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Oriente
Médio Arafat doente. Uma chance para
a paz?
Estado grave do líder palestino pode abrir espaço para a retomada
das negociações no Oriente Médio  José
Eduardo Barella
Reuters
 | SÍMBOLO
DE UMA ERA Arafat posa com médicos e assessores
antes de ser levado para a França: confinado por dois anos |
Durante
quatro décadas, Yasser Arafat foi o símbolo da causa palestina e
um exemplo de liderança política que sobreviveu a golpes, tentativas
de assassinato e humilhações de adversários e inimigos, sem
ceder um átimo do poder. A questão que se coloca agora, porém,
é outra: como será o Oriente Médio pós-Arafat? Na
sexta-feira passada, o líder palestino de 75 anos embarcou em estado grave
num avião para ser tratado na França. Para o mundo, que se acostumou
a vê-lo desafiante, vestido no uniforme oliva e com o kaffiyeh na
cabeça (sempre ajeitado para cair sobre os ombros e formar um bico no alto
da cabeça, para lembrar o mapa da Palestina), as imagens exibidas na semana
passada pela televisão eram chocantes. Elas mostraram um Arafat pálido
e mais magro, debilitado por uma doença sanguínea misteriosa que
os médicos desconfiam poder se tratar de leucemia. O pijama e o gorro na
cabeça denunciavam o aspecto de um velho doente. O estado de saúde
de Arafat começou a se deteriorar nas últimas semanas. Primeiro,
com uma infecção intestinal que causava mal-estar e vômitos
quando ele se alimentava. Na quarta-feira, Arafat sentiu tonturas, desmaiou e
permaneceu dez minutos inconsciente. Assessores tentaram reanimá-lo, e
temeu-se pelo pior. Sua mulher, a loira oxigenada Suha Tawil, de 41 anos, veio
de Paris para visitá-lo o casal não se via desde o início
da Intifada, em 2000. A gravidade de seu quadro só será determinada
depois dos exames em Paris. Não se sabe se será conhecida.
Mesmo que melhore com o tratamento, Arafat dificilmente terá condições
físicas de retomar o poder. E a briga pela sua sucessão já
está em curso, apesar de não existir um nome de consenso entre os
palestinos nem um processo definido de escolha. Arafat centralizou o poder em
suas mãos, confundindo a causa palestina com sua história pessoal,
com amplos benefícios para si próprio e prejuízo para seu
povo. Ele não teve vida particular. Seu biógrafo, o palestino Saïd
Aburish, escreveu que Arafat chegou a ficar quatro décadas sem pisar num
restaurante. Diligentemente impediu a ascensão de novos quadros que pudessem
ameaçar seu poder. Foi o que fez há pouco tempo com os dois candidatos
naturais à sua sucessão. Mahmoud Abbas é um deles. Arafat
o nomeou primeiro-ministro e fez o que pôde para minar seu poder ao perceber
que Abbas avançava nas negociações com Israel e os Estados
Unidos. Abbas ficou apenas três meses no cargo. O outro candidato em potencial
é o atual primeiro-ministro, Ahmed Korei, que ameaçou renunciar
por desavenças com Arafat. Contra os dois candidatos pesam a idade (ambos
na faixa de 70 anos) e a falta de liderança capaz de unir os palestinos.
Entre os políticos jovens, nenhum tem o carisma e a liderança de
Arafat.
AFP
 | PLANO
DE RETIRADA Sharon quer fazer o que jurou nunca
fazer: ceder território |
Pelas
vias legais, em caso de morte do líder palestino, o presidente do Parlamento
assumiria suas funções e governaria o tempo necessário para
convocar eleições. Mas é difícil apostar numa solução
democrática num território conflagrado como a Palestina. Há
risco de uma guerra civil envolvendo várias facções, como
o Hamas. Grupo fundamentalista islâmico responsável pela maioria
dos atentados suicidas em Israel, o Hamas ganhou apoio popular nos territórios
ocupados à custa dos erros acumulados por Arafat em uma década no
poder. Seu governo foi marcado por denúncias de corrupção,
perseguição a desafetos políticos e incompetência administrativa.
O líder palestino tampouco se preocupou em criar instituições
sólidas, que estimulassem a democracia e o desenvolvimento econômico.
A reação fria dos palestinos ao afastamento de Arafat mostrou a
queda de seu prestígio, principalmente entre os jovens.
