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Corrupção
Sujeira para todo lado Deputado
que tentou extorquir
4 milhões de reais não agiu só. Fita mostra ação
do presidente da CPI
 Policarpo
Junior Alaor
Filho/AE
 | | Calazans,
na cabeceira da mesa, de terno escuro: votação do relatório feita às pressas |
Na semana passada, o deputado federal André Luiz, do PMDB do Rio de Janeiro,
não tinha amigos nem aliados, pelo menos em público. Seu isolamento
deveu-se à denúncia publicada por VEJA segundo a qual o deputado
tentou extorquir 4 milhões de reais do empresário de jogos Carlos
Cachoeira. As negociações da extorsão, todas gravadas por
emissários de Cachoeira, sugerem que André Luiz agia em nome de
um grupo de deputados. Um deles era Jorge Picciani, presidente da Assembléia
Legislativa. "Se alguém tentou vender alguma facilidade, entendo que é
bandido com bandido", reagiu Picciani, a quem André Luiz trata, nas conversas
gravadas, como "meu irmão, meu parceiro". O outro envolvido no golpe, de
acordo com o que André Luiz diz nas gravações, era o deputado
Alessandro Calazans, presidente da CPI da Loterj, cujo relatório final
não pediria a prisão preventiva de Cachoeira caso os 4 milhões
de reais fossem pagos. Calazans nem tentou defender o companheiro e saiu logo
dizendo que não tinha nada a ver com isso. "Era um vôo-solo de André
Luiz." Não era bem assim.
"Na
verdade, a orientação foi para passar aquela andorinha. Isso sensibilizava, e
a gente ia ver o que ia acontecer... Era parte do 1 milhão e 500!" Alessandro
Calazans, presidente da CPI, falando do dinheiro, ao qual se refere como "andorinha" |
| Os
emissários de Cachoeira estiveram com o deputado Calazans duas vezes, ambas
no Rio. O último encontro ocorreu em 17 de agosto, uma terça-feira,
no gabinete do deputado na Assembléia Legislativa. A conversa, para infelicidade
de Calazans, também foi gravada. Os representantes de Cachoeira chegaram
à Assembléia por volta das 5 horas da tarde e, sentados num sofá
de couro preto, ficaram esperando pelo deputado pouco mais de dez minutos. Calazans
em seguida apareceu na ante-sala. "Tudo bem? Tranqüilo? Tudo jóia?
Na luta aí?", cumprimentou. Dos dois enviados de Cachoeira, Calazans conhecia
um deles do encontro anterior. Seu conhecido, então, foi convidado a entrar
no gabinete, enquanto o outro ficou esperando do lado de fora. Querendo despistar
eventuais microfones clandestinos no gabinete, Calazans ligou a televisão
e, com o controle remoto, colocou-a no volume máximo e começou
a negociação. O interlocutor lembrou o que queria: "O que nos interessa
é tirar o pedido de prisão. Alguém poderia apresentar um
destaque. O que o senhor acha?". Em resposta, Calazans relembrou um incidente:
dias antes, o deputado Bispo Rodrigues soube da extorsão patrocinada por
André Luiz e denunciou o caso ao presidente da Assembléia.
"Agora ficou ruim, ficou tumultuado",
disse Calazans. "Ele zoneou a p... toda", completou, numa referência ao
efeito desorganizador da denúncia do Bispo Rodrigues. Calazans contou que
a acusação provocou um desentendimento no grupo de deputados envolvidos
no esquema. Eles acharam que Cachoeira havia desembolsado o dinheiro da extorsão
que, nessa altura da negociação, girava em torno de 1,5 milhão
de reais e foram cobrar sua parte junto ao deputado Calazans. Nas palavras
do deputado: "Os caras não entenderam nada. Nego veio atrás de mim.
