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A CRISE DA PROSPERIDADE
Atingido
pelos problemas na Ásia,
o Japão prepara uma reforma econômica
João
Sorima Neto
O Japão é uma
usina econômica cuja potência só é comparável à dos
Estados Unidos. O arquipélago produz 5 trilhões de
dólares por ano, trabalha-se ali em regime de pleno
emprego e suas exportações são arrasadoras. Só neste
ano, o saldo da balança comercial será de 91 bilhões
de dólares
a favor do país. O Japão também exporta capitais.
Cerca de um quarto dos títulos do Tesouro americano
está guardado em cofres japoneses. Por isso tudo, o
país parecia imune à quebradeira dos Tigres do
Pacífico. Na semana passada, o primeiro estilhaço pegou
na pele japonesa. Na segunda-feira, o presidente da
Yamaichi, uma das quatro maiores instituições
financeiras japonesas, comunicou aos prantos, pela TV,
que a empresa estava falida. Durante anos os balanços da
Yamaichi foram fraudados, ocultando um rombo de 23
bilhões de dólares, o maior já ocorrido desde a II
Guerra Mundial. A Yamaichi não conseguiu mais ocultar o
buraco porque perdeu uma fortuna apostando na alta das
bolsas asiáticas.
Na quarta-feira
naufragou o Tokuyo Bank, com um prejuízo em torno de 430
milhões. O banco não recebeu de volta empréstimos que
tinha feito. No mês de novembro, duas outras
instituições financeiras quebraram, em parte por causa
da crise na Ásia, em parte porque emprestaram mal dentro
do Japão. Foram para o ralo o Hokkaido Takushoku, 11º
banco no ranking japonês, com prejuízo de 1 bilhão, e
a Sanyo Securities, corretora que deixou um buraco de 3
bilhões. Comenta-se na praça de Tóquio que há entre
dez e quinze bancos e corretoras de grande porte em
situação muito frágil e agora nem os operadores da
bolsa nipônica acham que passarão pela crise asiática
sem arranhões. Nem o governo, que já avisou que vai
usar parte de suas reservas internacionais (224 bilhões
de dólares) para que a clientela de bancos estourados
não perca a poupança. Um Proer oriental.
Ninguém precisa
preocupar-se demasiadamente com o Japão. Sua economia é
tão forte que suporta falências em série e ainda é
capaz de ajudar outros países em crise. Na semana
passada, os líderes de dezoito países do Pacífico se
reuniram no Canadá. A brincadeira entre eles era que, se
houver necessidade de socorro financeiro na Ásia, o FMI
pedirá um empréstimo ao Japão. O problema que os
estouros no sistema financeiro estão expondo é de outra
qualidade. Essa economia poderosa, apresentada ao mundo
durante quarenta anos como exemplo a ser seguido, tem
desarranjos internos que vinham sendo corrigidos
lentamente. Agora, o governo anunciou uma reforma a toque
de caixa.
A questão número
1 é a fraqueza do sistema financeiro. Os bancos
japoneses perderam a noção de equilíbrio na segunda
metade dos anos 80. Para quem não se recorda, essa foi a
fase mais próspera do país e parecia não ter fim. Os
japoneses ficaram tão ricos que passaram a comprar obras
de arte em leilões milionários, prédios históricos
como o Rockefeller Center, em Nova York, estúdios de
cinema como o Columbia Pictures, fazendas para brincar de
caubói. No Japão, os novos milionários ergueram torres
para suas empresas sem ligar para o custo, a classe
média punha no lixo televisores com dois anos de uso e o
preço das ações na Bolsa de Tóquio triplicou em três
anos. Os bancos, embriagados com essa dinheirama,
emprestaram dinheiro a rodo, aceitando como garantia
imóveis cotados num valor irreal.
