Edição 1878 . 3 de novembro de 2004

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Auto-retrato
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Antropologia
Nosso primo caçula

Fóssil de um hominídeo anão descoberto
na Indonésia deixa ainda mais intrigante
a história da evolução


Thereza Venturoli

 
Reuters



NESTA REPORTAGEM
Gráfico: Ramos demais
Gráfico: o Homo sapiens deixou o primo para trás

Foi como se, de repente, ficasse provado que Papai Noel realmente existiu, e seus restos mortais estivessem perdidos em algum canto enregelado da Lapônia até, digamos, o ano passado. Uma antiga lenda indonésia, que fala de homens minúsculos – os ebu gogos – que teriam habitado algumas ilhas do arquipélago, acaba de se transformar em realidade. Pesquisadores australianos descobriram fósseis de uma criatura com menos de 1 metro de altura e o menor cérebro já visto em hominídeos – do tamanho de um abacate –, que viveu na Ilha de Flores há apenas 18.000 anos. Segundo os pesquisadores, trata-se de um integrante até agora desconhecido do gênero Homo – o mesmo a que pertence o Homo sapiens, ou seja, nós. Rebatizado de Homo floresiensis (Homem de Flores), o ebu gogo teria, então, compartilhado o planeta com o homem moderno até uma época muito recente – na escala da evolução da espécie, até ontem. A descoberta, publicada na última edição da revista científica Nature, é considerada uma das mais impressionantes já feitas pela paleoantropologia. De um lado, ela demonstra que a linha evolutiva da humanidade é mais tortuosa do que se supunha; de outro, balança a idéia de que o cérebro, lenta e gradualmente, tenha crescido e se tornado mais complexo ao longo da evolução, até culminar na sofisticada máquina criativa do homem atual.

O fóssil achado pela equipe liderada pelo antropólogo Peter Brown, da Universidade de New England, é a ossada quase completa de uma fêmea. Ela estava enterrada sob uma camada de sedimentos que podem ter sido criados por uma erupção vulcânica há cerca de 13.000 anos. Um pouco além, na mesma caverna, os pesquisadores encontraram restos de animais e ferramentas de pedra, bastante sofisticadas, além de fragmentos de pelo menos outros cinco hominídeos. As análises para datação demonstram que a população de pigmeus teria existido entre 74.000 e 13.000 anos atrás. Mas é possível que o início desse período possa ser ampliado para até 95.000 anos.

O floresiensis deve ser descendente direto do Homo erectus asiático, uma linhagem originária do erectus africano (também chamado Homo ergaster), que teria chegado à Indonésia há 800.000 anos (veja a linha do tempo abaixo). Só que encolheu, provavelmente devido ao isolamento em que viveu na Ilha de Flores. Como no Arquipélago de Galápagos – cujos animais extravagantes inspiraram Charles Darwin a elaborar sua teoria da evolução das espécies pela seleção natural, no século XIX –, Flores desenvolveu, por causa de seu isolamento, uma fauna toda especial, que, além dos floresiensis anões, incluía elefantes pequenos e lagartos e ratos gigantes.

O surpreendente é que as ferramentas encontradas no sítio arqueológico dos floresiensis são sofisticadas demais para terem sido construídas por quem possuía um cérebro tão diminuto. O tamanho do cérebro costuma ser usado como indício da capacidade cognitiva de uma espécie, ou seja, sua capacidade de aprender e de criar. Num comentário que acompanha o artigo científico na revista Nature, os antropólogos Marta Lahr e Robert Foley, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, levantam a hipótese de que os artefatos tenham pertencido originalmente ao Homo sapiens, que chegou à Indonésia cerca de 30.000 anos atrás. Se isso se confirmar, o floresiensis pode até ter sido caçado e exterminado pelo sapiens. Agora, se se provar que foi ele próprio quem construiu essas ferramentas, o floresiensis vai derrubar um dos mais aceitos preceitos da antropologia – justamente esse que associa o sucesso da espécie humana ao volume do seu cérebro.

Há, contudo, quem questione a entrada do floresiensis no rol de parentes do homem. O antropólogo Jeffrey Schwartz, da Universidade de Pittsburgh, acha que o hominídeo indonésio apresenta características peculiares demais para ser incluído no gênero Homo, ou em qualquer outro gênero da linha de evolução do homem. Para ele, a paleoantropologia deveria admitir a grande diversidade evolutiva e criar novas categorias para classificar nossas linhagens ancestrais. "Não há nenhum fator biológico que impeça que nosso passado apresente vários parentes hoje extintos, de diferentes tipos", disse ele a VEJA. Questões de classificação à parte, o mais surpreendente do fóssil da Ilha de Flores é demonstrar que o Homo sapiens conviveu com outros hominídeos até muito mais recentemente do que se pensava. "O maior impacto dessa descoberta é mostrar que nossa árvore evolutiva tem muito mais ramos do que se imaginava. É, na verdade, mais parecida com uma moita cheia de galhos", diz Walter Neves, coordenador do laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da Universidade de São Paulo.

 
 
 
 
topo voltar