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Sociedade
Curso para pacificar herdeiros
As empresas familiares recorrem a consultores
para ensinar às novas gerações quando assumir
o negócio ou buscar seus próprios caminhos

Sandra Brasil
Roberto Setton
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| Seminário de herdeiros em hotel de
São Paulo: aulas para quem quer ter cargo executivo e
também para quem quer distância dos negócios
da família |
O momento da sucessão empresarial
é sempre tenso pois, mesmo em se tratando de grandes grupos,
as disputas são inevitáveis. Com freqüência
desaba o tradicional enredo do processo sucessório das empresas
familiares, em que o filho mais velho sucede o pai, os demais assumem
cargos menos importantes e as filhas ficam placidamente à
margem dos negócios, aplacadas por seu generoso quinhão,
deixando aos irmãos os assuntos administrativos. Na geração
em que um ou dois herdeiros se multiplicam em uma dezena de primos
que não se dão, noras ciumentas, genros ambiciosos
e outras figuras arquetípicas do panteão familiar,
o negócio corre risco. Para evitar desfechos desastrosos,
muitas empresas procuram ajuda externa. Cursos e consultorias montados
especificamente para a formação de herdeiros estão
prosperando e ajudando grupos familiares a destravar os nós
sucessórios. Nos últimos seis anos, pulou de 170 para
cerca de 1.000 o número de jovens
inscritos nas três principais "escolas de herdeiros" do país.
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Grupo: Marinho
de Andrade
FUNDAÇÃO: 1957
ÁREA DE ATUAÇÃO: fábrica
de produtos de limpeza (a Teiú é uma das cinco
maiores do Nordeste) e transportadora
NÚMERO DE HERDEIROS: seis, todos filhos do fundador,
José Pinho Marinho de Andrade |
"Ao contrário do primogênito
da rainha da Inglaterra, que está fadado ao trono, um herdeiro
de empresa familiar pode, sim, deixar de gerir o negócio
da família e escolher outra atividade profissional. Mas ainda
assim ele tem de saber administrar sua herança", diz Elismar
Álvares, coordenadora do programa de desenvolvimento de acionistas
da Fundação Dom Cabral, de Minas Gerais, do qual participam
hoje 240 herdeiros de 27 empresas. Criado seis anos atrás,
com sessenta alunos de sete companhias, o curso de treinamento da
Dom Cabral tem duração de dois anos e custo médio
de 60.000 reais. Uma amostra de seu funcionamento
pôde ser vista no mês passado, quando trinta alunos
de seis empreendimentos familiares se reuniram para dois dias de
aula num hotel em São Paulo. "As palestras servem para despertar
nosso interesse pela empresa. Meu plano é ser só acionista,
sem posição executiva, mas ainda assim preciso aprender
a avaliar um balanço e estar preparado para atuar no conselho
de administração", diz Leandro Kessadjikian, 25 anos,
dono de uma academia de ginástica em São Paulo e um
dos nove herdeiros da Armco do Brasil, do ramo siderúrgico.
Outra empresa de formação de herdeiros, a Bernhoeft
Consultoria Societária, de São Paulo, abriu seu primeiro
programa em 1992, com 37 participantes de onze empresas. Atualmente,
desenvolve 48 programas de preparação de acionistas,
cada um feito sob medida para um grupo empresarial. No total, mais
de 500 herdeiros estão sendo atendidos pela consultoria,
a um custo anual por empresa de cerca de 100.000
reais. "A família precisa se transformar numa família
empresária para assegurar a continuidade da empresa", ensina
o consultor Renato Bernhoeft, autor do livro Cartas a um Jovem
Herdeiro. "Tenho empresa esperando há seis meses, que
só vou começar a atender em dezembro", diz a consultora
Cláudia Tondo, que trabalha com preparação
de herdeiros de empresas familiares desde 1993 e representa no Brasil
a conferência mundial Family Business Network, uma grande
rede de herdeiros de empresas familiares do mundo inteiro que, uma
vez por ano, trocam experiências de sucesso e de fracasso.
