|
|
Livros
Trapalhão das letras
Em seu romance de estréia, Renato Aragão
fala de religião, sexo, violência e ovos fritos
com queijo

Marcelo Marthe
Oscar Cabral
 |
| O escritor,
em seu local de trabalho: um futuro imortal? |
O cearense Renato Aragão
tornou-se famoso graças às suas habilidades como comediante.
À frente do extinto grupo Os Trapalhões, ele fez sucesso
na TV e produziu algumas das maiores bilheterias do cinema nacional.
Agora, o país conhece uma nova faceta do impagável
Didi Mocó: a de escritor. O humorista lança o seu
primeiro romance. Ele se chama Amizade sem Fim (Mondrian;
213 páginas; 26 reais) e foi feito com a pretensão
de ser literatura séria ainda que tenha algo de piada
involuntária. Aragão descreve uma regressão
hipnótica por meio da qual o protagonista, um jovem milionário
que fez voto de pobreza, descobre uma conexão estapafúrdia
entre ele e Jesus Cristo. "Como eu queria escrever sobre regressão
sem falar bobagem, perdi um tempão pesquisando o assunto
na internet", diz o comediante. Mas nem só de religião
e parapsicologia se faz a história. Há espaço
para a violência carioca, cenas tórridas de sexo e
vôos de refinamento lingüístico e gastronômico,
como na seguinte frase: "Enquanto eu examino os móveis e
o restante da casa, Sofia faz dois sanduíches de ovos fritos
com queijo".
Na
melhor cena de sexo, o protagonista desvirgina uma enfermeira (veja
quadro). Não é à toa. O livro integra
uma coleção patrocinada pelo Conselho Federal de Enfermagem,
na qual escritores são convocados a criar histórias
com profissionais daquela área. É um projeto que conta
com a adesão entusiasmada de membros da Academia Brasileira
de Letras (ABL) atraídos, entre outras razões,
por cachês polpudos. O estreante Aragão colheu elogios
de Carlos Heitor Cony ele próprio um imortal com participação
prevista na coleção. "Desejo saudá-lo como
escritor, certo estou de que Amizade sem Fim pode figurar
com mérito e dignidade na prateleira nobre da literatura
brasileira", afirma Cony num prefácio. Didi Mocó não
diria melhor.
Hoje com 69 anos, Aragão divide a maior
parte de seu tempo entre as gravações de seu programa
dominical na Rede Globo, a produção de seus filmes
e a convivência com a família ele mora num condomínio
na Barra da Tijuca com a mulher, Lilian, de 37 anos, e a filha Livian,
de 5. Leitor um tanto errático, ele decidiu virar escritor
depois de ter contato com um livro do cubano Pedro Juan Gutierrez:
"O cara é promíscuo e só fala palavrão,
mas me encantou, sabe". Aragão, cuja experiência com
a pena se resumia à elaboração dos roteiros
de seus próprios filmes, levou dois anos para concluir seu
romance. "Às vezes passava semanas sem mexer no livro. Esquecia
algumas coisas e tinha de reler o que já estava escrito",
diz.
Verossimilhança não é
o forte de Amizade sem Fim. Num capítulo, o protagonista
é informado de que possui 103 milhões de dólares
na conta bancária. Na página seguinte, revela que,
ao desligar-se da empresa de seu pai, só terá economias
para viver um ano. Isso é que é voto de pobreza. Outro
problema é a falta de cuidado com o português
e tome vírgulas fora de lugar. Alheio a esse tipo de detalhe,
o ex-trapalhão avisa: "Já estou quase na metade do
segundo romance". Será que um dia ele não pretende
tornar-se imortal? "Ave-maria, imagina eu junto com aquelas feras.
Só o fato de eles terem gostado do meu livro já me
deixa feliz da vida", diz Aragão. Modéstia boba. Se
eles gostaram, por que não?
|
Virgem
na literatura
"Quando
ficamos completamente nus, puxo-a para a cama, com cuidado
para não ir com sede demais ao pote. Mas ela
contraria meu prognóstico, movimentando-se com
surpreendente desenvoltura. A acoplagem dos corpos processa-se
suavemente. Seu sangramento é pequeno, nada que
atrapalhe a perfeição deste momento ímpar
que estamos tendo o privilégio de usufruir. Permanecemos
assim, por um longo tempo abandonados nos braços
um do outro, como se de repente o mundo todo se resumisse
a nós dois."
Trecho de Amizade sem Fim, de Renato Aragão
|
|
|