deportação. São acusados de imigração ilegal, não têm direito a fiança e recebem tratamento rigoroso. Na semana passada, uma parte desses imigrantes, 277 brasileiros que estavam presos nos EUA, foi mandada de volta ao Brasil em um vôo fretado pelo governo americano. Entre os que voltaram há pessoas com os mais variados perfis, mas com histórias de vida muito parecidas. Elas largaram tudo no Brasil, enfrentaram os perigos de uma incursão clandestina em território americano, sofreram humilhações, foram presas, expulsas e, agora, em sua maioria, só pensam em uma coisa: reencontrar a família, juntar algum dinheiro e, quem sabe, um dia tentar de novo. "A gente vê esse pessoal que volta dos Estados Unidos e compra carro, casa nova, monta um comércio e arruma a vida. Então, muito ruim não pode ser", diz Evandro Tolentino de Andrade, um contabilista de 43 anos que resolveu arriscar a travessia da fronteira do México em dezembro passado.

Ganhando 500 reais por mês como administrador de motéis e dividindo com a mulher o sustento da família em Patos de Minas, no interior de Minas Gerais, Evandro planejou ficar dois ou três anos nos EUA e depois voltar com dinheiro suficiente para pagar os estudos das duas filhas. Para Bruno Ferreira Mendes, fiscal de tributos em Mato Grosso, o salário de 400 reais mal dava para alimentar a família. "Se eu ganhasse 1.000 reais hoje no Brasil, não iria embora." Sem se conhecerem, ambos traçaram o mesmo plano, trilharam o mesmo caminho, sonharam com as mesmas coisas e, juntos, acabaram no mesmo lugar – uma cela do presídio da cidade de Florence, no Arizona, para onde é levada hoje a maioria dos brasileiros presos tentando cruzar a fronteira com o México. Dos 277 deportados que chegaram ao Brasil na semana passada, 211 estavam detidos no Arizona. Há outros 1.400 brasileiros na região aguardando decisão do governo americano para voltar.


Hayes
SEM FISCALIZAÇÃO
A cerca na fronteira entre México e Estados Unidos: rota de passagem dos imigrantes ilegais

Antes, as leis americanas davam aos estrangeiros presos a possibilidade de pagar uma fiança e responder ao processo em liberdade. A maioria aproveitava a brecha para desaparecer em território americano. Hoje, as autoridades não permitem mais a liberdade por fiança, alegando questões de segurança nacional. "Essa regra foi criada para ser usada contra terroristas, mas aqui no Arizona só se aplica aos brasileiros", afirma a advogada Suzannah Maclay, da Florence Immigrant & Refugee Rights Project, uma ONG que se dedica a defender os imigrantes ilegais presos no Arizona. O rigor na fiscalização e a dificuldade em obter visto de turista transformaram a fronteira do México no principal ponto de entrada de imigrantes ilegais. No fim do ano passado, a polícia de fronteira chegou a prender sessenta brasileiros em uma única semana, pessoas que, muitas vezes em nome de uma ilusão, mergulham em uma perigosa aventura que nem sempre termina bem.

A do fiscal Bruno Mendes, por exemplo, durou dez dias, dois dos quais passados em uma prisão mexicana. Ele e a mulher, Sueli, saíram de Mato Grosso em meados de dezembro. Desembarcaram na Cidade do México e compraram passagens de avião para Hermosillo, uma cidade de médio porte no norte do país, de onde os imigrantes ilegais costumam partir para as pequenas cidades da fronteira. Lá, Bruno foi preso pela imigração mexicana. Ficou detido com a mulher e só saiu depois que contratou um advogado. "Ser preso por um policial mexicano é muito pior do que pelos americanos. Os mexicanos são corruptos, humilham e maltratam a gente." Bruno comprou a liberdade por 400 dólares. Mas era só o começo da aventura. De Hermosillo, o casal foi até Naco, cidade-dormitório na fronteira mexicana que vive da imigração ilegal. Junto com outros cinco brasileiros, eles andaram três horas pelo deserto. O plano previa chegar a uma estrada de terra em território americano, onde seriam resgatados por guias mexicanos – os chamados "coiotes".


