Edição 1839 . 4 de fevereiro de 2004

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Relações exteriores
A Índia que o Brasil
deveria ver

Com reformas corajosas, abertura econômica e
simplificação burocrática, a Índia que Lula visitou
se tornou um país emergente considerado por
muitos analistas mais promissor que a China


Eurípedes Alcântara



Ed Ferreira/AE
Lula na festa nacional da Índia: o lado pitoresco é o menos interessante

Notícias diárias sobre o governo Lula

O programa educativo de milhagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva prosseguiu na semana passada com uma viagem de quatro dias à Índia. País de cultura milenar, até 1947 uma colônia inglesa, a Índia nos últimos anos está ganhando espaço no cenário mundial com crescimento econômico acelerado e o perfil de uma potência comercial no campo da alta tecnologia. Lula acredita no poder das viagens. No começo da vitoriosa campanha eleitoral que o levou à Presidência da República, ele dizia ser o maior conhecedor do Brasil por ter viajado o país "de norte a sul, de leste a oeste". Na Índia, para uma platéia de empresários brasileiros e indianos, ele conclamou os exportadores do Brasil a "vender mais e reclamar menos". No dia seguinte, disse que sua bronca valia apenas para os "empresários que não viajam e ficam no país esperando milagres". Com a compra de um Airbus zero-quilômetro, que está sendo adaptado para o uso presidencial, o modelo itinerante de governo é, até agora, a marca registrada de Lula no poder.

Na Índia, o presidente exibiu uma permanente expressão de espanto diante dos cenários pitorescos, elefantes e camelos da parada de comemoração ao Dia da República a que assistiu como convidado de honra. Lula e comitiva despediram-se do país sem um comentário sobre a revolução comercial, de costumes e de modernização econômica da Índia, um processo que, em alguns aspectos, poderia ser de muita utilidade para o Brasil. Sua guinada para a economia de mercado aberta e competitiva veio com atraso em relação à vizinha China e aos demais países emergentes, mas foi a que mais resultados conseguiu no curto prazo. No fim dos anos 80, a Índia era uma ostra. O capital estrangeiro só podia entrar no país em associações minoritárias com os empresários locais, em geral testas-de-ferro de políticos corruptos. Isso acabou. Andy Grove, o fundador da Intel, fabricante de chips de computador que domina o mercado, fez recentemente um resumo da formidável guinada indiana: "Em pouco mais de dez anos de agressiva abertura econômica, a Índia plantou as raízes de uma promissora democracia de mercado e, nesse ritmo, pode ameaçar até a China como país emergente mais promissor". A Índia é o único lugar fora dos Estados Unidos em que a Intel, além de fábricas, montou um avançado centro de pesquisa e desenvolvimento de novos chips.


Ed Ferreira/AE
O presidente indiano, Abdul Kalam, em conversa com Lula no palácio de Rashtrapati, onde o brasileiro se hospedou

O país acordou para as reformas quando estava à beira do caos, no começo da década passada. Melhorou muito nesse período, mas seu déficit social é ainda atemorizador. Todo viajante brasileiro se espanta com o grau de miséria e sua exibição pública na Índia. O país ocupa o 127° lugar no IDH, o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU. O Brasil é o 65º colocado. Mais de um terço dos indianos, cerca de 350 milhões, sobrevive com menos de 1 dólar por dia. Multidões nascem, vivem e morrem nas ruas das grandes metrópoles como Bombaim (hoje, Mumbai) e Calcutá sem nunca ter tido um teto. O número absoluto de analfabetos é o maior do planeta, mais de 300 milhões. Vastas regiões do país vivem em constante estado de tensão em virtude do conflito religioso entre muçulmanos e hindus. O Brasil tem um dos maiores graus de mobilidade social do mundo. No extremo oposto, a sociedade indiana sofre o mal terrível da estratificação social imutável. Os seguidores do hinduísmo, a maioria religiosa do país, dividem-se ainda em castas. O último censo indiano mostrou que existem 150 milhões de párias, ou "dalits" ("intocáveis"), a escala mais baixa do sistema de castas. A maioria dos "dalits" são serventes e faxineiros. A simples existência deles é uma vergonhosa herança cultural que uma Índia moderna terá de confrontar.

AP
Escola na região de Bangalore: obsessão pela alta tecnologia


Mas muita coisa está sendo feita para melhorar a situação. Aos poucos começa a ser contada no Ocidente a luta de uma vanguarda de empresários, políticos visionários, economistas e intelectuais indianos para modernizar um país culturalmente acomodado e miserável. Há cinco anos a economia indiana vem crescendo em média 6% ao ano. É o dobro do ritmo de crescimento da economia mundial no período, quase o triplo do brasileiro. Desde 1995, o tamanho da classe média indiana dobrou, chegando a quase 100 milhões de pessoas. "Nossa onda de reformas foi bem-sucedida porque mexeu com todos os aspectos de nossa vida, especialmente nossa resistência cultural a tudo que vem de fora", diz Atal Behari Vajpayee, o primeiro-ministro indiano, de 79 anos.

