Edição 1878 . 3 de novembro de 2004

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Polícia Federal
O dia da caça

A Polícia Federal deflagra uma
operação contra a Kroll, que,
contratada pelo banqueiro Daniel
Dantas, pode ter espionado até
o ministro José Dirceu


Marcio Aith


Alexandre Campbell/Folha Imagem
Agentes da Polícia Federal apreendem documentos na sede do banco Opportunity, de Daniel Dantas: bem nesse dia, ele não foi trabalhar

A maior história de espionagem empresarial já vista no Brasil ganhou um novo capítulo na semana passada. Em uma ação batizada de Operação Chacal, a Polícia Federal (PF) prendeu cinco funcionários da empresa de investigação Kroll, multinacional americana acusada de usar métodos ilegais de busca de informações. Entre os presos está o diretor da filial brasileira da companhia, Eduardo Gomide. A ação da PF tem origem em uma briga entre duas empresas que pode ser assim resumida: uma, italiana, desembarca no Brasil disposta a investir um caminhão de dinheiro no apetitoso mercado de telefonia. Outra, brasileira, associada a grupos estrangeiros e a gigantescos fundos de pensão, junta-se a ela na compra de um negócio milionário do setor. Tudo vai bem, até que as partes começam a se desentender. A parceria desanda de vez quando os italianos resolvem, de comum acordo com os brasileiros, suspender a sociedade temporariamente e retomá-la mais tarde – mas, no retorno, são barrados pelos sócios nacionais. Assim teve início a fase atômica da guerra que vem sendo travada desde 2000 entre a Telecom Italia e o grupo Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas, pelo controle da Brasil Telecom. A briga, em que faltam mocinhos e sobram vilões, esquentou há três meses. A Kroll, contratada pela Brasil Telecom dominada por Dantas, foi acusada de usar métodos ilícitos numa investigação que teria como objetivo levantar informações comprometedoras sobre a Telecom Italia. Os indícios de que a empresa de investigação vinha agindo à margem da lei foram reforçados à Polícia Federal pela própria Telecom Italia. A empresa entregou à PF uma pilha de 4.000 documentos que indicam que a Kroll grampeara telefones e interceptara e-mails ilegalmente. Como a Telecom Italia conseguiu esses documentos ninguém sabe. A empresa, candidamente, diz que eles chegaram por meio de um denunciante anônimo. Entre os investigados da Kroll estão, segundo esses documentos, autoridades do governo federal, como o ministro da Secretaria de Comunicação, Luiz Gushiken, e o presidente do Banco do Brasil, Cássio Casseb. Foi nesse ponto que a investigação da PF esquentou.


Ana Araujo
Aparelhos achados na Kroll: a PF diz que eles servem para escuta ilegal, a empresa nega

A operação que dela resultou foi desencadeada na quarta-feira passada em três Estados e no Distrito Federal. Inicialmente, deveria resumir-se ao cumprimento de dezesseis mandados de busca e apreensão. Na mira da PF estavam computadores e documentos que poderiam conter informações que confirmassem as suspeitas de ilegalidade nas ações da Kroll. Ao escancararem as portas do escritório carioca da empresa de investigação, no entanto, os policiais depararam com equipamentos supostamente destinados ao grampo telefônico. Diante disso, solicitaram autorização judicial para prender os cinco funcionários da empresa em flagrante. A Kroll alega que os equipamentos se destinavam a detectar grampos (uma prática legal), e não instalá-los (o que configura crime). A PF diz que a Kroll mente e que os equipamentos servem, sim, também, para escuta – a questão agora é provar que eles foram usados com esse objetivo. É possível que a Kroll esteja dizendo a verdade e que os equipamentos, pelo menos os que foram apreendidos, tenham o propósito de apenas interceptar grampos. Até porque seria no mínimo uma burrice que uma empresa especializada em investigação, sabendo-se vigiada pela polícia, deixasse à mostra provas de um crime. O fato é que, independentemente do que se esclareça a respeito do equipamento apreendido, a Kroll executou, sim, grampos ilegais. Em conversas telefônicas monitoradas pela PF com autorização judicial, Tiago Verdial, o "espião português" da Kroll, explica a um interlocutor como conseguia quebrar o sigilo telefônico de seus investigados. Conversas entre Verdial e seu chefe, o inglês que se apresenta como William Goodall, mostram também que fontes policiais e da Receita Federal foram pagas pela Kroll para facilitar o acesso da empresa a informações sigilosas de seus investigados. A PF já sabe que até dados da declaração de renda de Cássio Casseb, por exemplo, foram parar nos arquivos da Kroll. O ex-sócio de Daniel Dantas no Opportunity, Luiz Roberto Demarco, também foi grampeado pela empresa.