Eu disse: 'Cobra de quem vendeu'.". Em seguida, Calazans, que em vez de falar
a palavra "dinheiro" prefere falar "andorinha", explica como seria a votação
caso tudo tivesse ocorrido segundo o combinado: Cachoeira daria um adiantamento,
os deputados votariam o relatório da CPI e, se as coisas se desdobrassem
nos termos negociados, o restante do 1,5 milhão seria liberado. Nas palavras
do deputado, conforme a gravação: "Na verdade, a orientação
foi para passar aquela andorinha. Isso sensibilizava, e a gente ia ver o que ia
acontecer... Era parte do 1 milhão e 500", diz ele, trocando "dinheiro"
pelo exótico eufemismo voador.
MR
Santos/AE
 | | André
Luiz, após o acidente: isolado |
O
último encontro entre os emissários de Cachoeira e o deputado Calazans
foi rápido. Durou seis minutos e 28 segundos. Antes de encerrar a conversa,
Calazans ainda recomendou que seu interlocutor tentasse resolver o problema de
Cachoeira junto a outro deputado. Em vez de falar o nome do deputado, Calazans
pegou um bloco de papel timbrado da Assembléia Legislativa, rabiscou algo
no papelucho e mostrou-o ao seu interlocutor. "No papel, estava escrito o nome
de Paulo Melo", conta o enviado de Cachoeira, que pede que não seja identificado.
O deputado Paulo Melo é o relator da CPI da Loterj. No dia seguinte à
conversa, casualmente, os dois enviados de Cachoeira encontraram-se com Calazans
no Aeroporto Santos Dumont. Todos viajaram para Brasília a bordo do vôo
2604, da Varig. Mais tarde, num sinal de intimidade, Calazans relatou a conversa
com o emissário de Cachoeira para seu amigo André Luiz, o homem
de frente do esquema. André Luiz, em reunião com o pessoal de Cachoeira
no dia 6 de outubro, comentou o fato. "O Calazans falou com um de vocês,
não foi?", disse ele.
O deputado Alessandro Calazans, do Partido Verde, que exerce seu segundo mandato
de parlamentar no Rio, procurou tomar distância de André Luiz na
semana passada com o objetivo de neutralizar as suspeitas de sua participação
no esquema. Ele reconheceu que esteve duas vezes na casa de André Luiz
em Brasília, situada no Lago Sul, o bairro chique da capital, mas esclareceu
que fora convidado para um churrasco nas duas ocasiões e que havia
uma porção de gente nos eventos. "São churrascos que ele
faz e onde sempre tem vários políticos", disse. Acontece que suas
ligações com André Luiz parecem indisfarçáveis,
conforme se constata nos registros gravados. Num deles, de 17 de setembro, André
Luiz comentou sua íntima relação com Calazans. "É
só eu chamar que ele vem", disse. Em seguida, num tom que sugere confidência,
narrou que, para alegrar um entristecido Calazans, lhe deu de presente uns 20.000
reais. "Um dia eu estava na campanha, vi o Calazans de cabeça baixa. Eu
falei: 'O que foi, Calazans?'. Tinha uma votação cedo para acertar
coisas do governo. Eu ainda tinha na valise 20.000. 'Toma lá!'."
Na terça-feira passada, a Assembléia Legislativa do Rio aprovou
o relatório da CPI da Loterj por unanimidade dos presentes, pedindo à
Justiça que decrete a prisão de Cachoeira e do ex-assessor da Casa
Civil Waldomiro Diniz. O placar foi de 58 votos a zero. A votação
havia sido convocada às pressas, numa faina incompreensível para
quem diz que nada existia de errado nos bastidores da CPI. À última
hora, o nome do Bispo Rodrigues foi incluído no rol dos indiciados no relatório
final, embora não se saiba o motivo. "Foi retaliação", desconfia
o Bispo Rodrigues. Em Brasília, o presidente da Câmara dos Deputados,
o petista João Paulo Cunha, mandou abrir uma sindicância para investigar
o caso. No fim do processo, caso se comprove a tentativa de extorsão, André
Luiz pode ser cassado. Na mesma terça-feira, tentando fugir do assédio
da imprensa, o deputado, que normalmente se desloca para Brasília de avião,
resolveu viajar de carro a partir de São Paulo. A certa altura do trajeto,
ao ser fechado por um caminhão na Rodovia Anhangüera, sofreu um leve
acidente. Saiu com um hematoma no olho. Desse acidente, porém, André
Luiz passa bem.