Hayes
CLAUSURA NO DESERTO
Brasileiros presos no Arizona: sonho de vida melhor acaba em pesadelo

Para despistar a polícia, a caminhada é feita no escuro, entre arbustos e coiotes de verdade. Uma patrulha, porém, localizou o grupo. Presos, os dois foram enviados ao "inferninho", um centro de triagem em Tucson que, segundo o relato dos brasileiros, merece o apelido que tem de tão precárias que são as condições do lugar. Bruno recebeu um colchonete, não podia tomar banho e as refeições se limitavam a três sanduíches por dia. Separados na prisão, os dois nunca mais se viram. Sueli foi liberada pela imigração. Ele, enviado a Florence, a 100 quilômetros de distância. "Tenho medo de entrar em depressão. Aqui na cadeia, nosso pensamento não anda, vai e volta para o mesmo lugar", diz. Bruno soube que a mulher está em Broadway, no interior do Estado de Nova Jersey, trabalhando como faxineira. De vez em quando consegue telefonar para a mãe, que ficou em Rio Branco, em Mato Grosso, cuidando da casa que os dois deixaram vazia. Para conseguir comprar o cartão telefônico vendido dentro da prisão, a 5 dólares cada um, ele tem de trabalhar uma semana inteira na cadeia. Os presos de Florence ganham 1 dólar para cada dia trabalhado, recolhendo lixo, ajudando na lavanderia ou no refeitório e limpando as celas. O dinheiro arrecadado na semana dá para falar três minutos com a família.


Hayes
TRAVESSIA NOTURNA
Patrulha de fronteira em ação: dezenas de brasileiros são presos todas as semanas tentando cruzar o deserto

O mineiro Evandro e o mato-grossense Bruno vão permanecer em Florence até uma decisão da Justiça americana, que deve acabar por mandá-los de volta ao Brasil. O maior drama dos brasileiros presos hoje é a espera. A deportação é o passo final de uma agonia que leva, em média, 100 dias. Uma comissão de parlamentares brasileiros esteve acompanhando os presos nos Estados Unidos e conseguiu acelerar a libertação de boa parte do grupo. A preocupação dos senadores e deputados é que houve denúncias de maus-tratos em alguns presídios. Em seu relatório de viagem, o senador Marcelo Crivella ressaltou ter encontrado brasileiras presas com criminosas comuns. Mas, felizmente, não é a regra. As cadeias para os imigrantes ilegais são confortáveis se comparadas com as prisões brasileiras. A de Florence, por exemplo, mesmo lotada, oferece cama a todos os detentos. Os presos recebem roupa limpa e sapatos, tomam banho e fazem pelo menos três refeições por dia. Podem ver TV, têm acesso a uma área de recreação com campo de futebol, mesas de pingue-pongue e aparelhos para musculação. A cadeia está sempre limpa e há atendimento psicológico, médico e dentário com equipamentos de primeira linha. "O problema não é sermos maltratados. É ficar esperando todo esse tempo sem ir nem voltar. É um tempo perdido, que a gente não sabe no que vai dar", reclama Mauro Siqueira Rodrigues, mineiro de Carmo do Paranaíba. Em duas semanas de aventura migratória, ele gastou 3.000 dólares, economizados em cinco anos de trabalho como operário da construção civil. Animado por amigos que trabalham como motoristas de van em Nova York e Boston, ele resolveu arriscar tudo para "fazer a América", como ele mesmo diz. Recebendo 300 reais por mês e ajudando no sustento da mãe, morando com dois irmãos e um sobrinho, ele achou que valia a pena largar tudo para poder ganhar em dólares nos Estados Unidos, fazendo mais ou menos o que fazia no Brasil. De novo, a mesma história.


Fotos John Hayes
ayes
SONHO E PESADELO
Histórias que se repetem: Ivo Gontijo e Bruno Mendes só queriam mudar de vida – acabaram na cadeia e longe da família

Ivo Billar Gontijo, que mora em Valparaíso de Goiás, no entorno de Brasília, desestruturou toda a família por causa da aventura americana. Preso no Arizona, ele não quer voltar. Sua expedição incluiu a mulher, Edriana, e a filha, Yasmin, de apenas 1 ano. Gontijo vendeu uma padaria por 60.000 reais, deixou um irmão cuidando da casa e comprou passagens para a Cidade do México. Numa jornada que durou duas semanas, ele, a mulher e a filha ficaram quatro dias trancados no hotel da capital mexicana, enfrentaram 32 horas de ônibus até a fronteira, onde se encontraram com um taxista, que cobrou 250 dólares para levá-los até Naco, a porta de saída. Lá, Gontijo e a família ainda esperaram dois dias num hotel velho pelo aviso dos "coiotes" que os guiariam até o lado americano. Por segurança, Gontijo atravessou a fronteira à noite junto com outros nove brasileiros e sete mexicanos. Sua mulher fez o mesmo trajeto na manhã seguinte, horário menos perigoso para o bebê. Ambos foram presos. Edriana foi libertada dias depois e seguiu sua rota. "Voltar para o Brasil não dá mais. Se meu marido não conseguir vir agora, eu fico esperando", diz Edriana, que está morando em Nova Jersey, com parentes, e iniciando a carreira na faxina. As autoridades de imigração são liberais com as mulheres. Quando levam crianças, a situação fica mais fácil ainda, já que as instalações da imigração na fronteira não têm condições de abrigar mães e filhos.

