Edição 1878 . 3 de novembro de 2004

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Livros
O Apocalipse segundo
Dan Brown

As maluquices de Anjos e Demônios,
thriller em que surgiu o herói do
megassucesso O Código Da Vinci


Jerônimo Teixeira


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Os segredos da antimatéria

EXCLUSIVO ON-LINE
Primeiro capítulo do livro

A capa de Anjos e Demônios (tradução de Maria Luiza Newlands da Silveira; Sextante; 464 páginas; 39,90) destaca que esta é "a primeira aventura de Robert Langdon". A segunda aventura dessa espécie de detetive museológico criado pelo escritor americano Dan Brown já é bem conhecida do leitor brasileiro: trata-se de O Código Da Vinci, livro que está há trinta semanas na lista de mais vendidos de VEJA e já vendeu mais de 14 milhões de exemplares ao redor do mundo. Anjos e Demônios não gerou tanto barulho quando foi lançado nos Estados Unidos, em 2000, mas foi redescoberto no rastro do sucesso do Código. Em uma interessante inversão cronológica, o segundo livro despertou interesse sobre o primeiro. Fica um alerta, contudo, para o leitor que se deixou fascinar com as elucubrações de Langdon em torno do Santo Graal e da obra de Leonardo da Vinci: Brown errou a mão no primeiro thriller.

Os dois livros seguem a mesma fórmula. Começam com um assassinato espetacular, que será investigado por Langdon, um professor de história da arte de Harvard especializado em simbologia religiosa. Em ambos os livros, ele se confronta com antigas irmandades secretas que escondem pistas em obras-primas da arte. Finalmente, nos dois livros, ele conta com a ajuda inteligente de uma sensual européia. A italiana de Anjos e Demônios é mais fogosa do que a francesa de O Código Da Vinci, mas este é o único ponto em que o primeiro livro sai ganhando.

Código garante o apelo popular aludindo à obra do universalmente conhecido Leonardo, enquanto os enigmas de Anjos e Demônios estão ocultos nas esculturas barrocas do bem menos conhecido Gian Lorenzo Bernini. A teoria conspiratória do Código remonta a uma suposta ligação carnal entre Jesus e Madalena, tema que garante um certo escândalo herético. Anjos e Demônios enreda-se em uma discussão confusa sobre o choque entre ciência e religião. Mas a principal razão para que Anjos e Demônios não tenha se convertido em sucesso por seus próprios méritos talvez seja bem mais simples: o enredo é simplesmente estapafúrdio. Envolve uma cápsula de antimatéria (veja quadro) roubada do CERN – a maior instituição de pesquisa nuclear da Europa – para destruir o Vaticano durante o conclave que deve escolher um novo papa. Não bastasse essa ameaça apocalíptica, um assassino árabe seqüestra quatro cardeais e promete matá-los antes da explosão final do Vaticano.

Para desatar todos os nós dessa trama, Brown recorre a expedientes mais próprios de um desenho animado do que de um thriller. No final apoteótico, surge até um pára-quedas improvisado que parece um projeto do Coiote do Papa-Léguas. Há também o primário "momento Scooby-Doo", em que o vilão explica, passo a passo, como conseguiu enganar a todos com seu plano maligno. E lembra quando Jerry ateava fogo na cauda de Tom? O gato sentia o cheiro de fumaça antes da dor da queimadura. Pois os físicos quânticos de Anjos e Demônios não são mais espertos. Eis a primeira frase do livro: "O físico Leonardo Vetra sentiu cheiro de carne queimada e sabia que era a sua".

 
 
 
 
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