Edição 1878 . 3 de novembro de 2004

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Saúde
Morte ao vivo

Exames cardiológicos indicavam que
Serginho não poderia jogar futebol. E os
dirigentes do São Caetano sabiam disso


Anna Paula Buchalla e Karina Pastore

Nelson Coelho/Diário de São Paulo/Ag. Globo
Serginho é socorrido no gramado pelos médicos do São Paulo, José Sanches (de agasalho branco), e do São Caetano, Paulo Forte (ao lado de Sanches): precariedade


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Coração fraco

No dia 11 de fevereiro deste ano, os jogadores do São Caetano foram submetidos a uma série de exames de rotina no Instituto do Coração (Incor), de São Paulo. Durante a realização de um ecocardiograma, detectou-se que o coração do zagueiro Paulo Sérgio de Oliveira Silva, o Serginho, apresentava uma arritmia – anormalidade na freqüência cardíaca. No dia seguinte, ele voltou ao hospital para uma investigação mais detalhada e passou por uma cintilografia. Em 19 de fevereiro saiu o resultado: "O estudo evidencia hipomotilidade difusa discreta do ventrículo esquerdo", lê-se no laudo de número 12.000-0. Ou seja, o coração do atleta não funcionava bem – batia num ritmo desordenado e tinha dificuldade para bombear sangue para o resto do corpo. Novos testes foram feitos no Incor e um cateterismo, de 29 de junho, confirmou: apesar de nenhuma artéria estar comprometida, o coração do jogador estava dilatado e com suas funções comprometidas. De acordo com as diretrizes médicas internacionais, uma pessoa nessas condições deve ser proibida de praticar exercícios físicos extenuantes. Isso significa, portanto, que Serginho não poderia jogar futebol. Mas, com a anuência dos dirigentes do São Caetano, ele continuou a jogar. Às 21h49 de quarta-feira passada, aos 13 minutos e 49 segundos do segundo tempo do jogo do São Caetano contra o São Paulo, Serginho caiu fulminado por um ataque cardíaco no gramado do Estádio do Morumbi. Menos de uma hora depois, o jogador, de 30 anos, foi oficialmente dado como morto. "Era uma tragédia anunciada", diz o cardiologista Nabil Ghorayeb, do Hospital do Coração de São Paulo. Uma tragédia pela qual o São Caetano pode ser responsabilizado judicialmente. "Se o clube permitiu que ele jogasse, assumiu a responsabilidade objetiva pelo fato (a morte)", diz o advogado trabalhista Paulo Sergio João, do escritório Mattos Filho Advogados, um dos mais respeitados de São Paulo.

A diretoria do São Caetano sabia dos problemas cardíacos de Serginho – "um probleminha no coração", definiu Nairo Ferreira de Souza, presidente do clube, ao repórter José Edward. Os resultados de todos os exames foram passados ao jogador pelo médico do time, Paulo Forte. Segundo os familiares de Serginho, os dirigentes do São Caetano disseram que os médicos do Incor haviam afirmado que o que fora detectado era apenas uma "arritmia simples", que não impediria o jogador de continuar no futebol. "Ele ficou radiante", conta Ana, a mãe de Serginho. Quando o filho recebeu o laudo das últimas avaliações, telefonou contente para Ana e avisou: "Não tenho nada sério, não. Só tenho de evitar alimentos com cafeína". Nos últimos meses, Serginho só bebia suco e leite achocolatado. A mulher, Helaine Cunha, completa: "O médico Paulo Forte, do São Caetano, disse que o risco de ele ter um problema era de menos de 1% e que poderia acontecer num jogo de futebol ou tomando banho". É tudo muito estranho. Em primeiro lugar, os médicos do Incor negam que tenham dito aos dirigentes do São Caetano que Serginho tinha um problema cardíaco desprezível. Em segundo, há arritmias mais ou menos graves, mas qualquer arritmia é um problema cardíaco que deve ser tratado como tal. Na maioria dos casos, mesmo nos mais leves, os pacientes têm de tomar medicamentos para regularizar os batimentos do coração. Serginho, entretanto, não tomava nenhum remédio.