Entre as autoridades do governo federal vítimas dos espiões da Kroll, podem estar outras, além de Casseb e Gushiken. Os documentos repassados à Polícia Federal pela Telecom Italia incluem um e-mail que a PF atribui ao jornalista Leonardo Attuch, da revista IstoÉ Dinheiro. A mensagem foi enviada em setembro para Charles Carr, chefe do escritório da Kroll em Londres. Nela, o remetente, que se identifica por meio do pseudônimo "Silvio Berlusconi", comenta em tom de intimidade uma reportagem que havia feito sobre a empresa italiana Tecnosistemi, ligada ao grupo Tim e envolvida em denúncias de falência fraudulenta (na edição datada de 14 de julho deste ano, a revista IstoÉ Dinheiro saiu com uma reportagem sobre o assunto, assinada por Attuch). No fim da mensagem, o remetente afirma que gostaria de ter acesso "à informação que você tem sobre o Dirceu". Conclui dizendo: "Tenho certeza de que renderia uma grande reportagem". Um dos delegados envolvidos na operação diz que, ao menos por enquanto, a PF não pode assegurar que se trata do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, nem mesmo que o e-mail é verdadeiro. A mensagem atribuída a Attuch foi repassada por Carr para Omer Erginsoy, gerente-geral da Kroll em Londres. Contatado por VEJA, Erginsoy recusou-se a dizer se o Dirceu do texto é o ministro José Dirceu: "Não nego nem confirmo".

A PF pediu – e teve recusadas pela Justiça – as prisões temporárias de Daniel Dantas e Carla Cico, presidente da Brasil Telecom e suspeita de ser, juntamente com Dantas, responsável pela contratação da Kroll. Curiosamente, no dia da operação policial, Dantas, conhecido por seus hábitos metódicos, que incluem o costume de chegar sempre bem cedo ao escritório, não estava lá às 9h30, quando a PF chegou. Também não estava em casa. Nas duas horas em que os policiais permaneceram na sede do Opportunity, Dantas telefonou várias vezes para o local, especialmente preocupado com a possibilidade de a PF apreender o disco rígido dos computadores do banco. Por determinação judicial, os policiais fizeram cópias dos arquivos. Essa confusão não deve terminar tão cedo.

 

Com reportagem de André Rizek,
Ronaldo França e Cynara Menezes

 

"Gênio do mal"

Lucila Soares e Monica Weinberg


Otavio Magalhães/AE
Daniel Dantas, dono do Opportunity: no limite da legalidade

O economista baiano Daniel Dantas acostumou-se desde cedo a ser apontado como gênio. Partilharam dessa opinião a seu respeito o ex-ministro Mario Henrique Simonsen, seu professor na Fundação Getúlio Vargas, e o ex-banqueiro Antônio Carlos de Almeida Braga, que na década de 80 confiou a administração financeira de sua fortuna a Dantas. Também seus colegas na corretora Triplic, onde trabalhou no início da carreira (quando ainda usava rabo-de-cavalo e bolsa a tiracolo), espantavam-se com seu talento, que lhe rendeu o apelido de "professor Gavião, o gênio do mal". Era só uma brincadeira de jovens, mas já caracterizava um estilo marcado pelo hábito de "agir na fronteira", na definição do próprio Dantas. A expressão traduz uma ousadia que, segundo amigos, é capaz de levar o banqueiro a atuar freqüentemente no limite da legalidade. Foi com esse tipo de ação, aliada a um inquestionável talento financeiro, que Dantas fez do Opportunity, criado em 1994, uma potência que administra fundos de investimentos no valor de 3,2 bilhões de dólares e participa de setores tão diversos como telecomunicações, portos, saneamento, metrô, internet e futebol (veja quadro).

