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Polícia Federal
O dia da caça
A Polícia Federal deflagra uma
operação contra a Kroll, que,
contratada pelo banqueiro Daniel
Dantas, pode ter espionado até
o ministro José Dirceu

Marcio Aith
Alexandre Campbell/Folha Imagem
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| Agentes da Polícia Federal apreendem
documentos na sede do banco Opportunity, de Daniel Dantas: bem
nesse dia, ele não foi trabalhar |
A maior história de espionagem empresarial
já vista no Brasil ganhou um novo capítulo na semana
passada. Em uma ação batizada de Operação
Chacal, a Polícia Federal (PF) prendeu cinco funcionários
da empresa de investigação Kroll, multinacional americana
acusada de usar métodos ilegais de busca de informações.
Entre os presos está o diretor da filial brasileira da companhia,
Eduardo Gomide. A ação da PF tem origem em uma briga
entre duas empresas que pode ser assim resumida: uma, italiana,
desembarca no Brasil disposta a investir um caminhão de dinheiro
no apetitoso mercado de telefonia. Outra, brasileira, associada
a grupos estrangeiros e a gigantescos fundos de pensão, junta-se
a ela na compra de um negócio milionário do setor.
Tudo vai bem, até que as partes começam a se desentender.
A parceria desanda de vez quando os italianos resolvem, de comum
acordo com os brasileiros, suspender a sociedade temporariamente
e retomá-la mais tarde mas, no retorno, são
barrados pelos sócios nacionais. Assim teve início
a fase atômica da guerra que vem sendo travada desde 2000
entre a Telecom Italia e o grupo Opportunity, do banqueiro Daniel
Dantas, pelo controle da Brasil Telecom. A briga, em que faltam
mocinhos e sobram vilões, esquentou há três
meses. A Kroll, contratada pela Brasil Telecom dominada por Dantas,
foi acusada de usar métodos ilícitos numa investigação
que teria como objetivo levantar informações comprometedoras
sobre a Telecom Italia. Os indícios de que a empresa de investigação
vinha agindo à margem da lei foram reforçados à
Polícia Federal pela própria Telecom Italia. A empresa
entregou à PF uma pilha de 4.000
documentos que indicam que a Kroll grampeara telefones e interceptara
e-mails ilegalmente. Como a Telecom Italia conseguiu esses documentos
ninguém sabe. A empresa, candidamente, diz que eles chegaram
por meio de um denunciante anônimo. Entre os investigados
da Kroll estão, segundo esses documentos, autoridades do
governo federal, como o ministro da Secretaria de Comunicação,
Luiz Gushiken, e o presidente do Banco do Brasil, Cássio
Casseb. Foi nesse ponto que a investigação da PF esquentou.
Ana Araujo
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| Aparelhos achados na Kroll: a PF diz que eles
servem para escuta ilegal, a empresa nega |
A operação que dela resultou
foi desencadeada na quarta-feira passada em três Estados e
no Distrito Federal. Inicialmente, deveria resumir-se ao cumprimento
de dezesseis mandados de busca e apreensão. Na mira da PF
estavam computadores e documentos que poderiam conter informações
que confirmassem as suspeitas de ilegalidade nas ações
da Kroll. Ao escancararem as portas do escritório carioca
da empresa de investigação, no entanto, os policiais
depararam com equipamentos supostamente destinados ao grampo telefônico.
Diante disso, solicitaram autorização judicial para
prender os cinco funcionários da empresa em flagrante. A
Kroll alega que os equipamentos se destinavam a detectar grampos
(uma prática legal), e não instalá-los (o que
configura crime). A PF diz que a Kroll mente e que os equipamentos
servem, sim, também, para escuta a questão
agora é provar que eles foram usados com esse objetivo. É
possível que a Kroll esteja dizendo a verdade e que os equipamentos,
pelo menos os que foram apreendidos, tenham o propósito de
apenas interceptar grampos. Até porque seria no mínimo
uma burrice que uma empresa especializada em investigação,
sabendo-se vigiada pela polícia, deixasse à mostra
provas de um crime. O fato é que, independentemente do que
se esclareça a respeito do equipamento apreendido, a Kroll
executou, sim, grampos ilegais. Em conversas telefônicas monitoradas
pela PF com autorização judicial, Tiago Verdial, o
"espião português" da Kroll, explica a um interlocutor
como conseguia quebrar o sigilo telefônico de seus investigados.