Os onze cardiologistas ouvidos por VEJA são unânimes: em casos como o de Serginho, a atividade física puxada potencializa os riscos de morte súbita e, por isso, deve ser terminantemente proibida (veja quadro). Os dirigentes do São Caetano fizeram de tudo para esconder o estado de saúde de Serginho. "O pessoal do São Caetano e os empresários do meu marido pediram para que nós não revelássemos que ele havia feito um cateterismo. Isso poderia atrapalhar futuras negociações com clubes estrangeiros", diz Helaine. Nas duas últimas partidas, contra o Paysandu e o Fluminense, olheiros de times da França e da Rússia estiveram nos estádios para ver Serginho jogar. O zagueiro tinha planos de passar uma temporada no exterior, juntar dinheiro, voltar para o Brasil e comprar uma casa para ele, a mulher e o filho de 4 anos em Coronel Fabriciano, no interior de Minas Gerais. Entre a primeira bateria de exames e a segunda, preocupado, Serginho cogitou procurar, por conta própria, outros cardiologistas, diz Helaine. Mas foi desencorajado pelos dirigentes do São Caetano. Depois da morte do jogador, noticiou-se que ele estava ciente da precariedade de seu estado de saúde e que havia assinado um documento em que assumia a responsabilidade dos riscos que corria caso entrasse em campo. Ao longo da semana, no entanto, parentes, amigos e até o presidente do clube negaram essa informação. Mesmo se o documento existisse, o São Caetano não estaria isento da responsabilidade pelo que aconteceu.

Quando caiu no gramado do Morumbi, Serginho poderia ter sido salvo. Mas o que se viu foi um espetáculo de desespero e falta de recursos. Parte dele o Brasil acompanhou ao vivo, pela televisão. O jogador abaixou a cabeça, dobrou os joelhos e caiu. Em quinze segundos, o massagista e o médico do São Caetano iniciaram o procedimento de emergência – respiração boca-a-boca e massagem cardíaca. Em seguida, percebendo a gravidade da situação, o médico do São Paulo, José Sanches, correu em auxílio do jogador. Durante três minutos, eles tentaram reanimar Serginho. Como não havia nenhum desfibrilador portátil no campo (veja quadro ao lado), só na ambulância que o levaria ao hospital o jogador foi submetido ao tratamento de choque com esse aparelho essencial para casos de emergências cardíacas – aparelho que os times Palmeiras e Corinthians carregam consigo. Já haviam se passado, então, três minutos e treze segundos. "O desfibrilador foi usado com atraso", diz o cardiologista Mario Maranhão. "Depois de três minutos da parada cardíaca, as chances de salvar o paciente são praticamente nulas." Às 22h45, a morte de Serginho foi anunciada por Nairo Ferreira de Souza, presidente do São Caetano. Na sexta-feira, a Polícia Civil abriu inquérito para investigar o episódio. Jogar futebol não é uma atividade arriscada do ponto de vista cardíaco. Há 11 000 jogadores profissionais no Brasil, e a morte de Serginho é a primeira em dezoito anos. Mas isso não justifica o despreparo nem a leniência.

 

CHOQUES QUE SALVAM

A causa mais comum de morte súbita, que de vez em quando vitima jogadores de futebol, como Serginho, é a arritmia cardíaca, ou fibrilação ventricular, em linguagem técnica. O coração passa a bater descontroladamente – fibrila –, e há casos em que ele chega a 700 batimentos por minuto, dez vezes acima do normal. Se a vítima não for socorrida em poucos minutos, a morte é certa. Não é por outro motivo que os médicos insistem para que os locais públicos tenham desfibriladores à mão. O choque elétrico causado pelo aparelho faz com que o coração volte a bater em seu ritmo normal. "Se o equipamento for usado no local da emergência, a vítima tem 70% de chances de sobreviver. Se esperar até chegar ao hospital, esse número cai para 2%", diz o cardiologista Sérgio Timerman, presidente da Fundação Interamericana do Coração. Nos últimos anos, os desfibriladores passaram a ser acessíveis ao público em geral. São pequenos, portáteis (pesam em média 5 quilos) e fáceis de usar – alguns contam até com um comando de voz que dita passo a passo como deve ser sua utilização. Para os grandes times, o gasto com esse tipo de aparelho é irrisório – 6 000 reais. Apesar disso, poucos clubes de futebol no Brasil têm o desfibrilador portátil. Entre eles, os paulistas Palmeiras e Corinthians.

Estudos feitos em vários países confirmam que o desfibrilador é capaz de aumentar de forma extraordinária a sobrevida de pacientes cardíacos. Na cidade de Piacenza, na Itália, apenas 4% das vítimas de um ataque súbito do coração sobreviviam. Com o uso massivo do desfibrilador, esse índice subiu para 45%. Na capital da Holanda, Amsterdã, a sobrevida passou de 2% para 40%, e em Palm Beach, nos Estados Unidos, a média de sobrevivência pulou de 3% para 56% depois que se passou a utilizar o equipamento em locais públicos. Os médicos consideram o desfibrilador tão essencial que as futuras diretrizes da American Heart Association, a Sociedade Americana do Coração, a ser adotadas a partir de agosto de 2005, incluirão a desfibrilação como procedimento-padrão nos socorros de emergência.

 

 

Com reportagem de José Edward,
de Coronel Fabriciano, e Giuliana Bergamo

 
 
 
 
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