TODOS SE ENCONTRAM NO RIO
Ricardo
Leonin/Ag. O Globo
 | Uanderson
Fernandes/Ag. O Dia/AEo
 | | Garotinho
(acima) e Silveirinha: há sempre um elo de ligação na política fluminense
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Mais
impressionante do que a sucessão de escândalos políticos que
têm como palco o Rio de Janeiro é a forma como seus personagens acabam
sempre tendo algum grau de relacionamento. É como na trama de uma novela:
as histórias podem até não se cruzar, mas os personagens
sempre acabam tendo algo em comum. Veja-se o caso das fitas reveladas agora. Nelas,
surge a figura do deputado federal André Luiz, do PMDB, protagonista da
história. Quando era deputado estadual, seu nome esteve ligado a outro
caso rumoroso. Em 1999, diretores da Light, companhia de eletricidade do Estado,
documentaram em fitas de vídeo o desenrolar de uma extorsão. Numa
sala da empresa, um de seus funcionários recebia o vendedor Romeu Sufan,
que se dizia assessor de André Luiz. Circulava inclusive com cartões
de visita de seu gabinete. Na Assembléia Legislativa, era conhecida sua
ligação com o deputado. Ali, em frente ao executivo da Light, Sufan
prometia dar sumiço em autos de infração milionários
aplicados por fiscais da Receita estadual. A participação de André
Luiz no caso Light nunca foi comprovada, mas o histórico de coincidências
não se encerra por aí. Os
fiscais a que Sufan se referia eram Carlos Eduardo Pereira Ramos e Rômulo
Gonçalves. Vêm a ser dois dos expoentes do que ficou conhecido como
o escândalo do propinoduto, em que pelo menos 33 milhões de dólares
foram parar em contas na Suíça, em nome de funcionários das
receitas federal e estadual. O esquema do propinoduto, descobriu-se, tinha como
mentor o ex-subsecretário adjunto da Fazenda Rodrigo Silveirinha. Pois
é a figura de Silveirinha que estabelece outra curiosa ligação.
Na época em que foi flagrado com uma conta-corrente milionária na
Suíça, o ex-subsecretário era um colaborador ativo do ex-governador
Anthony Garotinho e de sua mulher, a governadora Rosinha. Chegou a fazer parte
de um grupo seleto de assessores que freqüentou reuniões na casa do
ex-governador, durante a campanha eleitoral de 2002. Que fique claro: não
surgiu, até agora, prova da participação do ex-governador
Garotinho no esquema do propinoduto. Eis
que surge, na casa da família de Garotinho, outro elo dessa história.
O hoje deputado estadual Alessandro Calazans, do PV, conhecido pelos modos gentis
e pela boa aparência, teve relativa proximidade com a família. Ficou
muito amigo, apenas bons amigos, disseram na ocasião, da filha mais velha
do casal, Clarissa Matheus, uma bela jovem, hoje com 22 anos. Era o início
do governo de Garotinho e Calazans caiu no gosto do governador, que operou sua
ascensão profissional. Calazans era suplente de uma vaga na Assembléia
e, com a nomeação do titular para uma secretaria, virou deputado
estadual. Desde então, é conhecida sua tendência a votar favoravelmente
aos projetos de interesse do governo. Mesmo agora, em seu segundo mandato. Outro
dos citados nas fitas por André Luiz, o senador Sérgio Cabral, do
PMDB, também é um importante aliado político do ex-governador
Garotinho. Mas coincidência maior é o fato de que, quando presidente
da Assembléia Legislativa fluminense, Cabral tinha entre seus assessores
a mulher de Silveirinha, Silvana. Como se vê, em algum momento eles todos
acabam se encontrando. É a política fluminense, esta sim, que está
cada vez mais perdida. | | |