Edição 1878 . 3 de novembro de 2004

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Livros
Música da crise

Tomás Eloy Martínez revisita a mitologia
do tango em uma Buenos Aires conturbada


Moacyr Scliar

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Trecho do livro

Tomás Eloy Martínez mora há anos nos Estados Unidos, mas não esquece a Argentina onde nasceu, em 1934. Como é o caso de tantos escritores latino-americanos exilados, o país natal é uma fonte de inspiração inesgotável para ele. Em 1995, Martínez lançou Santa Evita, uma fantástica fabulação em torno do cadáver mumificado da ex-primeira-dama Eva Perón (1919-1952), que os "descamisados" argentinos viam como grande protetora. Agora aparece no Brasil seu livro mais recente, O Cantor de Tango (tradução de Sérgio Molina; Companhia das Letras, 222 páginas; 36 reais). Trata-se de uma seqüência de histórias narradas com virtuosismo e linguagem ágil – à qual não falta, contudo, o componente barroco tão comum na literatura hispano-americana. Embora seja tênue o fio narrativo que as une, o evidente prazer com que foram escritas transmite-se ao leitor, o que explica o sucesso da obra, best-seller na Argentina. Martínez apresenta-nos uma galeria de personagens que inclui Jorge Luis Borges e Macedonio Fernández, Perón e Evita, militares e guerrilheiros. Ele nos faz andar por Buenos Aires, descrevendo seus bairros, seus cafés, seus bordéis e cemitérios. E fala de tangos – a todo instante mencionados e analisados.

O livro nasceu do desejo não realizado de conhecer o cantor Luis Cardei, que era hemofílico e contraíra aids por meio de transfusões. Cardei constantemente cancelava espetáculos por causa da doença que acabou por matá-lo, e Martínez nunca chegou a encontrá-lo. Uma busca semelhante é narrada pelo alter ego do autor, Bruno Cadogan, que procura sem sucesso um fabuloso cantor de tangos chamado Julio Martel. A época, o final de 2001, é de profunda crise política, econômica e social na Argentina. O livro descreve multidões furiosas nas ruas protestando contra o congelamento de depósitos bancários e contra a insensibilidade dos políticos. O périplo de Bruno é o pretexto para a exploração de Buenos Aires – a cidade real e a mitologia em torno dela. Narrativa e análise social se combinam de maneira rara. O resultado é um fascinante painel da mentalidade argentina, de suas fantasias e obsessões, e dos conflitos aguçados de um país que, no começo do século XX, tinha a quinta renda per capita do mundo, mas desde então experimenta uma crise atrás da outra e conhece a miséria e o desalento.

 
 
 
 
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