Em sua escalada, Dantas conquistou parceiros entre pesos pesados da economia, como o Citibank, ao qual se associou em 1997 na administradora de fundos CVC/Opportunity para participar dos leilões de privatização. Com as mesmas armas, atraiu sócios estrangeiros e os poderosos fundos de pensão brasileiros para entrar pesado no meganegócio da telefonia. De dois anos para cá, Dantas caiu em isolamento. Os fundos de pensão romperam com o CVC/Opportunity, os sócios canadenses deixaram a Telemig Celular e os sócios italianos entraram na briga pelo controle da Brasil Telecom, que resultou no escândalo da Kroll e no que pode ser o primeiro revés grave da carreira do banqueiro. As brigas que comprou ao longo dos anos no mundo financeiro têm, basicamente, o mesmo pano de fundo: sua incrível capacidade de montar estruturas acionárias que lhe dão um poder desproporcional à sua participação. O resultado é que Dantas entra com pouco ou nenhum dinheiro e acaba mandando muito mais do que quem fez o investimento pesado. Foi assim com os fundos de pensão, na Brasil Telecom. Eles pagaram 1 000 reais por ação sem direito a voto. Na mesma ocasião, uma empresa controlada pelo pai de Dantas, que pagou 1 real por ação com direito a voto, ficou com 62% da companhia.

Aos 49 anos, filho de uma tradicional família de Salvador e com um currículo envernizado pelo mestrado na Fundação Getúlio Vargas e pelo doutorado no Massachussets Institute of Technology (MIT), Dantas tem hábitos opostos aos cultivados pelo estereótipo do empresário rico, bonito e bem-sucedido. Não possui ilha em Angra dos Reis, não freqüenta festas, detesta aparecer e está casado há mais de vinte anos com Maria Alice, com quem tem uma filha e mora em uma cobertura em frente à Praia de Ipanema. Orgulha-se de não ter nenhum hobby e gosta mesmo é de ficar enfurnado na sede do Opportunity, no centro do Rio, das 8h à meia-noite. No banco, Dantas é conhecido como Darth Vader, o cruel personagem do filme Guerra nas Estrelas. Seu método de gestão, contam ex-colegas, inclui descomposturas em público e gestos como o de destinar uma cadeira vermelha ao funcionário cujo desempenho considera crítico. Ao mesmo tempo, afirmam amigos, sabe seduzir platéias usando de raciocínio rápido e citações tiradas de livros e palestras do americano Warren Buffet, magnata das finanças a quem admira, mas nem sempre dá o crédito.

Na política, tem no senador Antônio Carlos Magalhães um de seus padrinhos. Chegou até a ser cotado para ministro da Fazenda do governo de Fernando Collor de Mello. Na gestão de Fernando Henrique Cardoso, ganhou prestígio por sua participação no processo de privatização. Com o PT, tentou uma aproximação em setembro de 2002 durante a campanha presidencial de Lula, mas não teve sucesso. Comenta-se que a relação com o PT azedou porque, na mesma época, Dantas teria tido um encontro no Planalto com FHC para fazer um relato sobre os fundos de pensão e, com isso, irritado políticos da cúpula petista como o atual ministro Luiz Gushiken, especialista no assunto. O fato é que, no atual governo, a relação do empresário com os fundos de pensão, que já não andava boa, deteriorou de vez.

Segundo apontam tanto aliados como desafetos, Dantas tem frieza e boa capacidade de manter o controle em situações de crise. Quem já circulou em sua esfera mais íntima diz que jamais o viu perto de derramar uma lágrima. Dantas detesta ser flagrado em situação de fraqueza. É visto por seus vários opositores como um criador de casos. Seus assessores preferem outra definição: "Ele tem pela briga o gosto de quem sabe brigar", diz um deles. Diante das inúmeras contendas em que o banqueiro se envolveu nos últimos anos, mesmo alguns de seus colaboradores mais próximos começam a expressar o desejo de que o chefe aja com um pouco mais de prudência. O receio de que a repercussão do escândalo Kroll tenha reflexos nos negócios do Opportunity é um dos motivos da preocupação.

 

 
 
 
 
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