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Relações
exteriores
A
Índia que o Brasil
deveria ver
Com
reformas corajosas, abertura econômica e
simplificação burocrática, a Índia que
Lula visitou
se tornou um país emergente considerado por
muitos analistas mais promissor que a China

Eurípedes Alcântara
Ed Ferreira/AE
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| Lula
na festa nacional da Índia: o lado pitoresco é o menos interessante
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O programa
educativo de milhagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
prosseguiu na semana passada com uma viagem de quatro dias à
Índia. País de cultura milenar, até 1947 uma
colônia inglesa, a Índia nos últimos anos está
ganhando espaço no cenário mundial com crescimento
econômico acelerado e o perfil de uma potência comercial
no campo da alta tecnologia. Lula acredita no poder das viagens.
No começo da vitoriosa campanha eleitoral que o levou à
Presidência da República, ele dizia ser o maior conhecedor
do Brasil por ter viajado o país "de norte a sul, de leste
a oeste". Na Índia, para uma platéia de empresários
brasileiros e indianos, ele conclamou os exportadores do Brasil
a "vender mais e reclamar menos". No dia seguinte, disse que sua
bronca valia apenas para os "empresários que não viajam
e ficam no país esperando milagres". Com a compra de um Airbus
zero-quilômetro, que está sendo adaptado para o uso
presidencial, o modelo itinerante de governo é, até
agora, a marca registrada de Lula no poder.
Na
Índia, o presidente exibiu uma permanente expressão
de espanto diante dos cenários pitorescos, elefantes e camelos
da parada de comemoração ao Dia da República
a que assistiu como convidado de honra. Lula e comitiva despediram-se
do país sem um comentário sobre a revolução
comercial, de costumes e de modernização econômica
da Índia, um processo que, em alguns aspectos, poderia ser
de muita utilidade para o Brasil. Sua guinada para a economia de
mercado aberta e competitiva veio com atraso em relação
à vizinha China e aos demais países emergentes, mas
foi a que mais resultados conseguiu no curto prazo. No fim dos anos
80, a Índia era uma ostra. O capital estrangeiro só
podia entrar no país em associações minoritárias
com os empresários locais, em geral testas-de-ferro de políticos
corruptos. Isso acabou. Andy Grove, o fundador da Intel, fabricante
de chips de computador que domina o mercado, fez recentemente um
resumo da formidável guinada indiana: "Em pouco mais de dez
anos de agressiva abertura econômica, a Índia plantou
as raízes de uma promissora democracia de mercado e, nesse
ritmo, pode ameaçar até a China como país emergente
mais promissor". A Índia é o único lugar fora
dos Estados Unidos em que a Intel, além de fábricas,
montou um avançado centro de pesquisa e desenvolvimento de
novos chips.
Ed Ferreira/AE
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| O
presidente indiano, Abdul Kalam, em conversa com Lula no palácio
de Rashtrapati, onde o brasileiro se hospedou |
O país
acordou para as reformas quando estava à beira do caos, no
começo da década passada. Melhorou muito nesse período,
mas seu déficit social é ainda atemorizador. Todo
viajante brasileiro se espanta com o grau de miséria e sua
exibição pública na Índia. O país
ocupa o 127° lugar no IDH, o Índice de Desenvolvimento
Humano da ONU. O Brasil é o 65º colocado. Mais de um
terço dos indianos, cerca de 350 milhões, sobrevive
com menos de 1 dólar por dia. Multidões nascem, vivem
e morrem nas ruas das grandes metrópoles como Bombaim (hoje,
Mumbai) e Calcutá sem nunca ter tido um teto. O número
absoluto de analfabetos é o maior do planeta, mais de 300
milhões. Vastas regiões do país vivem em constante
estado de tensão em virtude do conflito religioso entre muçulmanos
e hindus. O Brasil tem um dos maiores graus de mobilidade social
do mundo. No extremo oposto, a sociedade indiana sofre o mal terrível
da estratificação social imutável. Os seguidores
do hinduísmo, a maioria religiosa do país, dividem-se
ainda em castas. O último censo indiano mostrou que existem
150 milhões de párias, ou "dalits" ("intocáveis"),
a escala mais baixa do sistema de castas. A maioria dos "dalits"
são serventes e faxineiros. A simples existência deles
é uma vergonhosa herança cultural que uma Índia
moderna terá de confrontar.
AP
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| Escola
na região de Bangalore: obsessão pela alta tecnologia |
Mas muita coisa está sendo feita para melhorar a situação.
Aos poucos começa a ser contada no Ocidente a luta de uma
vanguarda de empresários, políticos visionários,
economistas e intelectuais indianos para modernizar um país
culturalmente acomodado e miserável. Há cinco anos
a economia indiana vem crescendo em média 6% ao ano. É
o dobro do ritmo de crescimento da economia mundial no período,
quase o triplo do brasileiro. Desde 1995, o tamanho da classe média
indiana dobrou, chegando a quase 100 milhões de pessoas.
"Nossa onda de reformas foi bem-sucedida porque mexeu com todos
os aspectos de nossa vida, especialmente nossa resistência
cultural a tudo que vem de fora", diz Atal Behari Vajpayee, o primeiro-ministro
indiano, de 79 anos.
