Edição 1878 . 3 de novembro de 2004

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Corrupção
Sujeira para todo lado

Deputado que tentou extorquir 4 milhões
de reais não agiu só. Fita mostra ação
do presidente da CPI


Policarpo Junior

 
Alaor Filho/AE
Calazans, na cabeceira da mesa, de terno escuro: votação do relatório feita às pressas

Na semana passada, o deputado federal André Luiz, do PMDB do Rio de Janeiro, não tinha amigos nem aliados, pelo menos em público. Seu isolamento deveu-se à denúncia publicada por VEJA segundo a qual o deputado tentou extorquir 4 milhões de reais do empresário de jogos Carlos Cachoeira. As negociações da extorsão, todas gravadas por emissários de Cachoeira, sugerem que André Luiz agia em nome de um grupo de deputados. Um deles era Jorge Picciani, presidente da Assembléia Legislativa. "Se alguém tentou vender alguma facilidade, entendo que é bandido com bandido", reagiu Picciani, a quem André Luiz trata, nas conversas gravadas, como "meu irmão, meu parceiro". O outro envolvido no golpe, de acordo com o que André Luiz diz nas gravações, era o deputado Alessandro Calazans, presidente da CPI da Loterj, cujo relatório final não pediria a prisão preventiva de Cachoeira caso os 4 milhões de reais fossem pagos. Calazans nem tentou defender o companheiro e saiu logo dizendo que não tinha nada a ver com isso. "Era um vôo-solo de André Luiz." Não era bem assim.

 
"Na verdade, a orientação foi para passar aquela andorinha. Isso sensibilizava, e a gente ia ver o que ia acontecer... Era parte do 1 milhão e 500!"
Alessandro Calazans, presidente da CPI, falando do dinheiro, ao qual se refere como "andorinha"

Os emissários de Cachoeira estiveram com o deputado Calazans duas vezes, ambas no Rio. O último encontro ocorreu em 17 de agosto, uma terça-feira, no gabinete do deputado na Assembléia Legislativa. A conversa, para infelicidade de Calazans, também foi gravada. Os representantes de Cachoeira chegaram à Assembléia por volta das 5 horas da tarde e, sentados num sofá de couro preto, ficaram esperando pelo deputado pouco mais de dez minutos. Calazans em seguida apareceu na ante-sala. "Tudo bem? Tranqüilo? Tudo jóia? Na luta aí?", cumprimentou. Dos dois enviados de Cachoeira, Calazans conhecia um deles do encontro anterior. Seu conhecido, então, foi convidado a entrar no gabinete, enquanto o outro ficou esperando do lado de fora. Querendo despistar eventuais microfones clandestinos no gabinete, Calazans ligou a televisão e, com o controle remoto, colocou-a no volume máximo – e começou a negociação. O interlocutor lembrou o que queria: "O que nos interessa é tirar o pedido de prisão. Alguém poderia apresentar um destaque. O que o senhor acha?". Em resposta, Calazans relembrou um incidente: dias antes, o deputado Bispo Rodrigues soube da extorsão patrocinada por André Luiz e denunciou o caso ao presidente da Assembléia.

"Agora ficou ruim, ficou tumultuado", disse Calazans. "Ele zoneou a p... toda", completou, numa referência ao efeito desorganizador da denúncia do Bispo Rodrigues. Calazans contou que a acusação provocou um desentendimento no grupo de deputados envolvidos no esquema. Eles acharam que Cachoeira havia desembolsado o dinheiro da extorsão – que, nessa altura da negociação, girava em torno de 1,5 milhão de reais – e foram cobrar sua parte junto ao deputado Calazans. Nas palavras do deputado: "Os caras não entenderam nada. Nego veio atrás de mim. Eu disse: 'Cobra de quem vendeu'.". Em seguida, Calazans, que em vez de falar a palavra "dinheiro" prefere falar "andorinha", explica como seria a votação caso tudo tivesse ocorrido segundo o combinado: Cachoeira daria um adiantamento, os deputados votariam o relatório da CPI e, se as coisas se desdobrassem nos termos negociados, o restante do 1,5 milhão seria liberado. Nas palavras do deputado, conforme a gravação: "Na verdade, a orientação foi para passar aquela andorinha. Isso sensibilizava, e a gente ia ver o que ia acontecer... Era parte do 1 milhão e 500", diz ele, trocando "dinheiro" pelo exótico eufemismo voador.