No último deles, realizado em setembro, em Copenhague, a
delegação brasileira era formada por 38 herdeiros.
Oscar Cabral
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Grupo: Baumgart
FUNDAÇÃO: 1936
ÁREA DE ATUAÇÃO: produtos para construção
civil, promoção de eventos, turismo de negócios,
hotelaria, shopping center, pecuária e mineração
FATURAMENTO: 200 milhões de reais por ano
NÚMERO DE HERDEIROS: dez da terceira geração;
Otto (foto), 24 anos, faz estágio em outra empresa
do ramo de shopping centers |
Em matéria de efeito devastador
sobre as heranças, pouca coisa se compara aos desacertos
criados por um segundo casamento, quando direitos, deveres e divisão
de ações beiram o absurdo. Elismar, da Dom Cabral,
lembra a história de um viúvo que construiu uma empresa
de comunicação no Centro-Oeste com a ajuda dos seis
filhos do primeiro casamento donos, àquela altura,
de um quarto do patrimônio por herança da mãe.
O empresário se casou novamente e teve um filho. Ao morrer,
a segunda mulher herdou metade e o restante foi dividido entre os
sete filhos. Mas quando ela, por sua vez, morreu, seu único
filho herdou a cota toda da mãe e assim se tornou dono de
mais da metade da empresa onde jamais havia trabalhado. Os meio-irmãos
contestaram, a disputa durou cinco dolorosos anos e terminou com
a venda da companhia.
Claudio Rossi
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Grupo: Zema
FUNDAÇÃO: 1923
ÁREA DE ATUAÇÃO: lojas de eletrodomésticos,
concessionárias de automóveis e distribuidora
de petróleo
FATURAMENTO: 750 milhões de reais por ano
NÚMERO DE HERDEIROS: cinco da quarta geração
e cinco da quinta; estes, entre 5 e 15 anos, já se comprometeram
com as cláusulas de um pré-acordo de acionistas
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Cientes das dificuldades, os
controladores de empresas familiares de segunda ou terceira geração
cuidam de temperar a vida dos filhos com pitadas das turbulências
que certamente virão quando chegar a sua hora de se sentar
no conselho de administração. O Grupo Baumgart, fundado
em 1936 em São Paulo e administrado hoje pela segunda geração,
com 1.000 funcionários, faturamento
anual de 200 milhões de reais e atuação que
vai do ramo de impermeabilizantes aos shopping centers, contratou
a Bernhoeft para preparar seus dez herdeiros. Ao longo do curso,
Otto Baumgart, 24 anos, administrador de empresas, decidiu que quer
mesmo seguir os passos do pai, Roberto, 64, atual presidente do
grupo, e sua formação foi orientada para o desempenho
de funções executivas. Primeiro, estagiou em uma das
empresas Baumgart. Depois, empregou-se como trainee por um ano em
uma concorrente outra administradora de shopping centers
no Rio de Janeiro, onde está há três meses.
O salário de 1.500 reais mal começa
a cobrir os 8.000 de aluguel que paga
pelo apartamento de frente para o mar. Mas Otto não reclama
propôs, inclusive, nas reuniões de que participa
uma vez por mês em São Paulo com as três irmãs
e os seis primos, mediada pela Bernhoeft, que esse tipo de experiência
se torne obrigatório na família. "Estamos preparando
um código de ética familiar para as próximas
gerações e ele prevê que, para atuar no grupo,
a quarta geração vai ter de comprovar experiência
mínima de cinco anos em outra empresa", diz Otto. Os Baumgart
já marcaram para 2005 o início da formação
do primogênito da quarta geração: Felipe, 11
anos, filho de Beatriz, irmã mais velha de Otto.
Os muito jovens também
estão entre as preocupações sucessórias
do Grupo Zema, fundado em 1923 em Araxá, Minas Gerais, que
emprega 2.150 funcionários e fatura
anualmente 750 milhões de reais com lojas e postos de combustível.