A
Índia tomou medidas drásticas para exorcizar a lembrança
de um país que hostilizava os estrangeiros. Investidores
de fora podem agora ser donos de 100% de quase todo tipo de negócio
no país. Exceção quase simbólica ainda
são os bancos, cujos sócios estrangeiros podem ter
no máximo 98% das ações. Marcas famosas que
foram clonadas e pirateadas na Índia, prática corriqueira
no passado, podem hoje ser retomadas sem burocracia por seus legítimos
donos. Ainda assim, em virtude da pesada herança de abusos,
a Índia recebeu, em média, apenas um décimo
do investimento estrangeiro que foi para a China anualmente na segunda
metade da década passada. Cerca de 4 bilhões de dólares
contra 50 bilhões de dólares. "É pouco dinheiro
de fora, mas seu valor vem dobrando a cada ano", lembra o primeiro-ministro
Vajpayee. A grande aposta atual do governo indiano é a aprovação
pelo Parlamento da lei que dá origem às SEZ, zonas
especiais de economia, que, a exemplo da experiência chinesa,
pretendem criar regiões desburocratizadas, com tarifa zero
de importação e com foco nas vendas externas.
AP
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Em
1999 havia um único shopping center na Índia. Hoje são mais
de 150, e a classe média cresce a cada ano
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O governo
indiano vem dando sua contribuição com o aumento da
oferta de crédito às empresas, com a punição
dos corruptos e a diminuição dos impostos e da imensa
árvore burocrática. A Índia também vem
acumulando reservas internacionais. Com mais de 100 bilhões
de dólares em caixa, o país tem dinheiro suficiente
para pagar todas as suas obrigações externas pelos
próximos dois anos mesmo que não atraia nem um dólar
e não exporte nada. Na semana passada, a agência internacional
de avaliação de risco Moody's Investors Service elevou
a Índia à categoria de "grau de investimento". Com
isso, a Moody's informa a seus clientes que os riscos de colocar
dinheiro na Índia, segundo sua avaliação, não
são muito diferentes dos de investir na Europa ou nos Estados
Unidos. O México já havia conquistado essa avaliação
há dois anos. Também estão nesse caso países
como El Salvador, Cazaquistão e Rússia, entre os mais
inesperados. O Brasil está cinco degraus abaixo deles todos.
"Os indianos estão fazendo um esforço gigantesco para
criar um ambiente oficial favorável aos negócios.
Até a corrupção e as fraudes, quase um monopólio
estatal na Índia pré-reforma, agora ocorrem mais dentro
das próprias corporações sem envolvimento de
funcionários públicos", diz Norman Inkster, da empresa
de consultoria KPMG.
A
mais extraordinária face da revolução indiana
é seu foco naquilo que a elite do país tem de melhor,
a competência acadêmica nas áreas de matemática,
física e, mais recentemente, de software. Uma das heranças
mais marcantes dos três séculos de dominação
britânica na Índia é o sistema de ensino. Os
ingleses deixaram na antiga colônia o gosto pelas ciências
exatas e uma tradição de ensino rigoroso e criteriosa
avaliação de desempenho. "Esse foi um dos poucos casamentos
férteis entre as duas culturas, a européia e a nativa
indiana", diz o escritor V.S. Naipaul, de origem indiana mas que
só conheceu o país de seus avós já adulto,
em 1962. Seis indianos já foram agraciados com o Prêmio
Nobel. O poeta Rabindranath Tagore, autor também do hino
nacional da Índia, inaugurou a fabulosa tradição
em 1913, agraciado por seus escritos em língua inglesa.
Madre
Teresa de Calcutá ganhou o da Paz em 1979. Os demais foram
prêmios de Física, Medicina e Economia, este último
dado em 1998 a Amartya Sen, um estudioso da pobreza, democracia
e desenvolvimento social, questões que ele tratou com rigor
estatístico e matemático sem precedentes. Como é
sabido, nenhum brasileiro ainda ganhou o Prêmio Nobel. Enquanto
o Brasil forma 36.000 engenheiros, matemáticos
e outros profissionais de alta tecnologia por ano, a Índia
vai formar quase 300.000 neste ano. "A
Índia está liderando a colonização da
internet. Com os grandes centros ligados por fibras ópticas
e comunicação de alta velocidade por satélite,
estar em Bangalore ou no Vale do Silício não faz nenhuma
diferença", diz Paul Saffo, pesquisador do Instituto para
o Futuro, da Califórnia, que estuda a migração
de mão-de-obra tecnológica.
Aliás,
faz diferença, sim, estar em Bangalore, na Índia,
ou no Vale do Silício, na Califórnia. Os Ph.Ds. podem
ter a mesma capacidade, o mesmo equipamento, e a distância
é uma mera curiosidade geográfica. Mas os salários
na Índia chegam a ser apenas um quinto do que é pago
a um colega de mesmo nível nos Estados Unidos. Por isso é
mais lucrativo para as empresas de ponta dos EUA contratar indianos
do outro lado do mundo. Os analistas calculam que até 2005
os Estados Unidos terão "exportado" via fibra óptica
ou comunicação por satélite quase 1 milhão
de postos de trabalho de alta tecnologia bem pagos. A Índia
deve ficar com um terço desses empregos. China, Rússia
e Filipinas dividem quase todo o resto. O Brasil não aparece
como forte receptor desse tipo de emprego nos estudos do Instituto
para o Futuro e nos de outros rastreadores desse fenômeno
novo da globalização, um dos que indiscutivelmente
favorecem os países emergentes. A Índia já
é uma potência mundial nesse mercado. Toda a manufatura
da China, o ponto forte da economia do país, equivale hoje
apenas a 14% da dos EUA. O setor indiano de software e serviços
prestados via internet já equivale em volume a 60% do americano.

Com
reportagem de
Eduardo Salgado e Chrystiane Silva
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