Mesmo doente, Arafat recusou-se a passar formalmente o cargo de presidente da
Autoridade Palestina o que aumenta o risco de incerteza daqui para a frente.
A boa notícia é que o afastamento de Arafat pode ressuscitar o processo
de paz no Oriente Médio. Israel e Estados Unidos deixaram de negociar com
Arafat em 2002, acusando-o de nada fazer para pôr fim aos atentados de grupos
terroristas palestinos. Confinado desde essa época na sede da Autoridade
Palestina, em Ramallah, na Cisjordânia, Arafat viu enfraquecer seu poder
e aumentar o isolamento externo. Com o líder palestino fora do jogo, nada
impede que o primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, e o presidente americano
vencedor das eleições de terça-feira negociem com o sucessor
de Arafat a retomada do mapa do caminho o plano de paz acertado em 2002,
com intermediação dos Estados Unidos, Rússia e União
Européia, e que nunca saiu do papel.
O primeiro-ministro israelense nunca escondeu seu desejo de se livrar de Arafat.
Mas, por uma ironia do destino, viu o súbito afastamento do líder
palestino atrapalhar uma das jogadas mais arriscadas de sua carreira política
o plano de retirada unilateral de Israel da Faixa de Gaza, um dos territórios
ocupados na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Sharon levou à votação
no Parlamento uma proposta para desmantelar todos os assentamentos em Gaza, onde
apenas 8.000 colonos judeus vivem em meio a 1,3 milhão de palestinos, e
recuar suas tropas até a fronteira israelense. Pela proposta, os colonos
serão indenizados e os assentamentos, destruídos, para impedir que
grupos fundamentalistas explorem a retirada como uma capitulação
do inimigo. A maioria dos israelenses aprova a saída de Gaza um
território miserável e que exige recursos e soldados para manter
a segurança dos colonos. Além disso, Gaza não tem a mesma
importância religiosa, política e estratégica da Cisjordânia.
Para os colonos, os partidos religiosos e boa parte dos integrantes de seu próprio
partido, o Likud, a iniciativa de Sharon foi vista como uma traição
imperdoável. Parte da bancada do Likud votou contra a proposta e os colonos
fizeram um ruidoso protesto na frente do Parlamento. Até ameaças
de morte foram endereçadas ao primeiro-ministro.
Só mesmo um falcão como Sharon teria prestígio para propor
uma medida que simboliza uma ruptura com seu passado político. Desde a
guerra de 1967, Sharon foi um dos maiores incentivadores da ocupação
de terras palestinas. O primeiro-ministro não mudou de lado, foi apenas
pragmático: seu objetivo é ceder em Gaza para endurecer nas negociações
futuras com os palestinos a remoção dos assentamentos na Cisjordânia
e em Jerusalém Oriental, onde vivem 400.000 judeus. "Arafat sempre foi
um entrave, mas está longe de representar o único obstáculo
para um acordo de paz", disse a VEJA o cientista político americano Fawaz
Gerges, autor de vários livros sobre o conflito no Oriente Médio.
"Sharon terá dificuldade de negociar com o sucessor de Arafat, seja qual
for, principalmente se permanecer irredutível em questões envolvendo
os assentamentos judeus na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental",
acrescenta. AP
 | NEM
UM PASSO ATRÁS Colonos judeus em manifestação
contra Sharon: a maior parte dos israelenses, porém, aprova a devolução de Gaza
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Para
convencer o Parlamento a aprovar seu plano, Sharon usou como argumento a política
israelense de se recusar a negociar com Arafat, "um parceiro não confiável".
A proposta acabou aprovada com o apoio da oposição trabalhista.
Sharon não teve tempo de saborear a vitória. No dia seguinte, a
piora do estado de saúde de Arafat mudou todo o cenário do Oriente
Médio. Parecia até que o líder palestino, que estava morto
politicamente, havia ressuscitado apenas para minar os planos de Sharon. Os partidos
religiosos e os deputados do Likud começaram a pressionar o primeiro-ministro
para abandonar a retirada. "Não faz sentido Israel sair de Gaza antes que
a sucessão de Arafat seja consolidada, pois poderia atropelar até
mesmo um futuro acordo de paz", disse a VEJA o israelense Aharon Klieman, professor
de relações internacionais da Universidade de Tel Aviv. Sharon ficou
numa situação incômoda e agora corre o risco de ser obrigado
a revisar seus planos e por culpa de seu maior desafeto, Arafat. |