Edição 1878 . 3 de novembro de 2004

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Oriente Médio
Arafat doente.
Uma chance para a paz?

Estado grave do líder palestino pode
abrir espaço para a retomada das
negociações no Oriente Médio


José Eduardo Barella

 
Reuters
SÍMBOLO DE UMA ERA
Arafat posa com médicos e assessores antes de ser levado para a França: confinado por dois anos


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Pequenas áras, grandes problemas

EXCLUSIVO ON-LINE
Em Profundidade: A Questão Palestina

Durante quatro décadas, Yasser Arafat foi o símbolo da causa palestina e um exemplo de liderança política que sobreviveu a golpes, tentativas de assassinato e humilhações de adversários e inimigos, sem ceder um átimo do poder. A questão que se coloca agora, porém, é outra: como será o Oriente Médio pós-Arafat? Na sexta-feira passada, o líder palestino de 75 anos embarcou em estado grave num avião para ser tratado na França. Para o mundo, que se acostumou a vê-lo desafiante, vestido no uniforme oliva e com o kaffiyeh na cabeça (sempre ajeitado para cair sobre os ombros e formar um bico no alto da cabeça, para lembrar o mapa da Palestina), as imagens exibidas na semana passada pela televisão eram chocantes. Elas mostraram um Arafat pálido e mais magro, debilitado por uma doença sanguínea misteriosa que os médicos desconfiam poder se tratar de leucemia. O pijama e o gorro na cabeça denunciavam o aspecto de um velho doente. O estado de saúde de Arafat começou a se deteriorar nas últimas semanas. Primeiro, com uma infecção intestinal que causava mal-estar e vômitos quando ele se alimentava. Na quarta-feira, Arafat sentiu tonturas, desmaiou e permaneceu dez minutos inconsciente. Assessores tentaram reanimá-lo, e temeu-se pelo pior. Sua mulher, a loira oxigenada Suha Tawil, de 41 anos, veio de Paris para visitá-lo – o casal não se via desde o início da Intifada, em 2000. A gravidade de seu quadro só será determinada depois dos exames em Paris. Não se sabe se será conhecida.

Mesmo que melhore com o tratamento, Arafat dificilmente terá condições físicas de retomar o poder. E a briga pela sua sucessão já está em curso, apesar de não existir um nome de consenso entre os palestinos nem um processo definido de escolha. Arafat centralizou o poder em suas mãos, confundindo a causa palestina com sua história pessoal, com amplos benefícios para si próprio e prejuízo para seu povo. Ele não teve vida particular. Seu biógrafo, o palestino Saïd Aburish, escreveu que Arafat chegou a ficar quatro décadas sem pisar num restaurante. Diligentemente impediu a ascensão de novos quadros que pudessem ameaçar seu poder. Foi o que fez há pouco tempo com os dois candidatos naturais à sua sucessão. Mahmoud Abbas é um deles. Arafat o nomeou primeiro-ministro e fez o que pôde para minar seu poder ao perceber que Abbas avançava nas negociações com Israel e os Estados Unidos. Abbas ficou apenas três meses no cargo. O outro candidato em potencial é o atual primeiro-ministro, Ahmed Korei, que ameaçou renunciar por desavenças com Arafat. Contra os dois candidatos pesam a idade (ambos na faixa de 70 anos) e a falta de liderança capaz de unir os palestinos. Entre os políticos jovens, nenhum tem o carisma e a liderança de Arafat.

AFP
PLANO DE RETIRADA
Sharon quer fazer o que jurou nunca fazer: ceder território


Pelas vias legais, em caso de morte do líder palestino, o presidente do Parlamento assumiria suas funções e governaria o tempo necessário para convocar eleições. Mas é difícil apostar numa solução democrática num território conflagrado como a Palestina. Há risco de uma guerra civil envolvendo várias facções, como o Hamas. Grupo fundamentalista islâmico responsável pela maioria dos atentados suicidas em Israel, o Hamas ganhou apoio popular nos territórios ocupados à custa dos erros acumulados por Arafat em uma década no poder. Seu governo foi marcado por denúncias de corrupção, perseguição a desafetos políticos e incompetência administrativa. O líder palestino tampouco se preocupou em criar instituições sólidas, que estimulassem a democracia e o desenvolvimento econômico. A reação fria dos palestinos ao afastamento de Arafat mostrou a queda de seu prestígio, principalmente entre os jovens.

