Edição 1878 . 3 de novembro de 2004

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Estados Unidos
Bush bis?
Ninguém merece

Se o mundo tiver de enfrentar mais
quatro anos com o presidente americano,
há duas hipóteses: uma não muito boa,
outra pior ainda


Vilma Gryzinski

 
AP
O SEGUNDO REINADO
Se for reeleito, Bush pode se concentrar mais nos assuntos internos – ou se sentir incentivado a aplicar em outros países a mesma política de mudança de regime usada no Iraque

Não é difícil adivinhar a reação mundial se George W. Bush perder a eleição: um suspiro de alívio de dimensões planetárias. E se ele ganhar, o mundo agüenta mais quatro anos com esse presidente agressivo, incompetente e perigoso para os próprios interesses superiores dos Estados Unidos e do resto da humanidade? Não existe exercício político mais arriscado, no instável mundo atual, do que o dos prognósticos, mas pode-se dizer que há basicamente duas correntes sobre como será o segundo reinado de George II. Uma diz que haverá versão light do primeiro mandato, outra, ao contrário, prevê um exercício do poder imperial ainda mais cheio de calorias.

Pela mais benigna delas, Bush deve dirigir suas energias para os assuntos internos (mais restrições ao aborto, menos impostos, flexibilização das leis trabalhistas, obstáculos ao casamento homossexual estão entre os temas privilegiados) e ir levando a ocupação do Iraque até ter uma boa desculpa – um governo eleito e inteiro, por exemplo – para cair fora sem passar recibo de fracasso. A gravidade da situação iraquiana é, por si só, o maior impedimento a novas aventuras no exterior. O projeto neoconservador de refazer o Oriente Médio e, por extensão, o mundo, implantando democracias de florescimento instantâneo, onde cidadãos agradecidos aplaudiriam a bondade dos americanos, foi cruelmente arquivado pela realidade. Pesa também o fato de que as Forças Armadas americanas, embora preparadas para lutar duas guerras simultâneas, estão apertadas em recursos humanos e materiais. É claro que um novo ataque catastrófico do jihadismo internacional demandaria novas intervenções militares, mas registre-se que nos últimos três anos o terrorismo islâmico não conseguiu sequer se aproximar da magnitude do 11 de Setembro – e não agiu uma única vez em território americano.

A corrente mais pessimista especula que, ao contrário, reafirmado nas urnas, Bush se sentiria no direito de radicalizar, levando a teoria da "mudança de regime" a outros países de sua lista de inimigos. O candidato número 1 é o Irã, que tenta sofregamente entrar na esfera dos países nuclearizados, com dois resultados previsíveis: primeiro, não vai conseguir a tempo de exercer alguma capacidade dissuasória; segundo, oferece o pretexto perfeito para a intervenção. Em relação ao conflito entre Israel e palestinos, questão fulcral da política internacional em razão do efeito psicológico deletério que produz em todo o mundo muçulmano, o Bush do segundo mandato provavelmente seria muito parecido com o do primeiro. Ou seja, uma aliança tácita que dá tudo ao governo Sharon e trata os palestinos com menos do que pão e água. Mesmo que a natureza se encarregasse de resolver o problema Arafat, que Bush pôs na lista negra para todo o sempre, a saída moralmente correta e politicamente desejável – um Estado palestino viável e com perspectivas de prosperidade, um Estado judeu livre dos sobressaltos traumatizantes do terrorismo – não estaria nem sequer esboçada no horizonte.

Confortável em seu magnífico isolamento, abrandado pela aquiescência de aliados como a Inglaterra e o Japão, Bush não estaria imune a procurar novos amigos. E não há nada de bom nisso, na interpretação de um escolado especialista em relações internacionais, Zbigniew Brzezinski, o polonês de nome complicado que assessorou o presidente Jimmy Carter na década de 70. "Um governo Bush reeleito poderia ser mais vulnerável à tentação de adotar uma nova aliança antiislâmica, nos moldes da Santa Aliança que emergiu depois de 1815 para impedir levantes revolucionários na Europa", conjeturou ele recentemente. Os candidatos naturais seriam os países às voltas com insurgências muçulmanas: a Rússia de Putin, acossada pelos separatistas chechenos cuja torpeza atingiu níveis sem precedentes no massacre das criancinhas de Beslan; talvez a Índia em disputa com o Paquistão pela região da Caxemira e a hegemonia regional; e, claro, Israel.

Não há nenhuma garantia de que George II, sozinho ou com uma nova Santa Aliança, conseguisse aumentar os estoques dos artigos mais vitais para o mundo: paz e estabilidade. Ao contrário, a obsessão injustificada que levou à invasão do Iraque e, pior ainda, a maneira desastrosa como foi conduzida a ocupação do país geraram resultados tão contraproducentes que são cada vez mais criticados não pelos adversários de praxe, mas por conservadores tradicionais, assustados com a perspectiva de mais quatro anos de bushismo. Difunde-se até uma tese segundo a qual Bush não é realmente de direita, mas uma espécie de contrafação, um conservador falsificado que agiu contra os próprios interesses da categoria. "O projeto imperial dos chamados neoconservadores não tem nada de conservadorismo", escreveu Clyde Prestowitz, membro da tribo e autor de um livro sobre o último meio século de política externa americana. "Trata-se de radicalismo, egotismo e aventureirismo vestidos com a retórica estridente do patriotismo tradicional. Conservadores de verdade nunca foram messiânicos ou doutrinários." Até a revista The Economist, bastião do conservadorismo chique, responsável, juntamente com Tony Blair, pelas mais brilhantes peças de defesa intelectual da invasão do Iraque, desistiu: na semana passada, com "o coração apertado", defendeu o voto em John Kerry. O mundo já tem problemas demais – não precisa de George Bush para aumentá-los mais ainda.

 
 
 
 
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