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Brasil VEJA localizou
o espião que, por descuido, revelou a
Os espiões figuram no imaginário coletivo como pessoas discretas, misteriosas, dotadas de habilidades especiais e normalmente envolvidas em missões perigosas e secretas. Exceto em relação ao último quesito, o tenente Antônio Leandro de Souza Júnior, que aparece na foto ao lado, pouco tem a ver com esse perfil. Policial militar de São Paulo, em seus registros funcionais consta que ele foi requisitado em 2005 pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI), no Palácio do Planalto, para integrar a equipe de segurança do presidente Lula. Recentemente, porém, seu nome apareceu na lista dos 84 espiões da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) que atuaram na operação que investigou o ex-banqueiro Daniel Dantas. O que apenas um círculo muito restrito do poder sabe é que foi graças a um descuido do tenente Leandro que eclodiram as primeiras pistas sobre a ação clandestina dos agentes do estado e, por conseqüência, a revelação da existência de uma rede de espionagem ilegal que monitorava políticos, jornalistas e autoridades, entre elas o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, que teve seus telefones criminosamente grampeados pelos espiões a serviço da Abin. VEJA localizou o tenente Leandro de Souza em Jundiaí, cidade distante 63 quilômetros de São Paulo.
A confissão do espião, que continua vinculado ao Gabinete de Segurança Institucional, constrange e cria enormes embaraços para seu chefes o ministro Jorge Felix, do GSI, e o delegado Paulo Lacerda, diretor afastado da Abin. O tenente não poderia estar ali, dentro do Astra, vigiando russos, alemães ou lobistas de ex-banqueiros encrencados com a polícia e a Justiça, como é o caso de Daniel Dantas. Mas estava. Foi abordado por policiais que suspeitaram dele e acabou abrindo a brecha que escancarou toda a gama de abusos e ilegalidades da operação da qual ele participava, segundo ele próprio, sem saber do que se tratava. Essa operação, batizada de Satiagraha, já entrou para a história das polícias por ter produzido o mais risível e destrambelhado relatório de todos os tempos, escrito em um idioma com enorme parentesco com o português, que teve de ser reescrito recentemente de modo que ganhasse um mínimo de lógica interna. O alvo principal da investigação é o tal ex-banqueiro Daniel Dantas, um tipo sempre encrencado com a Justiça e a polícia, que se julga mais esperto do que a esperteza e que, fossem os policiais menos amadores, já teria sido facilmente flagrado em delito.
A abordagem ao tenente Leandro no Rio de Janeiro foi um desastre especial para a Operação Satiagraha. Como parecia tratar-se de um segurança do Palácio do Planalto, o governo federal foi logo informado da abordagem. A comunicação foi feita a Gilberto Carvalho, o mais próximo e influente assessor do presidente Lula. Carvalho fez o que deveria fazer. Levou as informações que acabara de receber ao general Felix, que não mostrou surpresa e saiu-se com a extraordinária versão dos "espiões russos". Carvalho engoliu a história e a passou adiante. Uma das pessoas a quem ele contou essa versão, por telefone, foi o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, petista histórico, seu amigo pessoal de muitos anos e que, algum tempo atrás, fora contratado pelo ex-banqueiro encrencado, esperto, Daniel Dantas. Como o advogado do ex-banqueiro estava sendo monitorado pelos policiais e pela Abin, a conversa foi interceptada. Sem saber, portanto, o tenente Leandro havia levado a investigação para a ante-sala do presidente Lula no Palácio do Planalto. Carvalho se tornara mais um dos alvos da equipe de policiais e espiões da Abin chefiada pelo nefelibata delegado Protógenes Queiroz. "Tudo o que eu fiz foi tentar ajudar um amigo. Se tivessem me dito que o episódio era parte de uma investigação policial, é óbvio que teria me silenciado", diz Carvalho, o assessor que por algum tempo foi levado por uma mentira a pensar que o Brasil estava sendo alvo de ações hostis por parte da Rússia. Obviamente, a mentira do general Jorge Félix não foi digerida por Gilberto Carvalho. Em depoimento à CPI dos Grampos, tanto o general quanto Lacerda revelaram que a tal missão de acompanhamento de espiões russos era uma "história de cobertura". "Foi uma história de cobertura porque a investigação era sigilosa", confessou o ministro-chefe do GSI. No jargão dos arapongas, isso quer dizer que o general e seu delegado contaram uma mentira para preservar o segredo de uma operação. Chefes de serviços de inteligência que mentem para os assessores dos presidentes e para os próprios presidentes não são propriamente uma novidade, tampouco uma invenção brasileira. Os historiadores dos serviços secretos americano, CIA, e soviético, KGB, convergem em um ponto: eles mentem para os presidentes, que mentem para o público. Essa é a lei nesse reino paralelo. A natureza do trabalho dos espiões acaba por convencê-los de que são pessoas acima das leis e das instituições.
As investigações sobre a atuação ilegal dos espiões da Abin já revelaram que o comando das ações clandestinas estava sediado em Brasília, precisamente no gabinete do delegado Lacerda, diretor afastado após a descoberta de que seus comandados haviam grampeado ilegalmente os telefones do presidente do STF. Na semana passada, a CPI dos Grampos ouviu um depoimento em que isso ficou evidente. O agente Márcio Seltz, um dos oitenta espiões que participaram da operação secreta, revelou que teve acesso a mensagens eletrônicas e a interceptações telefônicas oriundas das investigações da PF e que chegou, inclusive, a repassar o material a Lacerda. Portanto, é razoável supor que o delegado e seu superior, o general Felix, conheciam todos os detalhes da operação, inclusive a missão ou as missões do tenente Antônio Leandro. A história do tenente, por essa razão, precisa ser investigada com atenção. Abordado pela reportagem em sua residência, Leandro, tenso, pergunta: "Como foi que você me descobriu?". Trava-se o seguinte diálogo: Qual era sua
missão na Operação Satiagraha? De quem foi a
ordem?
O senhor chegou
a ter contato com o delegado Protógenes Queiroz, da
Polícia Federal? Quando foi abordado
pela polícia do Rio, o senhor se identificou como tenente
Marcos? O senhor fazia
o que antes de atuar na Abin? O Gabinete de Segurança Institucional e a Abin se recusaram a comentar o caso.
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