Mesmo doente, Arafat recusou-se a passar formalmente o cargo de presidente da Autoridade Palestina – o que aumenta o risco de incerteza daqui para a frente. A boa notícia é que o afastamento de Arafat pode ressuscitar o processo de paz no Oriente Médio. Israel e Estados Unidos deixaram de negociar com Arafat em 2002, acusando-o de nada fazer para pôr fim aos atentados de grupos terroristas palestinos. Confinado desde essa época na sede da Autoridade Palestina, em Ramallah, na Cisjordânia, Arafat viu enfraquecer seu poder e aumentar o isolamento externo. Com o líder palestino fora do jogo, nada impede que o primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, e o presidente americano vencedor das eleições de terça-feira negociem com o sucessor de Arafat a retomada do mapa do caminho – o plano de paz acertado em 2002, com intermediação dos Estados Unidos, Rússia e União Européia, e que nunca saiu do papel.

O primeiro-ministro israelense nunca escondeu seu desejo de se livrar de Arafat. Mas, por uma ironia do destino, viu o súbito afastamento do líder palestino atrapalhar uma das jogadas mais arriscadas de sua carreira política – o plano de retirada unilateral de Israel da Faixa de Gaza, um dos territórios ocupados na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Sharon levou à votação no Parlamento uma proposta para desmantelar todos os assentamentos em Gaza, onde apenas 8.000 colonos judeus vivem em meio a 1,3 milhão de palestinos, e recuar suas tropas até a fronteira israelense. Pela proposta, os colonos serão indenizados e os assentamentos, destruídos, para impedir que grupos fundamentalistas explorem a retirada como uma capitulação do inimigo. A maioria dos israelenses aprova a saída de Gaza – um território miserável e que exige recursos e soldados para manter a segurança dos colonos. Além disso, Gaza não tem a mesma importância religiosa, política e estratégica da Cisjordânia. Para os colonos, os partidos religiosos e boa parte dos integrantes de seu próprio partido, o Likud, a iniciativa de Sharon foi vista como uma traição imperdoável. Parte da bancada do Likud votou contra a proposta e os colonos fizeram um ruidoso protesto na frente do Parlamento. Até ameaças de morte foram endereçadas ao primeiro-ministro.

Só mesmo um falcão como Sharon teria prestígio para propor uma medida que simboliza uma ruptura com seu passado político. Desde a guerra de 1967, Sharon foi um dos maiores incentivadores da ocupação de terras palestinas. O primeiro-ministro não mudou de lado, foi apenas pragmático: seu objetivo é ceder em Gaza para endurecer nas negociações futuras com os palestinos a remoção dos assentamentos na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, onde vivem 400.000 judeus. "Arafat sempre foi um entrave, mas está longe de representar o único obstáculo para um acordo de paz", disse a VEJA o cientista político americano Fawaz Gerges, autor de vários livros sobre o conflito no Oriente Médio. "Sharon terá dificuldade de negociar com o sucessor de Arafat, seja qual for, principalmente se permanecer irredutível em questões envolvendo os assentamentos judeus na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental", acrescenta.

 
AP
NEM UM PASSO ATRÁS
Colonos judeus em manifestação contra Sharon: a maior parte dos israelenses, porém, aprova a devolução de Gaza

Para convencer o Parlamento a aprovar seu plano, Sharon usou como argumento a política israelense de se recusar a negociar com Arafat, "um parceiro não confiável". A proposta acabou aprovada com o apoio da oposição trabalhista. Sharon não teve tempo de saborear a vitória. No dia seguinte, a piora do estado de saúde de Arafat mudou todo o cenário do Oriente Médio. Parecia até que o líder palestino, que estava morto politicamente, havia ressuscitado apenas para minar os planos de Sharon. Os partidos religiosos e os deputados do Likud começaram a pressionar o primeiro-ministro para abandonar a retirada. "Não faz sentido Israel sair de Gaza antes que a sucessão de Arafat seja consolidada, pois poderia atropelar até mesmo um futuro acordo de paz", disse a VEJA o israelense Aharon Klieman, professor de relações internacionais da Universidade de Tel Aviv. Sharon ficou numa situação incômoda e agora corre o risco de ser obrigado a revisar seus planos – e por culpa de seu maior desafeto, Arafat.

 
 
 
 
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