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Computador A
3,6 GHz chegarás. Daí não passarás! A
ciência até consegue fazer chips mais velozes, mas o maior fabricante,
a Intel, desiste de explorar novos limites
 Marcelo
Carneiro
Os
computadores pessoais vendidos corriqueiramente nas lojas atualmente são
capazes de realizar mais de 3 bilhões de operações por segundo.
Teoricamente, a possibilidade de alcançar velocidade cada vez maior não
tem limites. Na prática, as coisas estão saindo um pouco do enredo.
Recentemente, o maior fabricante mundial de chips de computador, a Intel, jogou
a toalha. O presidente da empresa, Craig Barrett, anunciou o cancelamento da nova
versão do Pentium 4. Um dos mais aguardados microprocessadores do mercado,
o chip rodaria a uma freqüência de 4 gigahertz, o que significa a capacidade
de realizar 4 bilhões de operações por segundo (veja
quadro). Durante mais de duas décadas, a Intel nunca falhara na
produção periódica de chips cada vez mais velozes. O anúncio
da Intel foi solene. Barrett, com seu proverbial bom humor, ajoelhou-se diante
de seus colegas executivos e pediu desculpa pelo cancelamento dos projetos do
superchip.
O limite encontrado pela Intel não significa exatamente que a tecnologia
de miniaturização bateu com a cabeça em muro de concreto.
Não. Em laboratórios, os chips continuam sendo feitos com circuitos
cada vez mais delgados. Alguns já se aproximam de fiações
que têm a largura de um único átomo. Nem a barreira atômica
assusta os cientistas, pois os chamados chips quânticos feitos com
fiações menores do que o átomo podem ainda ser viabilizados.
O limite anunciado pela Intel é fruto de uma intrigante charada. O.k.,
os chips podem ficar ainda menores, mas, ao ser miniaturizados, eles esquentam
demais e isso exige ventiladores maiores e até radiadores a água
para resfriá-los. Podem ficar mais poderosos porém isso exige
que eles sejam alimentados com baterias mais eficientes, o que, no atual estágio
tecnológico, se traduz por baterias maiores.  | | Craig
Barrett, presidente da Intel: pedido público de desculpa |
Portanto, de que adianta miniaturizar ainda mais os chips se eles precisam para
funcionar de baterias volumosas e de complexos e pesados sistemas de resfriamento?
A saída mercadológica sugerida pela Intel é a atualmente
adotada pela Apple, fabricante dos computadores Macintosh: instalar placas não
com um, mas com dois chips. Trabalhando em conjunto, eles dobram a capacidade
de processamento dos computadores sem a necessidade de bilionários investimentos
em pesquisa e fábricas capazes de encapsular mais e mais transistores em
uma única peça. Em 1971, o primeiro chip de computador abrigava
cerca de 2.000 transistores em um espaço do tamanho de uma unha do dedo
polegar. Quanto mais transistores em um chip, maior é sua capacidade de
processamento de dados. Os microprocessadores atuais contêm até 400
milhões de transistores.
Durante as duas últimas décadas, a cada dezoito meses, em média,
a indústria colocou no mercado chips que dobravam a capacidade de processamento
de seu antecessor ao mesmo tempo que mantinha seu preço ou o elevava
ligeiramente. A esse comportamento constante se deu o nome de Lei de Moore, em
homenagem a seu formulador, o lendário engenheiro Gordon Moore, um dos
fundadores da Intel. A Lei de Moore foi revogada com a decisão da Intel
de cancelar o novo Pentium 4? Os especialistas reconhecem que na prática
a Intel e suas concorrentes estarão incapacitadas de continuar produzindo
peças cada vez menores e com o mesmo custo. Quanto ao limite físico
dos chips, ainda existe uma avenida pela frente. "Nos últimos vinte anos,
ouvi mais de vinte vezes que a Lei de Moore ia acabar e que, em algum momento,
nós íamos realmente chegar ao limite. Mas, a meu ver, o esgotamento
só deverá ocorrer em 2018", disse a VEJA, na quinta-feira passada,
Dave Gonzales, diretor de marketing da Intel para a América Latina. O executivo,
obviamente, reconhece a mudança na estratégia da empresa e completa:
"Hoje, nosso foco não é apenas a velocidade do chip, mas outros
atributos, como a memória, que trarão mais eficiência aos
computadores".