MR Santos/AE
André Luiz, após o acidente: isolado

O último encontro entre os emissários de Cachoeira e o deputado Calazans foi rápido. Durou seis minutos e 28 segundos. Antes de encerrar a conversa, Calazans ainda recomendou que seu interlocutor tentasse resolver o problema de Cachoeira junto a outro deputado. Em vez de falar o nome do deputado, Calazans pegou um bloco de papel timbrado da Assembléia Legislativa, rabiscou algo no papelucho e mostrou-o ao seu interlocutor. "No papel, estava escrito o nome de Paulo Melo", conta o enviado de Cachoeira, que pede que não seja identificado. O deputado Paulo Melo é o relator da CPI da Loterj. No dia seguinte à conversa, casualmente, os dois enviados de Cachoeira encontraram-se com Calazans no Aeroporto Santos Dumont. Todos viajaram para Brasília a bordo do vôo 2604, da Varig. Mais tarde, num sinal de intimidade, Calazans relatou a conversa com o emissário de Cachoeira para seu amigo André Luiz, o homem de frente do esquema. André Luiz, em reunião com o pessoal de Cachoeira no dia 6 de outubro, comentou o fato. "O Calazans falou com um de vocês, não foi?", disse ele.

O deputado Alessandro Calazans, do Partido Verde, que exerce seu segundo mandato de parlamentar no Rio, procurou tomar distância de André Luiz na semana passada com o objetivo de neutralizar as suspeitas de sua participação no esquema. Ele reconheceu que esteve duas vezes na casa de André Luiz em Brasília, situada no Lago Sul, o bairro chique da capital, mas esclareceu que fora convidado para um churrasco nas duas ocasiões – e que havia uma porção de gente nos eventos. "São churrascos que ele faz e onde sempre tem vários políticos", disse. Acontece que suas ligações com André Luiz parecem indisfarçáveis, conforme se constata nos registros gravados. Num deles, de 17 de setembro, André Luiz comentou sua íntima relação com Calazans. "É só eu chamar que ele vem", disse. Em seguida, num tom que sugere confidência, narrou que, para alegrar um entristecido Calazans, lhe deu de presente uns 20.000 reais. "Um dia eu estava na campanha, vi o Calazans de cabeça baixa. Eu falei: 'O que foi, Calazans?'. Tinha uma votação cedo para acertar coisas do governo. Eu ainda tinha na valise 20.000. 'Toma lá!'."

Na terça-feira passada, a Assembléia Legislativa do Rio aprovou o relatório da CPI da Loterj por unanimidade dos presentes, pedindo à Justiça que decrete a prisão de Cachoeira e do ex-assessor da Casa Civil Waldomiro Diniz. O placar foi de 58 votos a zero. A votação havia sido convocada às pressas, numa faina incompreensível para quem diz que nada existia de errado nos bastidores da CPI. À última hora, o nome do Bispo Rodrigues foi incluído no rol dos indiciados no relatório final, embora não se saiba o motivo. "Foi retaliação", desconfia o Bispo Rodrigues. Em Brasília, o presidente da Câmara dos Deputados, o petista João Paulo Cunha, mandou abrir uma sindicância para investigar o caso. No fim do processo, caso se comprove a tentativa de extorsão, André Luiz pode ser cassado. Na mesma terça-feira, tentando fugir do assédio da imprensa, o deputado, que normalmente se desloca para Brasília de avião, resolveu viajar de carro a partir de São Paulo. A certa altura do trajeto, ao ser fechado por um caminhão na Rodovia Anhangüera, sofreu um leve acidente. Saiu com um hematoma no olho. Desse acidente, porém, André Luiz passa bem.

