Edição 1878 . 3 de novembro de 2004

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Televisão
A volta do lerê-lerê

Nem tão igual, nem tão diferente. Assim
é a nova Escrava Isaura, da Record


Ricardo Valladares

 
Divulgação
A atual versão do folhetim: custo de produção de 18 milhões de reais

EXCLUSIVO ON-LINE
Fotos das duas versões de A Escrava Isaura

No ar há apenas duas semanas pela Rede Record, a nova versão da novela A Escrava Isaura já tem seu lugar assegurado como uma das mais bem-sucedidas malandragens da história da televisão brasileira. Com a regravação do folhetim que a Rede Globo exibiu nos anos 70, a Record dobrou seu ibope na faixa das 7 da noite e conquistou a vice-liderança no horário, com 11 pontos de média. Pela lei, a emissora tem direito de usar livremente tudo o que está no romance original, escrito por Bernardo Guimarães no século XIX e já em domínio público. Ela não pode avançar sobre idéias que o noveleiro Gilberto Braga aproveitou em sua versão televisiva de 1976. Mas há uma margem de manobra da qual a Record se aproveita até onde pode. A música-tema, por exemplo, é a mesma: a célebre "melô do lerê-lerê". O ator Rubens de Falco, que interpretou o vilão Leôncio na produção da Globo, também está em cena – devidamente munido de sua peruca, como naquela época (veja quadro). "Perdi meus cabelos quando tinha 20 anos e desde então sempre usei", diz ele. Até uma parte considerável da equipe da novela foi tirada da rede carioca, de câmeras e roteiristas ao diretor Herval Rossano, o mesmo da original. Nos bastidores, a concorrente acompanha tudo com atenção. Os advogados da Globo analisam cada cena para flagrar se a Record não ultrapassa os limites do permitido.

Ao investir 18 milhões de reais numa novela, a Record fez a opção por um produto com retorno certo. A Escrava Isaura foi um grande fenômeno em sua época e até hoje desperta saudade. Uma pesquisa indica que 53% do público da nova versão tem mais de 35 anos, ou seja, pôde acompanhar a novela original. Poucos programas contaram com um vilão e uma mocinha tão marcantes. O implacável Leôncio é considerado por especialistas como Mauro Alencar, doutor em telenovelas pela Universidade de São Paulo, o mais acabado malfeitor do gênero. O papel de Isaura transformou a atriz Lucélia Santos em celebridade até na China, um dos oitenta países onde a novela foi exibida. A história é cheia de cenas de sofrimento e redenção. "É uma história que atiça o pequeno sadomasoquista escondido em cada um de nós", afirma um diretor da Record. Para não dizer que tudo é cópia, a emissora acrescentou à trama núcleos cômicos bem ao gosto do público atual, que se acostumou a ver novelas de gêneros cruzados, em que o dramalhão e o humor se combinam. Ela programou 144 capítulos para a novela, mas, se o ibope continuar em alta, a escrava Isaura pode esperar ainda mais tempo para ter a sua Lei Áurea.

 

Vida de negro

Semelhanças e diferenças entre as adaptações de A Escrava Isaura da Rede Globo e da Record

• O ator Rubens de Falco trocou de papel – no passado, interpretava o vilão Leôncio e, agora, é o comendador Almeida. Mas ele continua usando peruca.

• A produção da Record exibe na abertura gravuras do francês Jean-Baptiste Debret, como o sucesso da Globo dos anos 70.

• A música-tema é a mesma Retirantes, poema de Jorge Amado cantado por Dorival Caymmi – aquela do refrão "lerê-lerê...".

• O leve estrabismo, que era o charme da escrava Isaura vivida pela jovem Lucélia Santos no primeiro folhetim, está de volta. Só que agora essa é a marca da personagem Malvina (Maria Ribeiro).

• Para dar leveza à história, foram criados vários núcleos cômicos.

 

Fora de tom

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Tom e sertanejos: a vaidade transborda

Tom Cavalcante despontou, nos anos 90, como um grande imitador. Fazia rir ao repetir, com diabólica precisão, as vozes e trejeitos de personalidades como o cantor Nelson Ned ou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O artista ressurgiu um mês atrás, não mais como humorista, mas como apresentador de programa de auditório. Em troca de um salário mais merchandising de 350 000 reais por mês, ele comanda o Show do Tom, que vai ao ar diariamente às 22 horas, na Rede Record. Nessa nova encarnação, Tom continua imitando – na pior acepção do termo. Seu programa é um amontoado de fórmulas surradas. Na segunda-feira passada, ele apresentou um número gravado com os cantores Rick e Renner, que quase simultaneamente podiam ser vistos ao vivo no palco do Boa Noite Brasil, da TV Bandeirantes. A noite terminou de maneira lastimável com uma brincadeira em que um ex-participante do reality show Big Brother, o musculoso Kléber Bam-Bam (alguém ainda se lembra?), era trancado numa jaula. Pior de tudo é que, senhor absoluto do microfone, Tom Cavalcante deixa transbordar sua enorme vaidade – um traço de personalidade que provocou muitas rusgas quando ele ainda trabalhava na Rede Globo, em programas como Sai de Baixo. Depois de estrear com 9 pontos de audiência, o Show do Tom tem hoje dificuldades para manter-se em 4. A Record já estuda podá-lo.

 
 
 
 
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