|
|
Livros
Música da crise
Tomás Eloy Martínez revisita a
mitologia
do tango em uma Buenos Aires conturbada

Moacyr Scliar
 |
|
|
Tomás Eloy Martínez mora há
anos nos Estados Unidos, mas não esquece a Argentina onde
nasceu, em 1934. Como é o caso de tantos escritores latino-americanos
exilados, o país natal é uma fonte de inspiração
inesgotável para ele. Em 1995, Martínez lançou
Santa Evita, uma fantástica fabulação
em torno do cadáver mumificado da ex-primeira-dama Eva Perón
(1919-1952), que os "descamisados" argentinos viam como grande protetora.
Agora aparece no Brasil seu livro mais recente, O Cantor de
Tango (tradução de Sérgio Molina; Companhia
das Letras, 222 páginas; 36 reais). Trata-se de uma seqüência
de histórias narradas com virtuosismo e linguagem ágil
à qual não falta, contudo, o componente barroco
tão comum na literatura hispano-americana. Embora seja tênue
o fio narrativo que as une, o evidente prazer com que foram escritas
transmite-se ao leitor, o que explica o sucesso da obra, best-seller
na Argentina. Martínez apresenta-nos uma galeria de personagens
que inclui Jorge Luis Borges e Macedonio Fernández, Perón
e Evita, militares e guerrilheiros. Ele nos faz andar por Buenos
Aires, descrevendo seus bairros, seus cafés, seus bordéis
e cemitérios. E fala de tangos a todo instante mencionados
e analisados.
O livro nasceu do desejo não realizado
de conhecer o cantor Luis Cardei, que era hemofílico e contraíra
aids por meio de transfusões. Cardei constantemente cancelava
espetáculos por causa da doença que acabou por matá-lo,
e Martínez nunca chegou a encontrá-lo. Uma busca semelhante
é narrada pelo alter ego do autor, Bruno Cadogan, que procura
sem sucesso um fabuloso cantor de tangos chamado Julio Martel. A
época, o final de 2001, é de profunda crise política,
econômica e social na Argentina. O livro descreve multidões
furiosas nas ruas protestando contra o congelamento de depósitos
bancários e contra a insensibilidade dos políticos.
O périplo de Bruno é o pretexto para a exploração
de Buenos Aires a cidade real e a mitologia em torno dela.
Narrativa e análise social se combinam de maneira rara. O
resultado é um fascinante painel da mentalidade argentina,
de suas fantasias e obsessões, e dos conflitos aguçados
de um país que, no começo do século XX, tinha
a quinta renda per capita do mundo, mas desde então experimenta
uma crise atrás da outra e conhece a miséria e o desalento.
|