Os cinco herdeiros da quinta geração da empresa, com
idade entre 5 e 15 anos, já são signatários
(alguns com rabiscos infantis) de um pré-acordo pelo qual
só poderão trabalhar nas empresas do grupo se existir
cargo disponível, tiverem curso superior e comprovarem cinco
anos de experiência externa. "O acordo não tem valor
jurídico, mas tem valor moral. Foi a maneira que achamos
de obrigá-los a se preparar para ser acionistas", explica
Romeu Zema Neto, 39 anos, o diretor superintendente que em breve
substituirá o pai, Ricardo, 62, no comando dos negócios.
Há dois anos o grupo é assessorado pela Bernhoeft
na formação dos cinco herdeiros da geração
de Zema Neto. "Meu irmão (Romero, 38) e eu não
tivemos opção. Aos 11 anos eu já era frentista
em nosso posto. Hoje me pergunto se poderia ter dado certo em outro
lugar", diz Romeu. Sua única irmã, Luciana, 27, suou,
mas conseguiu o aval do pai para deixar a empresa em 2003 e montar
um ateliê de bijuterias, que tem dezessete funcionários.
Na família, Luciana foi pioneira em outra área de
risco: há pouco mais de um ano, casou-se com separação
total de bens e pacto pré-nupcial registrado em cartório.
"É cada vez maior a preocupação de empresários
com divórcios que possam colocar em risco a saúde
financeira do grupo", diz a advogada Marilene Guimarães,
especializada em empresas familiares.
Nelio Rodrigues/1º Plano
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Grupo: Cedro
Cachoeira
FUNDAÇÃO: 1872
ÁREA DE ATUAÇÃO: setor têxtil
e de confecções
FATURAMENTO: 500 milhões de reais por ano
NÚMERO DE HERDEIROS: quinze em treinamento, entre
mais de 2 000 acionistas |
Entre os herdeiros do grupo Marinho
de Andrade, com sede em Vitória da Conquista, na Bahia, no
momento a prioridade é outra. Numa atitude rara para a primeira
geração, os seis filhos do empresário José
Pinho Marinho de Andrade, 76 anos, dono da indústria de produtos
de limpeza Teiú, uma das cinco maiores do Nordeste, contrataram
uma consultoria para ajudar na profissionalização
do grupo e tentar reduzir ao máximo os inevitáveis
pontos de conflito. O início do treinamento pode ser muito
básico. "Antes, eu pegava produtos de limpeza na fábrica
e levava para casa. Isso foi proibido. Hoje, sinto prazer em ir
ao supermercado e encher o carrinho com produtos Teiú", relata
Maria Luiza Marinho de Andrade, 35 anos, diretora administrativa
do grupo e única mulher entre os herdeiros da segunda geração.
"Aprendemos que a família cresce sempre em proporção
maior que os negócios. Por causa disso resolvemos construir
uma fábrica de cosméticos e reagrupar as seis fazendas
que nosso pai já havia dividido entre nós em outra
empresa, voltada para a agropecuária." A falta desse tipo
de providência ocasionou um embate de seqüelas quase
irreparáveis na família proprietária da Dimep,
tradicional fábrica paulista de controles de ponto em empresas.
O fundador, Dimas de Melo Pimenta, sinalizou que o primeiro filho
iria sucedê-lo até pelo nome: Dimas de Melo Pimenta
II (assim, com algarismos romanos). Os outros três, inconformados,
se rebelaram, e a encrenca foi tamanha que Pimenta tomou atitude
drástica: entregou a direção da Dimep a terceiros
e, com Pimenta II, comprou e foi tocar uma empresa menor. Quando
o patriarca morreu, em 1996, a luta pelo controle da Dimep recomeçou,
com ímpeto renovado, e só teve fim quando, em 2000,
Pimenta II comprou a parte dos irmãos. Sem assessoria externa,
a intermediação foi feita pelo herdeiro ungido do
negócio: o filho mais velho do atual dono, batizado, previsivelmente,
de Dimas de Melo Pimenta III. Diz ele com razão: "Minha preparação
de herdeiro começou quando me registraram".