Esse tipo de
narcose, criada pela prosperidade, já foi observada em
outras ocasiões, e sempre termina em ressaca. A crise
asiática deste momento foi provocada também por um
ciclo de enriquecimento que desajustou o cérebro dos
investidores. Eles gastaram mais do que deviam, compraram
mais do que podiam. E hoje, além do calote, começam a
devolver seus bens. Em Bangcoc, capital da Tailândia, os
ex-ricos estão vendendo carrões Rolls-Royce, cristais e
tapetes persas no feirão. Em Seul, Coréia do Sul, a
associação de donas de casa fez uma campanha para que
as pessoas trocassem cédulas de dólar pela moeda
nacional, o won, para ajudar o governo.
A bolha nipônica
é bem mais antiga, explodiu em 1992 e os créditos
podres, alojados na barriga dos bancos, é estimado em
cerca de 220 bilhões
o mesmo valor das reservas internacionais. O governo sabe
desses créditos e vinha socorrendo os bancos com
discrição. Volta e meia abria linhas de socorro para
eles ou comprava imóveis por preços altíssimos para
impedir que uma venda, no mercado, revelasse a
supervalorização. Em 1992, o Japão entrou num processo
recessivo que levou as pessoas a consumir menos e a
evitar dívidas. A partir do esfriamento da economia
japonesa, os bancos do país passaram a emprestar para
outros clientes: Malásia, Coréia, Tailândia,
Filipinas. Entregaram, estima-se, 150 bilhões de
dólares. Foi muito azar, porque essa turma foi à lona
neste ano. "Agora, o sistema terá de ser socorrido
com rapidez", diz Takanori Suzuki, ex-presidente do
Banco de Tóquio.
O problema número
2 são as ligações perigosas entre as companhias
japonesas e a máfia
a Yakuza. A máfia tem um braço financeiro poderoso,
chamado Sokaiya. Seus integrantes, por meio de chantagem,
influem nas decisões das empresas, manipulam ações na
bolsa, tumultuam assembléias de acionistas, obrigam
empresários a fraudar balanços. A corretora Yamaichi, a
que faliu na segunda-feira, fraudou seus balanços por
pressão da Sokaiya. Os mafiosos recebiam fortunas
mensais por aplicações que, na verdade, davam
prejuízo.
O governo, como
parte das reformas, começou a jogar pesado contra a
máfia, que ele tolerou por muitos anos. Na semana
passada, a Hitachi, fabricante de produtos eletrônicos,
foi invadida por uma tropa de auditores e terá sua
contabilidade vasculhada. Suspeita-se que pagou propina
para que a Sokaiya a deixasse em paz. O principal chefe
mafioso, Ryuichi Koike, será julgado nesta semana. Ele
recebeu dinheiro de empresas como o Banco Daiwa e a
corretora Nomura. A Nomura, símbolo dos problemas
japoneses, já foi uma das maiores do mundo, e seus
sócios tinham o hábito de dar palpites desdenhosos
sobre a política econômica dos Estados Unidos. Hoje é
uma companhia pequena. Perdeu clientes quando se soube
que negociava intensamente com mafiosos.
Os últimos tempos
têm sido difíceis para o orgulho e o conservadorismo
dos japoneses. A renda do japonês é das mais altas do
mundo. Em média, ele recebe 39000 dólares por ano. É
um rendimento oito vezes maior que o do brasileiro. Só
que os preços são altíssimos no Japão, e o consumidor
já está começando a comprar produtos chineses, mais
baratos. Os preços são muito altos no mercado interno
porque subsidiam os preços dos produtos exportados. Foi
uma receita hábil encontrada pelo país para sua
ofensiva exportadora que começou na década de 50. Isso
também será modificado. Uma das medidas previstas pelo
governo é uma maior abertura do país a produtos
importados, de maneira a baixar os preços internos. O
Japão antiga queixa de seus
parceiros comerciais
não cobra grandes impostos de importação, mas protege
suas fronteiras com milhares de regulamentos técnicos.
