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Saúde Morte
ao vivo
Exames cardiológicos indicavam que Serginho não poderia jogar
futebol. E os dirigentes do São Caetano sabiam disso
 Anna
Paula Buchalla e Karina Pastore
Nelson
Coelho/Diário de São Paulo/Ag. Globo
 | | Serginho
é socorrido no gramado pelos médicos do São Paulo, José Sanches (de agasalho
branco), e do São Caetano, Paulo Forte (ao lado de Sanches): precariedade
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No dia 11 de
fevereiro deste ano, os jogadores do São Caetano foram submetidos a uma
série de exames de rotina no Instituto do Coração (Incor),
de São Paulo. Durante a realização de um ecocardiograma,
detectou-se que o coração do zagueiro Paulo Sérgio de Oliveira
Silva, o Serginho, apresentava uma arritmia anormalidade na freqüência
cardíaca. No dia seguinte, ele voltou ao hospital para uma investigação
mais detalhada e passou por uma cintilografia. Em 19 de fevereiro saiu o resultado:
"O estudo evidencia hipomotilidade difusa discreta do ventrículo esquerdo",
lê-se no laudo de número 12.000-0. Ou seja, o coração
do atleta não funcionava bem batia num ritmo desordenado e tinha
dificuldade para bombear sangue para o resto do corpo. Novos testes foram feitos
no Incor e um cateterismo, de 29 de junho, confirmou: apesar de nenhuma artéria
estar comprometida, o coração do jogador estava dilatado e com suas
funções comprometidas. De acordo com as diretrizes médicas
internacionais, uma pessoa nessas condições deve ser proibida de
praticar exercícios físicos extenuantes. Isso significa, portanto,
que Serginho não poderia jogar futebol. Mas, com a anuência dos dirigentes
do São Caetano, ele continuou a jogar. Às 21h49 de quarta-feira
passada, aos 13 minutos e 49 segundos do segundo tempo do jogo do São Caetano
contra o São Paulo, Serginho caiu fulminado por um ataque cardíaco
no gramado do Estádio do Morumbi. Menos de uma hora depois, o jogador,
de 30 anos, foi oficialmente dado como morto. "Era uma tragédia anunciada",
diz o cardiologista Nabil Ghorayeb, do Hospital do Coração de São
Paulo. Uma tragédia pela qual o São Caetano pode ser responsabilizado
judicialmente. "Se o clube permitiu que ele jogasse, assumiu a responsabilidade
objetiva pelo fato (a morte)", diz o advogado trabalhista Paulo Sergio
João, do escritório Mattos Filho Advogados, um dos mais respeitados
de São Paulo.
A diretoria do São Caetano sabia dos problemas cardíacos de Serginho
"um probleminha no coração", definiu Nairo Ferreira de Souza,
presidente do clube, ao repórter José Edward. Os resultados de todos
os exames foram passados ao jogador pelo médico do time, Paulo Forte. Segundo
os familiares de Serginho, os dirigentes do São Caetano disseram que os
médicos do Incor haviam afirmado que o que fora detectado era apenas uma
"arritmia simples", que não impediria o jogador de continuar no futebol.
"Ele ficou radiante", conta Ana, a mãe de Serginho. Quando o filho recebeu
o laudo das últimas avaliações, telefonou contente para Ana
e avisou: "Não tenho nada sério, não. Só tenho de
evitar alimentos com cafeína". Nos últimos meses, Serginho só
bebia suco e leite achocolatado. A mulher, Helaine Cunha, completa: "O médico
Paulo Forte, do São Caetano, disse que o risco de ele ter um problema era
de menos de 1% e que poderia acontecer num jogo de futebol ou tomando banho".
É tudo muito estranho. Em primeiro lugar, os médicos do Incor negam
que tenham dito aos dirigentes do São Caetano que Serginho tinha um problema
cardíaco desprezível. Em segundo, há arritmias mais ou menos
graves, mas qualquer arritmia é um problema cardíaco que deve ser
tratado como tal. Na maioria dos casos, mesmo nos mais leves, os pacientes têm
de tomar medicamentos para regularizar os batimentos do coração.
Serginho, entretanto, não tomava nenhum remédio.
Os onze cardiologistas ouvidos por VEJA são unânimes: em casos como
o de Serginho, a atividade física puxada potencializa os riscos de morte
súbita e, por isso, deve ser terminantemente proibida (veja quadro).
Os dirigentes do São Caetano fizeram de tudo para esconder o estado de
saúde de Serginho. "O pessoal do São Caetano e os empresários
do meu marido pediram para que nós não revelássemos que ele
havia feito um cateterismo. Isso poderia atrapalhar futuras negociações
com clubes estrangeiros", diz Helaine. Nas duas últimas partidas, contra
o Paysandu e o Fluminense, olheiros de times da França e da Rússia
estiveram nos estádios para ver Serginho jogar. O zagueiro tinha planos
de passar uma temporada no exterior, juntar dinheiro, voltar para o Brasil e comprar
uma casa para ele, a mulher e o filho de 4 anos em Coronel Fabriciano, no interior
de Minas Gerais. Entre a primeira bateria de exames e a segunda, preocupado, Serginho
cogitou procurar, por conta própria, outros cardiologistas, diz Helaine.