A produção de microprocessadores é um campo avançado
da tecnologia, mas os fundamentos da Lei de Moore dizem respeito tanto à
técnica quanto à economia. Durante anos, as empresas de computação,
com a Intel à frente, apostaram continuamente na produção
de equipamentos cada vez mais velozes. A equação era simples: a
cada novo lançamento no mercado, milhões de dólares entravam
em caixa, o que possibilitava o financiamento de linhas de pesquisa de novos produtos.
Esses produtos, por sua vez, também ganhavam as prateleiras, rendiam ainda
mais dinheiro para as companhias e sustentavam, assim, a geração
contínua desse ciclo não importava a que custo. Nos últimos
três anos, o mercado esfriou. Mesmo empresas do porte da Intel, que fatura
30 bilhões de dólares por ano e investe 4,4 bilhões em pesquisa
e desenvolvimento, tiraram o pé do acelerador. "Hoje o clima é de
apreensão e ceticismo, em razão de expectativas de mercado que não
se confirmaram", analisa Válter Moreno, coordenador do curso de sistemas
de informação do Ibmec-Rio de Janeiro.
Ultimamente, questiona-se até mesmo se é vital ter computador pessoal
de complexidade crescente. Qual a diferença, para um aluno que usa o micro
apenas para pesquisas na internet, se sua máquina tem 1 ou 3 gigahertz
de velocidade? É bem provável que ele não utilize nem a décima
parte do que computadores desse porte podem processar. Em maio do ano passado,
o professor americano e mestre em administração Nicholas Carr escreveu
um polêmico artigo na Harvard Business Review. Segundo Carr, as inovações
da chamada tecnologia da informação não têm, nem de
longe, a importância de algumas das transformações ocorridas
no mundo no século XIX, como a criação do motor a combustão
ou da rede sanitária. "Pergunte a si mesmo sem o que você não
conseguiria viver: um computador ou um banheiro? Uma conexão à internet
ou uma lâmpada?", provocou Carr, atraindo a ira de alguns dos principais
executivos de informática em todo o mundo. Entre eles, o próprio
Craig Barrett, que chegou a responder ao artigo do professor de Harvard. Paul
Sakuma/AP
 | | Moore,
o formulador da lei que levou seu nome e que pode ter sido revogada |
Quando
uma empresa desse porte pisca, a concorrência se anima. No caso da Intel,
que domina 80% do mercado mundial de microprocessadores, serviu de estímulo
a companhias menores, como a Advanced Micro Devices (AMD), que havia alguns anos
já apostavam que a velocidade do chip não seria, no futuro, o principal
diferencial do produto. Hoje, sabe-se que existem cerca de vinte características
dentro dos processadores que podem melhorar sua performance sem que seja necessário
avançar na velocidade do chip. "É como se, em um carro, você
não aumentasse a potência do motor, mas melhorasse sua aerodinâmica
e saísse de fábrica com rodas mais leves", diz Emílio Gimenez,
gerente de desenvolvimento de negócios da AMD para a América do
Sul. Há três anos, a empresa abandonou o foco na velocidade dos chips,
apostando na pesquisa de outras estratégias, como a colocação
de dois processadores em uma mesma máquina, e agora colhe os frutos. Atualmente,
a AMD detém 44,5% da participação no mercado brasileiro de
microprocessadores.
A discussão sobre o futuro dos computadores está diretamente ligada
à saúde do setor no mundo dos negócios. Hoje, o mercado de
tecnologia da informação já alcançou a cifra de 1
trilhão de dólares e responde, sozinho, por 10% da economia dos
Estados Unidos. Empresas como IBM e Microsoft e a própria Intel lideram
a corrida nas áreas de pesquisa e desenvolvimento, em uma guerra comercial
cujo objetivo é o lançamento de produtos antes da concorrência.
É essa disputa que tornará viável, ainda por alguns anos,
a permanência da regra criada por Gordon E. Moore. Pelos padrões
tecnológicos atuais já é possível criar em laboratório
protótipos de chips com velocidade de até 10 gigahertz. Quando o
limite será atingido é difícil precisar. Conclui Luiz Felipe
Magalhães, professor do Programa de Engenharia de Sistemas e Computação
da Coppe-Universidade Federal do Rio de Janeiro: "Sabe-se que é quase impossível
um atleta correr os 100 metros rasos abaixo dos oito segundos. Mas até
este limite os recordes continuarão a ser batidos". |