A Índia tomou medidas drásticas para exorcizar a lembrança de um país que hostilizava os estrangeiros. Investidores de fora podem agora ser donos de 100% de quase todo tipo de negócio no país. Exceção quase simbólica ainda são os bancos, cujos sócios estrangeiros podem ter no máximo 98% das ações. Marcas famosas que foram clonadas e pirateadas na Índia, prática corriqueira no passado, podem hoje ser retomadas sem burocracia por seus legítimos donos. Ainda assim, em virtude da pesada herança de abusos, a Índia recebeu, em média, apenas um décimo do investimento estrangeiro que foi para a China anualmente na segunda metade da década passada. Cerca de 4 bilhões de dólares contra 50 bilhões de dólares. "É pouco dinheiro de fora, mas seu valor vem dobrando a cada ano", lembra o primeiro-ministro Vajpayee. A grande aposta atual do governo indiano é a aprovação pelo Parlamento da lei que dá origem às SEZ, zonas especiais de economia, que, a exemplo da experiência chinesa, pretendem criar regiões desburocratizadas, com tarifa zero de importação e com foco nas vendas externas.


AP

Em 1999 havia um único shopping center na Índia. Hoje são mais de 150, e a classe média cresce a cada ano

O governo indiano vem dando sua contribuição com o aumento da oferta de crédito às empresas, com a punição dos corruptos e a diminuição dos impostos e da imensa árvore burocrática. A Índia também vem acumulando reservas internacionais. Com mais de 100 bilhões de dólares em caixa, o país tem dinheiro suficiente para pagar todas as suas obrigações externas pelos próximos dois anos mesmo que não atraia nem um dólar e não exporte nada. Na semana passada, a agência internacional de avaliação de risco Moody's Investors Service elevou a Índia à categoria de "grau de investimento". Com isso, a Moody's informa a seus clientes que os riscos de colocar dinheiro na Índia, segundo sua avaliação, não são muito diferentes dos de investir na Europa ou nos Estados Unidos. O México já havia conquistado essa avaliação há dois anos. Também estão nesse caso países como El Salvador, Cazaquistão e Rússia, entre os mais inesperados. O Brasil está cinco degraus abaixo deles todos. "Os indianos estão fazendo um esforço gigantesco para criar um ambiente oficial favorável aos negócios. Até a corrupção e as fraudes, quase um monopólio estatal na Índia pré-reforma, agora ocorrem mais dentro das próprias corporações sem envolvimento de funcionários públicos", diz Norman Inkster, da empresa de consultoria KPMG.

A mais extraordinária face da revolução indiana é seu foco naquilo que a elite do país tem de melhor, a competência acadêmica nas áreas de matemática, física e, mais recentemente, de software. Uma das heranças mais marcantes dos três séculos de dominação britânica na Índia é o sistema de ensino. Os ingleses deixaram na antiga colônia o gosto pelas ciências exatas e uma tradição de ensino rigoroso e criteriosa avaliação de desempenho. "Esse foi um dos poucos casamentos férteis entre as duas culturas, a européia e a nativa indiana", diz o escritor V.S. Naipaul, de origem indiana mas que só conheceu o país de seus avós já adulto, em 1962. Seis indianos já foram agraciados com o Prêmio Nobel. O poeta Rabindranath Tagore, autor também do hino nacional da Índia, inaugurou a fabulosa tradição em 1913, agraciado por seus escritos em língua inglesa.

Madre Teresa de Calcutá ganhou o da Paz em 1979. Os demais foram prêmios de Física, Medicina e Economia, este último dado em 1998 a Amartya Sen, um estudioso da pobreza, democracia e desenvolvimento social, questões que ele tratou com rigor estatístico e matemático sem precedentes. Como é sabido, nenhum brasileiro ainda ganhou o Prêmio Nobel. Enquanto o Brasil forma 36.000 engenheiros, matemáticos e outros profissionais de alta tecnologia por ano, a Índia vai formar quase 300.000 neste ano. "A Índia está liderando a colonização da internet. Com os grandes centros ligados por fibras ópticas e comunicação de alta velocidade por satélite, estar em Bangalore ou no Vale do Silício não faz nenhuma diferença", diz Paul Saffo, pesquisador do Instituto para o Futuro, da Califórnia, que estuda a migração de mão-de-obra tecnológica.

Aliás, faz diferença, sim, estar em Bangalore, na Índia, ou no Vale do Silício, na Califórnia. Os Ph.Ds. podem ter a mesma capacidade, o mesmo equipamento, e a distância é uma mera curiosidade geográfica. Mas os salários na Índia chegam a ser apenas um quinto do que é pago a um colega de mesmo nível nos Estados Unidos. Por isso é mais lucrativo para as empresas de ponta dos EUA contratar indianos do outro lado do mundo. Os analistas calculam que até 2005 os Estados Unidos terão "exportado" via fibra óptica ou comunicação por satélite quase 1 milhão de postos de trabalho de alta tecnologia bem pagos. A Índia deve ficar com um terço desses empregos. China, Rússia e Filipinas dividem quase todo o resto. O Brasil não aparece como forte receptor desse tipo de emprego nos estudos do Instituto para o Futuro e nos de outros rastreadores desse fenômeno novo da globalização, um dos que indiscutivelmente favorecem os países emergentes. A Índia já é uma potência mundial nesse mercado. Toda a manufatura da China, o ponto forte da economia do país, equivale hoje apenas a 14% da dos EUA. O setor indiano de software e serviços prestados via internet já equivale em volume a 60% do americano.

 




 

Com reportagem de Eduardo Salgado e Chrystiane Silva

 
 
 
 
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