Conversas entre Verdial e seu chefe, o inglês que se apresenta
como William Goodall, mostram também que fontes policiais
e da Receita Federal foram pagas pela Kroll para facilitar o acesso
da empresa a informações sigilosas de seus investigados.
A PF já sabe que até dados da declaração
de renda de Cássio Casseb, por exemplo, foram parar nos arquivos
da Kroll. O ex-sócio de Daniel Dantas no Opportunity, Luiz
Roberto Demarco, também foi grampeado pela empresa.
Entre as autoridades do governo federal vítimas
dos espiões da Kroll, podem estar outras, além de
Casseb e Gushiken. Os documentos repassados à Polícia
Federal pela Telecom Italia incluem um e-mail que a PF atribui ao
jornalista Leonardo Attuch, da revista IstoÉ Dinheiro.
A mensagem foi enviada em setembro para Charles Carr, chefe do escritório
da Kroll em Londres. Nela, o remetente, que se identifica por meio
do pseudônimo "Silvio Berlusconi", comenta em tom de intimidade
uma reportagem que havia feito sobre a empresa italiana Tecnosistemi,
ligada ao grupo Tim e envolvida em denúncias de falência
fraudulenta (na edição datada de 14 de julho deste
ano, a revista IstoÉ Dinheiro saiu com uma reportagem
sobre o assunto, assinada por Attuch). No fim da mensagem, o remetente
afirma que gostaria de ter acesso "à informação
que você tem sobre o Dirceu". Conclui dizendo: "Tenho certeza
de que renderia uma grande reportagem". Um dos delegados envolvidos
na operação diz que, ao menos por enquanto, a PF não
pode assegurar que se trata do ministro-chefe da Casa Civil, José
Dirceu, nem mesmo que o e-mail é verdadeiro. A mensagem atribuída
a Attuch foi repassada por Carr para Omer Erginsoy, gerente-geral
da Kroll em Londres. Contatado por VEJA, Erginsoy recusou-se a dizer
se o Dirceu do texto é o ministro José Dirceu: "Não
nego nem confirmo".
A PF pediu e teve recusadas pela Justiça
as prisões temporárias de Daniel Dantas e Carla
Cico, presidente da Brasil Telecom e suspeita de ser, juntamente
com Dantas, responsável pela contratação da
Kroll. Curiosamente, no dia da operação policial,
Dantas, conhecido por seus hábitos metódicos, que
incluem o costume de chegar sempre bem cedo ao escritório,
não estava lá às 9h30, quando a PF chegou.
Também não estava em casa. Nas duas horas em que os
policiais permaneceram na sede do Opportunity, Dantas telefonou
várias vezes para o local, especialmente preocupado com a
possibilidade de a PF apreender o disco rígido dos computadores
do banco. Por determinação judicial, os policiais
fizeram cópias dos arquivos. Essa confusão não
deve terminar tão cedo.
Com
reportagem de André Rizek,
Ronaldo França e Cynara Menezes
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"Gênio do mal"
Lucila Soares e Monica Weinberg
Otavio Magalhães/AE
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| Daniel Dantas, dono do Opportunity:
no limite da legalidade |
O economista baiano Daniel Dantas
acostumou-se desde cedo a ser apontado como gênio.
Partilharam dessa opinião a seu respeito o ex-ministro
Mario Henrique Simonsen, seu professor na Fundação
Getúlio Vargas, e o ex-banqueiro Antônio
Carlos de Almeida Braga, que na década de 80
confiou a administração financeira de
sua fortuna a Dantas. Também seus colegas na
corretora Triplic, onde trabalhou no início da
carreira (quando ainda usava rabo-de-cavalo e bolsa
a tiracolo), espantavam-se com seu talento, que lhe
rendeu o apelido de "professor Gavião, o gênio
do mal". Era só uma brincadeira de jovens, mas
já caracterizava um estilo marcado pelo hábito
de "agir na fronteira", na definição do
próprio Dantas. A expressão traduz uma
ousadia que, segundo amigos, é capaz de levar
o banqueiro a atuar freqüentemente no limite da
legalidade. Foi com esse tipo de ação,
aliada a um inquestionável talento financeiro,
que Dantas fez do Opportunity, criado em 1994, uma potência
que administra fundos de investimentos no valor de 3,2
bilhões de dólares e participa de setores
tão diversos como telecomunicações,
portos, saneamento, metrô, internet e futebol
(veja quadro).