 

TODOS SE ENCONTRAM NO RIO

 
Ricardo Leonin/Ag. O Globo
Uanderson Fernandes/Ag. O Dia/AEo
Garotinho (acima) e Silveirinha: há sempre um elo de ligação na política fluminense

Mais impressionante do que a sucessão de escândalos políticos que têm como palco o Rio de Janeiro é a forma como seus personagens acabam sempre tendo algum grau de relacionamento. É como na trama de uma novela: as histórias podem até não se cruzar, mas os personagens sempre acabam tendo algo em comum. Veja-se o caso das fitas reveladas agora. Nelas, surge a figura do deputado federal André Luiz, do PMDB, protagonista da história. Quando era deputado estadual, seu nome esteve ligado a outro caso rumoroso. Em 1999, diretores da Light, companhia de eletricidade do Estado, documentaram em fitas de vídeo o desenrolar de uma extorsão. Numa sala da empresa, um de seus funcionários recebia o vendedor Romeu Sufan, que se dizia assessor de André Luiz. Circulava inclusive com cartões de visita de seu gabinete. Na Assembléia Legislativa, era conhecida sua ligação com o deputado. Ali, em frente ao executivo da Light, Sufan prometia dar sumiço em autos de infração milionários aplicados por fiscais da Receita estadual. A participação de André Luiz no caso Light nunca foi comprovada, mas o histórico de coincidências não se encerra por aí.

Os fiscais a que Sufan se referia eram Carlos Eduardo Pereira Ramos e Rômulo Gonçalves. Vêm a ser dois dos expoentes do que ficou conhecido como o escândalo do propinoduto, em que pelo menos 33 milhões de dólares foram parar em contas na Suíça, em nome de funcionários das receitas federal e estadual. O esquema do propinoduto, descobriu-se, tinha como mentor o ex-subsecretário adjunto da Fazenda Rodrigo Silveirinha. Pois é a figura de Silveirinha que estabelece outra curiosa ligação. Na época em que foi flagrado com uma conta-corrente milionária na Suíça, o ex-subsecretário era um colaborador ativo do ex-governador Anthony Garotinho e de sua mulher, a governadora Rosinha. Chegou a fazer parte de um grupo seleto de assessores que freqüentou reuniões na casa do ex-governador, durante a campanha eleitoral de 2002. Que fique claro: não surgiu, até agora, prova da participação do ex-governador Garotinho no esquema do propinoduto.

Eis que surge, na casa da família de Garotinho, outro elo dessa história. O hoje deputado estadual Alessandro Calazans, do PV, conhecido pelos modos gentis e pela boa aparência, teve relativa proximidade com a família. Ficou muito amigo, apenas bons amigos, disseram na ocasião, da filha mais velha do casal, Clarissa Matheus, uma bela jovem, hoje com 22 anos. Era o início do governo de Garotinho e Calazans caiu no gosto do governador, que operou sua ascensão profissional. Calazans era suplente de uma vaga na Assembléia e, com a nomeação do titular para uma secretaria, virou deputado estadual. Desde então, é conhecida sua tendência a votar favoravelmente aos projetos de interesse do governo. Mesmo agora, em seu segundo mandato. Outro dos citados nas fitas por André Luiz, o senador Sérgio Cabral, do PMDB, também é um importante aliado político do ex-governador Garotinho. Mas coincidência maior é o fato de que, quando presidente da Assembléia Legislativa fluminense, Cabral tinha entre seus assessores a mulher de Silveirinha, Silvana. Como se vê, em algum momento eles todos acabam se encontrando. É a política fluminense, esta sim, que está cada vez mais perdida.

 
 
 
 
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