Código de ética,
acordo sobre direitos dos acionistas, definição de
modelo de sucessão, pactos pré-nupciais e formação
de conselhos familiares são alguns dos instrumentos utilizados
para evitar o rompimento entre parentes e os divórcios turbulentos
que atormentam o futuro de qualquer negócio familiar. O caso
mais clássico ocorrido no Brasil, com lances de novela e
final nada feliz, foi a briga entre os herdeiros do conde Francisco
Matarazzo Júnior, do mitológico império industrial
que se tornou sinônimo de industrialização e
riqueza em escala nacional. Antes de morrer, em 1977, ele decidiu
que a filha caçula, Maria Pia, o sucederia na presidência
das indústrias Matarazzo, então já muito longe
de seu zênite, mas não ainda na derrocada final. Os
irmãos Ermelino e Eduardo André promoveram uma batalha
jurídica contra Maria Pia, que era apoiada pela mãe,
a condessa Mariângela, e pelos irmãos Filomena e Francisco.
Enquanto a família se dilacerava, as empresas não
se modernizaram e o império ruiu.
O consultor Antonio Carlos Vidigal,
autor de um estudo sobre catorze empresas brasileiras com mais de
100 anos, acredita que a única saída para os grupos
em que o número de herdeiros é muito desproporcional
ao negócio em si é o que chama de "reconcentração
de capital", ou seja, um herdeiro compra a parte dos outros. "Quando
tem muito primo, acaba dando briga: quem está fora sempre
desconfia das atitudes de quem está dentro", afirma Vidigal.
Com 132 anos de história, a tecelagem mineira Cedro Cachoeira,
que reúne cinco fábricas, tem 2.880
funcionários e faturou 500 milhões de reais no ano
passado, sabe o que é isso: acumula hoje mais de 2.000
acionistas, todos herdeiros legítimos. Para administrar a
multidão, promove treinamentos desde 1992. Hoje o grupo é
administrado pela quarta geração e tem quinze herdeiros
matriculados na Dom Cabral. Outro gigante familiar, o Grupo Votorantim,
deslocou em 2001 a sua diretora de recursos humanos, Célia
Picon, exclusivamente para cuidar da preparação da
quarta geração de herdeiros. Participam do programa
26 Ermírios de Moraes com mais de 15 anos que, sob orientação
de Célia, se familiarizam com o negócio. Na geração
anterior, a terceira, os 23 herdeiros puderam decidir se queriam
ou não trabalhar no grupo oito ficaram no conselho
executivo. Com a quarta geração vai ser diferente:
só poderá entrar quem for convidado. Sentencia o patriarca
Antônio Ermírio de Moraes: "É preciso preparar
os herdeiros, senão é o começo do fim. A preocupação
com isso é uma obrigação de quem está
no comando do grupo."
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Paris está em chamas
Herdar uma montanha
de dinheiro é muito bom. A verdade nua e crua
é dita pela cabecinha-de-vento Paris Hilton,
herdeira da rede de hotéis, no livro Confessions
of an Heiress A Tongue-in-Chic Peek Behind the
Pose (Confissões de uma Herdeira Um
Vislumbre da Pessoa por trás da Pose). Algumas
pérolas:
"Herdeiras já
nascem com privilégios. Mas, se a herdeira não
souber exibir autoconfiança inata, ninguém
vai levá-la a sério ou colocá-la
no pedestal em que merece estar"
"Se uma herdeira
está se sentindo meio insegura, deve ir às
compras. Se não melhorar, deve ir a Paris. Ou
Saint-Tropez. Passar o fim de semana, se preciso"
"Se você entra
em uma sala sabendo que é a pessoa mais interessante
ali dentro porque... bem, porque é, você
está se sentindo como uma herdeira. Tudo de que
precisa, além disso, é uma boa bolsa,
ótima pose e saltos muito, muito altos (ser loira
também não atrapalha)"
"Uma das melhores
coisas de ser uma herdeira é não precisar
trabalhar. Todas as outras pessoas precisam, o que imediatamente
a coloca em outro patamar"
"Mas também
é muito bacana ser herdeira e mesmo assim querer
trabalhar. Torna você ainda mais especial, porque
não há muitas herdeiras trabalhando por
aí"
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