Edição 1878 . 3 de novembro de 2004

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Livros
Pontapés no senso comum

Diogo Mainardi destroça as ilusões
mais caras do brasileiro numa coletânea
dos textos
que publica em VEJA


Jerônimo Teixeira


Oscar Cabral
Mainardi: "O único aspecto relevante de nossa personalidade é um exasperado servilismo"
EXCLUSIVO ON-LINE
Trechos do livro


Um país de extremos exige um crítico igualmente extremado. O Brasil atual encontrou essa figura em Diogo Mainardi. Ele é extremado inclusive nas reações que levanta: há os leitores que o adoram e os que adoram se irritar com o que ele escreve – não há indiferentes. Mas é provável que Mainardi recuse a qualificação do Brasil como um "país de extremos". Afinal, a expressão tem sido usada tanto para cantar as belezas quanto para chorar as misérias da nação. Em qualquer dos casos, o clichê está a serviço daquela autocondescendência que Mainardi combate semanalmente em sua coluna em VEJA. "Nenhuma literatura dedicou tanta atenção ao estudo do caráter nacional quanto a nossa. E nenhuma literatura se equivocou tanto sobre o assunto. O único aspecto relevante de nossa personalidade é um exasperado servilismo", diz Mainardi num dos textos de A Tapas e Pontapés (Record; 208 páginas; 28,90 reais).

Organizado em capítulos temáticos, o livro é uma seleção criteriosa do melhor que Mainardi publicou em VEJA, desde sua estréia como colunista, em 1999. Embora tenham sido originalmente desferidos numa revista semanal, os tapas e pontapés referidos no título conservam toda a sua força demolidora no livro. Os textos que diziam respeito a assuntos passageiros ficaram de fora. Os títulos originais desapareceram, e algumas crônicas foram editadas até sobrar somente um ou dois parágrafos. Curiosamente, todo esse trabalho de corte e retalho, levado a cabo pelo próprio autor, conferiu unidade ao livro, que pode ser lido como um longo ensaio dedicado a desmontar as mais queridas ilusões do brasileiro.

A Tapas e Pontapés é quase uma versão ensaística da ficção iconoclasta de Mainardi (que, conforme anunciou num dos textos recolhidos no livro, já não escreve ficção). Dá seqüência à fina linha satírica que o escritor demonstrava nos romances Contra o Brasil e Polígono das Secas. Como outros grandes satiristas, dos irlandeses Jonathan Swift e Bernard Shaw a Paulo Francis e Ivan Lessa (os únicos brasileiros que são elogiados em A Tapas e Pontapés), Mainardi pauta sua retórica pela hipérbole. É uma espécie de terapia de choque: só o exagero será capaz de corrigir a complacência do brasileiro diante de sua própria incompetência. E não haveria outro tom para tratar aqueles que Mainardi chama de "essa gente obtusa e truculenta que nos governa". Mas não se deixe enganar pela cultivada ironia do crítico: Diogo Mainardi está aí para ser levado muito a sério.

 
 
 
 
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