Hoje, existem cerca de 800.000 brasileiros vivendo clandestinamente nos Estados Unidos. Boa parte entrou no país como turista e não voltou mais. Os imigrantes que decidem encarar o deserto enfrentam temperaturas que variam de zero a 50 graus positivos e uma fauna perigosa, com cobras, escorpiões, aranhas e abelhas. No ano passado, 139 pessoas morreram tentando atravessar a fronteira do México com o Arizona. Não se tem notícia de brasileiros entre as vítimas. A região é toda cercada por censores de movimento espalhados no solo e torres com câmeras de raios infravermelhos. A central da patrulha de fronteira também é uma das maiores do país, mas México e EUA são separados apenas por uma cerca velha de arame farpado, com vários buracos em sua extensão, o que facilita a entrada dos clandestinos. A patrulha de fronteira, que acompanha essa rota de imigração há mais de cinco anos, sabe que a região é toda dividida entre grupos de atravessadores, alguns especializados em atrair brasileiros. O centro de detenção de Florence, por tudo isso, se tornou a prisão com o maior número de brasileiros detidos em todos os Estados Unidos. A cidade, encravada no meio do deserto e cercada pelos enormes cactos, que são a marca registrada do Arizona, é conhecida como "cidade-prisão" – são 6.000 habitantes do lado de fora das cadeias e cerca de 23.000 dentro delas. O lugar já foi um campo de trabalho forçado para prisioneiros na II Guerra Mundial. Agora é um espécie de pólo de concentração de imigrantes ilegais. O número de brasileiros presos cresceu tanto que foi transferido para lá um agente que fala português. Jared Gallahan, um ex-missionário mórmon que passou dois anos no Paraná no início da década de 90, ajuda os brasileiros a ler os documentos, traduz o que dizem os policiais e advogados. Mas também enche os presos de perguntas, tentando obter nomes e telefones dos atravessadores mexicanos.


John Hayes
VOLTA POR CIMA
Gervásio Pereira: distante da família e doente, ainda alimenta a esperança de fazer fortuna na América

O paranaense Gervásio Pereira da Costa, de 45 anos, é um especialista no assunto. Ele chegou aos EUA pela primeira vez em 1990, como turista. Com as economias que levou, montou em Miami um lava-jato e, segundo conta, ganhou muito dinheiro. A maioria dos brasileiros, por melhores que os Estados Unidos lhes pareçam, sempre pensa em voltar – e Gervásio voltou. No Brasil, teve prejuízo nos negócios e perdeu tudo o que possuía. Decidiu emigrar de novo para os EUA, mas não conseguiu o visto. "Tentei dez vezes", conta. A alternativa foi seguir o caminho da fronteira do México", lembra ele, que hoje mora em Los Angeles e trabalha como mecânico em uma loja de motocicletas. Gervásio ganha 2 000 dólares por mês, mas só está recebendo 1.000. Recentemente, ele sofreu um acidente e está impossibilitado de trabalhar. Faz sete anos que não vê a família, com quem fala apenas pelo telefone. Sua filha, de 23 anos, está noiva no Brasil, mas ele não sabe se irá ao casamento. Não viu crescer o filho de 18 anos. Há dois anos não recebe fotos da mulher. Desde que chegou aos Estados Unidos, Gervásio imaginava poder trazer a família para o país. Não conseguiu e fixou uma data para seu retorno, que também não cumpriu. Desesperado e doente, foi buscar ajuda em uma igreja evangélica. Ele conta que recebeu uma premonição divina: vai montar um negócio na internet e ficar milionário. Essa é a beleza americana, pelo menos no imaginário de alguns brasileiros.

 




 
 
 
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