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Antropologia
Nosso primo caçula
Fóssil de um hominídeo
anão descoberto
na Indonésia deixa ainda mais intrigante
a história da evolução

Thereza Venturoli
Reuters
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Foi como se, de repente, ficasse provado que
Papai Noel realmente existiu, e seus restos mortais estivessem perdidos
em algum canto enregelado da Lapônia até, digamos,
o ano passado. Uma antiga lenda indonésia, que fala de homens
minúsculos os ebu gogos que teriam habitado
algumas ilhas do arquipélago, acaba de se transformar em
realidade. Pesquisadores australianos descobriram fósseis
de uma criatura com menos de 1 metro de altura e o menor cérebro
já visto em hominídeos do tamanho de um abacate
, que viveu na Ilha de Flores há apenas 18.000
anos. Segundo os pesquisadores, trata-se de um integrante até
agora desconhecido do gênero Homo o mesmo a
que pertence o Homo sapiens, ou seja, nós. Rebatizado
de Homo floresiensis (Homem de Flores), o ebu gogo
teria, então, compartilhado o planeta com o homem moderno
até uma época muito recente na escala da evolução
da espécie, até ontem. A descoberta, publicada na
última edição da revista científica
Nature, é considerada uma das mais impressionantes
já feitas pela paleoantropologia. De um lado, ela demonstra
que a linha evolutiva da humanidade é mais tortuosa do que
se supunha; de outro, balança a idéia de que o cérebro,
lenta e gradualmente, tenha crescido e se tornado mais complexo
ao longo da evolução, até culminar na sofisticada
máquina criativa do homem atual.
O fóssil achado pela equipe liderada
pelo antropólogo Peter Brown, da Universidade de New England,
é a ossada quase completa de uma fêmea. Ela estava
enterrada sob uma camada de sedimentos que podem ter sido criados
por uma erupção vulcânica há cerca de
13.000 anos. Um pouco além, na
mesma caverna, os pesquisadores encontraram restos de animais e
ferramentas de pedra, bastante sofisticadas, além de fragmentos
de pelo menos outros cinco hominídeos. As análises
para datação demonstram que a população
de pigmeus teria existido entre 74.000
e 13.000 anos atrás. Mas é
possível que o início desse período possa ser
ampliado para até 95.000 anos.
O floresiensis deve ser descendente
direto do Homo erectus asiático, uma linhagem originária
do erectus africano (também chamado Homo ergaster),
que teria chegado à Indonésia há 800.000
anos (veja
a linha do tempo abaixo). Só que encolheu,
provavelmente devido ao isolamento em que viveu na Ilha de Flores.
Como no Arquipélago de Galápagos cujos animais
extravagantes inspiraram Charles Darwin a elaborar sua teoria da
evolução das espécies pela seleção
natural, no século XIX , Flores desenvolveu, por causa
de seu isolamento, uma fauna toda especial, que, além dos
floresiensis anões, incluía elefantes pequenos
e lagartos e ratos gigantes.
O surpreendente é que as ferramentas
encontradas no sítio arqueológico dos floresiensis
são sofisticadas demais para terem sido construídas
por quem possuía um cérebro tão diminuto. O
tamanho do cérebro costuma ser usado como indício
da capacidade cognitiva de uma espécie, ou seja, sua capacidade
de aprender e de criar. Num comentário que acompanha o artigo
científico na revista Nature, os antropólogos
Marta Lahr e Robert Foley, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra,
levantam a hipótese de que os artefatos tenham pertencido
originalmente ao Homo sapiens, que chegou à Indonésia
cerca de 30.000 anos atrás. Se
isso se confirmar, o floresiensis pode até ter sido
caçado e exterminado pelo sapiens. Agora, se se provar
que foi ele próprio quem construiu essas ferramentas, o floresiensis
vai derrubar um dos mais aceitos preceitos da antropologia
justamente esse que associa o sucesso da espécie humana ao
volume do seu cérebro.
Há, contudo, quem questione a entrada
do floresiensis no rol de parentes do homem. O antropólogo
Jeffrey Schwartz, da Universidade de Pittsburgh, acha que o hominídeo
indonésio apresenta características peculiares demais
para ser incluído no gênero Homo, ou em qualquer
outro gênero da linha de evolução do homem.
Para ele, a paleoantropologia deveria admitir a grande diversidade
evolutiva e criar novas categorias para classificar nossas linhagens
ancestrais. "Não há nenhum fator biológico
que impeça que nosso passado apresente vários parentes
hoje extintos, de diferentes tipos", disse ele a VEJA. Questões
de classificação à parte, o mais surpreendente
do fóssil da Ilha de Flores é demonstrar que o Homo
sapiens conviveu com outros hominídeos até muito
mais recentemente do que se pensava. "O maior impacto dessa descoberta
é mostrar que nossa árvore evolutiva tem muito mais
ramos do que se imaginava. É, na verdade, mais parecida com
uma moita cheia de galhos", diz Walter Neves, coordenador do laboratório
de Estudos Evolutivos Humanos da Universidade de São Paulo.
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