Mas foi desencorajado pelos dirigentes do São Caetano. Depois da morte
do jogador, noticiou-se que ele estava ciente da precariedade de seu estado de
saúde e que havia assinado um documento em que assumia a responsabilidade
dos riscos que corria caso entrasse em campo. Ao longo da semana, no entanto,
parentes, amigos e até o presidente do clube negaram essa informação.
Mesmo se o documento existisse, o São Caetano não estaria isento
da responsabilidade pelo que aconteceu.
Quando caiu no gramado do Morumbi, Serginho poderia ter sido salvo. Mas o que
se viu foi um espetáculo de desespero e falta de recursos. Parte dele o
Brasil acompanhou ao vivo, pela televisão. O jogador abaixou a cabeça,
dobrou os joelhos e caiu. Em quinze segundos, o massagista e o médico do
São Caetano iniciaram o procedimento de emergência respiração
boca-a-boca e massagem cardíaca. Em seguida, percebendo a gravidade da
situação, o médico do São Paulo, José Sanches,
correu em auxílio do jogador. Durante três minutos, eles tentaram
reanimar Serginho. Como não havia nenhum desfibrilador portátil
no campo (veja quadro ao lado), só na ambulância que o levaria
ao hospital o jogador foi submetido ao tratamento de choque com esse aparelho
essencial para casos de emergências cardíacas aparelho que
os times Palmeiras e Corinthians carregam consigo. Já haviam se passado,
então, três minutos e treze segundos. "O desfibrilador foi usado
com atraso", diz o cardiologista Mario Maranhão. "Depois de três
minutos da parada cardíaca, as chances de salvar o paciente são
praticamente nulas." Às 22h45, a morte de Serginho foi anunciada por Nairo
Ferreira de Souza, presidente do São Caetano. Na sexta-feira, a Polícia
Civil abriu inquérito para investigar o episódio. Jogar futebol
não é uma atividade arriscada do ponto de vista cardíaco.
Há 11 000 jogadores profissionais no Brasil, e a morte de Serginho é
a primeira em dezoito anos. Mas isso não justifica o despreparo nem a leniência.
CHOQUES QUE
SALVAM A causa
mais comum de morte súbita, que de vez em quando vitima jogadores de futebol,
como Serginho, é a arritmia cardíaca, ou fibrilação
ventricular, em linguagem técnica. O coração passa a bater
descontroladamente fibrila , e há casos em que ele chega a
700 batimentos por minuto, dez vezes acima do normal. Se a vítima não
for socorrida em poucos minutos, a morte é certa. Não é por
outro motivo que os médicos insistem para que os locais públicos
tenham desfibriladores à mão. O choque elétrico causado pelo
aparelho faz com que o coração volte a bater em seu ritmo normal.
"Se o equipamento for usado no local da emergência, a vítima tem
70% de chances de sobreviver. Se esperar até chegar ao hospital, esse número
cai para 2%", diz o cardiologista Sérgio Timerman, presidente da Fundação
Interamericana do Coração. Nos últimos anos, os desfibriladores
passaram a ser acessíveis ao público em geral. São pequenos,
portáteis (pesam em média 5 quilos) e fáceis de usar
alguns contam até com um comando de voz que dita passo a passo como deve
ser sua utilização. Para os grandes times, o gasto com esse tipo
de aparelho é irrisório 6 000 reais. Apesar disso, poucos
clubes de futebol no Brasil têm o desfibrilador portátil. Entre eles,
os paulistas Palmeiras e Corinthians. Estudos
feitos em vários países confirmam que o desfibrilador é capaz
de aumentar de forma extraordinária a sobrevida de pacientes cardíacos.
Na cidade de Piacenza, na Itália, apenas 4% das vítimas de um ataque
súbito do coração sobreviviam. Com o uso massivo do desfibrilador,
esse índice subiu para 45%. Na capital da Holanda, Amsterdã, a sobrevida
passou de 2% para 40%, e em Palm Beach, nos Estados Unidos, a média de
sobrevivência pulou de 3% para 56% depois que se passou a utilizar o equipamento
em locais públicos. Os médicos consideram o desfibrilador tão
essencial que as futuras diretrizes da American Heart Association, a Sociedade
Americana do Coração, a ser adotadas a partir de agosto de 2005,
incluirão a desfibrilação como procedimento-padrão
nos socorros de emergência. | |
Com
reportagem de José Edward, de
Coronel Fabriciano, e Giuliana Bergamo |