|
|
Livros Pontapés
no senso comum Diogo
Mainardi destroça as ilusões mais caras do brasileiro numa coletânea dos
textos que publica
em VEJA  Jerônimo
Teixeira
Oscar Cabral
 |
| Mainardi: "O único aspecto relevante de nossa
personalidade é um exasperado servilismo" |
|
|
Um
país de extremos exige um crítico igualmente extremado. O Brasil
atual encontrou essa figura em Diogo Mainardi. Ele é extremado inclusive
nas reações que levanta: há os leitores que o adoram e os
que adoram se irritar com o que ele escreve não há indiferentes.
Mas é provável que Mainardi recuse a qualificação
do Brasil como um "país de extremos". Afinal, a expressão tem sido
usada tanto para cantar as belezas quanto para chorar as misérias da nação.
Em qualquer dos casos, o clichê está a serviço daquela autocondescendência
que Mainardi combate semanalmente em sua coluna em VEJA. "Nenhuma literatura dedicou
tanta atenção ao estudo do caráter nacional quanto a nossa.
E nenhuma literatura se equivocou tanto sobre o assunto. O único aspecto
relevante de nossa personalidade é um exasperado servilismo", diz Mainardi
num dos textos de A Tapas e Pontapés (Record; 208 páginas;
28,90 reais).
Organizado em capítulos temáticos, o livro é uma seleção
criteriosa do melhor que Mainardi publicou em VEJA, desde sua estréia como
colunista, em 1999. Embora tenham sido originalmente desferidos numa revista semanal,
os tapas e pontapés referidos no título conservam toda a sua força
demolidora no livro. Os textos que diziam respeito a assuntos passageiros ficaram
de fora. Os títulos originais desapareceram, e algumas crônicas foram
editadas até sobrar somente um ou dois parágrafos. Curiosamente,
todo esse trabalho de corte e retalho, levado a cabo pelo próprio autor,
conferiu unidade ao livro, que pode ser lido como um longo ensaio dedicado a desmontar
as mais queridas ilusões do brasileiro.
A
Tapas e Pontapés é quase uma versão ensaística
da ficção iconoclasta de Mainardi (que, conforme anunciou num dos
textos recolhidos no livro, já não escreve ficção).
Dá seqüência à fina linha satírica que o escritor
demonstrava nos romances Contra o Brasil e Polígono das Secas.
Como outros grandes satiristas, dos irlandeses Jonathan Swift e Bernard Shaw
a Paulo Francis e Ivan Lessa (os únicos brasileiros que são elogiados
em A Tapas e Pontapés), Mainardi pauta sua retórica pela
hipérbole. É uma espécie de terapia de choque: só
o exagero será capaz de corrigir a complacência do brasileiro diante
de sua própria incompetência. E não haveria outro tom para
tratar aqueles que Mainardi chama de "essa gente obtusa e truculenta que nos governa".
Mas não se deixe enganar pela cultivada ironia do crítico: Diogo
Mainardi está aí para ser levado muito a sério. |