Edição 1878 . 3 de novembro de 2004

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Saúde
"Vou me curar"

Roberto Carlos fala de sua luta contra
o transtorno obsessivo-compulsivo


Okky de Souza


Marcos Vieira/Ag. O Globo
Alex Silva/AE
TERAPIA E BOATOS
Roberto Carlos aconselha os portadores de TOC a procurar ajuda sem demora: "O transtorno é algo mais sério do que se imagina, perturba muito, e o paciente precisa ter coragem, disposição e empenho". Já o namoro com Maria de Fátima Barbosa (à esq.), segundo ele, não passa de gorda fofoca

Quem assiste aos shows da nova turnê de Roberto Carlos, iniciada em julho, se surpreende com sua atuação no palco. Roberto está visivelmente mais à vontade e alegre. Canta músicas que havia riscado do repertório por conterem palavras que considerava tabu, como "mentira" e "maldade". Parece um novo Roberto Carlos – e é mesmo. Nos últimos quatro meses, o cantor vem se submetendo a sessões de terapia cognitivo-comportamental para se livrar de um distúrbio psicológico que o acomete há mais de uma década, mas que só agora ele resolveu combater – o transtorno obsessivo-compulsivo, ou TOC. Há seis meses, o TOC foi assunto de uma reportagem de capa de VEJA, que trazia um depoimento tocante de uma de suas vítimas, a atriz Luciana Vendramini. Trata-se de um distúrbio que se manifesta por meio de uma série de excentricidades e manias cultivadas no cotidiano. No caso de Roberto, por exemplo, tornaram-se famosas manias como sair de um ambiente pela mesma porta pela qual entrou, não usar nada de cor marrom, evitar palavras de conotação negativa e jamais assinar documentos na fase minguante da Lua. "As manias estavam me incomodando", ele admite. Aos 63 anos, Roberto dá outros sinais de mudança. Parece aceitar com mais serenidade a morte de sua última mulher, Maria Rita. Pela primeira vez, depois de trinta anos, concordou em fazer um show ao vivo – e não gravado – para o especial de fim de ano da Rede Globo. Além disso, prepara a reedição completa de sua obra em cinco caixas de CDs. Na entrevista a seguir, ele conta como estão se dando essas transformações.

QUANDO VOCÊ SOUBE QUE SOFRIA DE TRANSTORNO OBSESSIVO-COMPULSIVO, DISTÚRBIO CONHECIDO PELA SIGLA TOC?
Há quase cinco anos. A princípio, pensei que pudesse me curar sozinho. Tentei fazê-lo com a ajuda de um livro que fala do assunto. Mas logo vi que o transtorno obsessivo-compulsivo é algo muito mais sério do que em geral se imagina.

QUE SINTOMAS LEVARAM AO DIAGNÓSTICO?
Minhas manias e superstições. Todo mundo tem algumas maniazinhas, como sentar no mesmo banco quando vai à igreja, por exemplo, e não fica chateado quando o banco está ocupado. Mas minhas manias estavam me incomodando. Já consegui me livrar de algumas delas. Também confundia alguns sintomas do TOC com superstições. Hoje, vejo que não sou tão supersticioso assim. Minhas superstições até que são bastante comuns, muita gente também as tem.

O QUE O FEZ PROCURAR TRATAMENTO?
Fiquei sabendo do caso grave de TOC de Luciana Vendramini. Depois disso, cheguei a conversar com ela sobre o assunto. Já sentia vontade de fazer tratamento e fiquei animado com o que ouvi dela. Resolvi que era hora de procurar a cura. Há quatro meses estou fazendo terapia cognitiva-comportamental. Submeto-me a sessões de uma hora, duas vezes por semana. A autocura é possível, mas é muito difícil. Bom mesmo é ter um terapeuta cuidando de cada aspecto do transtorno. Hoje já existem muitos terapeutas especializados em TOC. É um distúrbio que atinge, em diferentes níveis, 3% da população brasileira.

VOCÊ TOMA REMÉDIOS PARA COMBATER O TOC?
Não. No meu caso, em que não há sintomas graves, como ficar horas parado no mesmo lugar, não me foram receitados remédios. A cura pode demorar um pouquinho mais sem eles, mas é possível. Estou me curando apenas através da conversa com a terapeuta. A cura depende muito da vontade do paciente. Tem de ter coragem, disposição, empenho.

QUAL A REAÇÃO DAS PESSOAS QUANDO SABEM QUE VOCÊ SOFRE DE TOC?
É incrível, mas o TOC às vezes é tratado até como uma coisa engraçada. Há quem diga "Pára com isso, rapaz. Que bobagem!". No filme Melhor É Impossível, em que o personagem de Jack Nicholson sofre de TOC, o transtorno também é mostrado de forma meio cômica. Mas não é nada disso. O TOC é uma coisa muito séria, que perturba muito. Quem o tem deve procurar um terapeuta o mais rápido possível.

POR QUE VOCÊ DEMOROU PARA PROCURAR UM TERAPEUTA?
Gostaria de tê-lo feito antes. Teria sido bom para mim. Mas, de qualquer maneira, sinto que estou melhor a cada dia que passa. Estou um pouco mais solto.

ESSE ESTADO DE ESPÍRITO PARECE SE REFLETIR EM SEUS SHOWS, QUE ESTÃO MAIS ALEGRES. ISSO É RESULTADO DO TRATAMENTO?
Pra Sempre é um show romântico com mais ritmo que o anterior, é mais dinâmico, com músicas que eu não cantava havia algum tempo, mas isso não é resultado das minhas mudanças. Faz parte da minha proposta de variar de um show para outro. Sempre falando de amor na sua forma eterna, como diz a canção que dá título ao espetáculo.

VOCÊ CONSIDERA QUE ESTÁ COM AS FORÇAS RENOVADAS PARA SEGUIR NA CARREIRA?
Renovadas não é o termo correto. Na verdade, todos os dias eu uso de muita força para seguir meu caminho, e cuido da minha carreira com muito empenho, cuidado e atenção.

TEM COMPOSTO NOVAS MÚSICAS?
Lancei novas canções no CD Pra Sempre e, agora, continuo compondo. Até já liguei para o Erasmo Carlos e combinei de trabalharmos juntos para o próximo CD.

É VERDADE QUE VOCÊ ESTA NAMORANDO MARIA DE FÁTIMA BARBOSA, SECRETÁRIA DO EX-PRESIDENTE FERNANDO HENRIQUE CARDOSO NO PALÁCIO DO PLANALTO E HOJE BRAÇO-DIREITO DO GOVERNADOR DE MINAS GERAIS, AÉCIO NEVES?
É um exagero o que inventam de boatos a meu respeito. Vi a Maria de Fátima três vezes no período de um ano, nos camarins de meus shows, sempre cercada por grupos de amigos que costumo receber depois dos espetáculos. E de repente vejo esses boatos circulando. Não tem nada a ver.

 
 
 
 
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