Em sua escalada, Dantas conquistou
parceiros entre pesos pesados da economia, como o Citibank,
ao qual se associou em 1997 na administradora de fundos
CVC/Opportunity para participar dos leilões de
privatização. Com as mesmas armas, atraiu
sócios estrangeiros e os poderosos fundos de
pensão brasileiros para entrar pesado no meganegócio
da telefonia. De dois anos para cá, Dantas caiu
em isolamento. Os fundos de pensão romperam com
o CVC/Opportunity, os sócios canadenses deixaram
a Telemig Celular e os sócios italianos entraram
na briga pelo controle da Brasil Telecom, que resultou
no escândalo da Kroll e no que pode ser o primeiro
revés grave da carreira do banqueiro. As brigas
que comprou ao longo dos anos no mundo financeiro têm,
basicamente, o mesmo pano de fundo: sua incrível
capacidade de montar estruturas acionárias que
lhe dão um poder desproporcional à sua
participação. O resultado é que
Dantas entra com pouco ou nenhum dinheiro e acaba mandando
muito mais do que quem fez o investimento pesado. Foi
assim com os fundos de pensão, na Brasil Telecom.
Eles pagaram 1 000 reais por ação sem
direito a voto. Na mesma ocasião, uma empresa
controlada pelo pai de Dantas, que pagou 1 real por
ação com direito a voto, ficou com 62%
da companhia.
Aos 49 anos, filho de uma tradicional
família de Salvador e com um currículo
envernizado pelo mestrado na Fundação
Getúlio Vargas e pelo doutorado no Massachussets
Institute of Technology (MIT), Dantas tem hábitos
opostos aos cultivados pelo estereótipo do empresário
rico, bonito e bem-sucedido. Não possui ilha
em Angra dos Reis, não freqüenta festas,
detesta aparecer e está casado há mais
de vinte anos com Maria Alice, com quem tem uma filha
e mora em uma cobertura em frente à Praia de
Ipanema. Orgulha-se de não ter nenhum hobby e
gosta mesmo é de ficar enfurnado na sede do Opportunity,
no centro do Rio, das 8h à meia-noite. No banco,
Dantas é conhecido como Darth Vader, o cruel
personagem do filme Guerra nas Estrelas. Seu
método de gestão, contam ex-colegas, inclui
descomposturas em público e gestos como o de
destinar uma cadeira vermelha ao funcionário
cujo desempenho considera crítico. Ao mesmo tempo,
afirmam amigos, sabe seduzir platéias usando
de raciocínio rápido e citações
tiradas de livros e palestras do americano Warren Buffet,
magnata das finanças a quem admira, mas nem sempre
dá o crédito.
Na política, tem no senador
Antônio Carlos Magalhães um de seus padrinhos.
Chegou até a ser cotado para ministro da Fazenda
do governo de Fernando Collor de Mello. Na gestão
de Fernando Henrique Cardoso, ganhou prestígio
por sua participação no processo de privatização.
Com o PT, tentou uma aproximação em setembro
de 2002 durante a campanha presidencial de Lula, mas
não teve sucesso. Comenta-se que a relação
com o PT azedou porque, na mesma época, Dantas
teria tido um encontro no Planalto com FHC para fazer
um relato sobre os fundos de pensão e, com isso,
irritado políticos da cúpula petista como
o atual ministro Luiz Gushiken, especialista no assunto.
O fato é que, no atual governo, a relação
do empresário com os fundos de pensão,
que já não andava boa, deteriorou de vez.
Segundo apontam tanto aliados
como desafetos, Dantas tem frieza e boa capacidade de
manter o controle em situações de crise.
Quem já circulou em sua esfera mais íntima
diz que jamais o viu perto de derramar uma lágrima.
Dantas detesta ser flagrado em situação
de fraqueza. É visto por seus vários opositores
como um criador de casos. Seus assessores preferem outra
definição: "Ele tem pela briga o gosto
de quem sabe brigar", diz um deles. Diante das inúmeras
contendas em que o banqueiro se envolveu nos últimos
anos, mesmo alguns de seus colaboradores mais próximos
começam a expressar o desejo de que o chefe aja
com um pouco mais de prudência. O receio de que
a repercussão do escândalo Kroll tenha
reflexos nos negócios do Opportunity é
um dos motivos da preocupação.
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