Na prática, poucos produtos conseguem atravessar a
barreira.
No início da
década, sempre que os americanos reclamavam da fechadura
do Japão e de sua agressividade comercial, os japoneses
respondiam com arrogância. O problema, diziam, é que os
americanos eram perdulários e incompetentes: consumiam
demais e geriam suas empresas de maneira ineficaz. Os
americanos passaram por um purgatório. Reviraram suas
empresas de cabeça para baixo, cortaram milhões de
empregos, construíram um novo padrão de eficiência.
São eles que estão, hoje, na posição de dizer que os
japoneses precisam mudar, e os japoneses sabem disso. Mas
a mudança vai ser difícil. Eles terão de se conformar
com demissões, num país em que o emprego é para a vida
inteira na maioria das empresas.
Precisarão se
conformar com a perda de outras tradições. Uma delas é
a de que o mais jovem deve respeito incondicional ao mais
velho, o que provoca perda de criatividade no interior
das empresas e engessa o sistema de sucessão. Nas
grandes corporações, o presidente é intocável e
muitas vezes se mumifica no cargo. Na corporação
americana o presidente perde o emprego se der prejuízo
aos acionistas. Não é brincadeira a combinação de
problemas que os japoneses estão enfrentando, e isso
bateu com força no humor da população. Há um ano, 68%
dos japoneses consideravam ruim a situação econômica.
O índice de desconfiança cresceu para 78% em 1997.
Apenas 3% acham que a economia vai bem. A boa notícia é
que o Japão está se mexendo. O pacote do governo para a
reforma econômica, anunciado há duas semanas, prevê
ajuda aos bancos, a concessão de crédito a pequenas
empresas mais ágeis e criativas
do que as grandes corporações ,
além de abertura comercial. Se a linha de mudança
estiver correta, o império se reerguerá rapidamente.
Um
presente de Natal
Na última
sexta-feira, o governo anunciou três
alterações no pacote fiscal editado no dia 10
de novembro para deter a queda nas bolsas de
valores. A primeira foi uma alteração no
aumento do imposto de renda. Pela idéia
original, todos os que têm IR descontado na
fonte pagariam alíquota 10% maior no ano que
vem. O governo voltou atrás e cortou o aumento
para quem ganha salário de até 1.800 reais.
Esses são 5,4 milhões de pessoas
pagarão só os
15% que já pagavam antes do pacote. Para os que
ganham acima desse valor, o aumento do IR
permanece. A partir de 1998, a alíquota sobe dos
atuais 25% para 27,5%. A medida atinge 1,8
milhão de contribuintes. Livrando do aumento a
faixa de contribuintes que ganham menos, o
governo atende às pressões do Congresso,
lideradas pelo presidente do Senado, Antonio
Carlos Magalhães.
O pacote
ficou mais frouxo também no quesito das
deduções do IR. Na primeira versão, só se
podiam deduzir gastos até o limite de 20% do
imposto pago ou devido. Agora, estão autorizadas
as deduções de gastos com saúde e pensão
alimentícia, além de 90 reais por dependente,
mesmo que isso ultrapasse o limite dos 20%. A
cobrança do imposto sobre produtos
industrializados, IPI, foi suspensa para
máquinas e equipamentos comprados para a
modernização de indústrias. A MP de 10 de
novembro estabelecia a cobrança de 5% desse
imposto. Brasília também modificou o corte de
50% nos incentivos fiscais. Haverá tratamento
especial para programas infantis, audiovisuais e
culturais.
Com essas
medidas, o governo perde cerca de 1 bilhão de
reais. A perda será compensada por uma novidade
incluída no pacote. Os que têm aplicações em
fundos de renda fixa e em CDB terão mais imposto
a pagar sobre os rendimentos. O governo cobrava
15% e pretende cobrar 25% de imposto a partir do
ano que vem. Continuam isentas as cadernetas de
poupança e as aplicação em ações.
Felipe
Patury
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