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Edição 2076

3 de setembro de 2008
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Cinema
Um diretor infernal

Em Hellboy II, o mexicano Guillermo del Toro alimenta
o que poderia ser uma mera fantasia com sua
imaginação exuberante e cheia de mistérios


Isabela Boscov


Fotos Divulgação e Getty Images

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Com seu talento e imaginação transbordantes, o mexicano Guillermo del Toro é uma criatura quase tão singular quanto os seres estranhíssimos que povoam seus filmes: é um diretor, primeiro, que guarda dentro de si um universo próprio, o que é marca quase que indispensável dos verdadeiramente grandes, de Fritz Lang a Ingmar Bergman ou Martin Scorsese; e é também alguém que sabe, como esses, desdobrar seu universo em registros diversos. Ou, em outras palavras, vê-lo e mostrá-lo por prismas variados. Cronos, que rodou no início de carreira, era um filme de terror sobre o desespero e o vazio de ser imortal; A Espinha do Diabo, de 2001, era um drama, eivado de tons sobrenaturais, sobre como a Guerra Civil impôs aos espanhóis uma não-existência fantasmagórica; Hellboy, feito três anos depois, era uma adaptação de um quadrinho na qual não faltava humor, mas que percorria grandes distâncias na argumentação de que bem e mal são escolhas, e não destino (o personagem-título é um demônio invocado pelos nazistas, mas que elege combater as trevas); e o magnífico O Labirinto do Fauno, de 2006, acompanhava uma menina que tentava, por meio de um mergulho na fantasia, suportar e dominar o horror do fascismo. Sobre todos esses filmes pairam tanto a angústia cristã da vida – ou não – após a morte quanto uma visão muito católica da necessidade do sacrifício (embora não seja religioso, Del Toro amargou a criação por uma avó fanática, que ainda o assombra). E são esses os temas que o diretor avança em Hellboy II – O Exército Dourado (Hellboy II: The Golden Army, Estados Unidos/Alemanha, 2008), que estréia nesta sexta-feira no país. Não por meio do enredo, que trilha caminhos palmilhados já à exaustão pelo gênero, mas pela maneira exuberante e exaltada como o encena.

Nesta continuação, um mundo subterrâneo tenta se reerguer para aniquilar o mundo visível. Em uma seqüência estupenda em animação com figuras de madeira (e que lembra muito, nas suas tintas trágicas, a seqüência feita à maneira de uma lanterna mágica com que Francis Ford Coppola explicava por que o Conde Vlad virara Drácula), Del Toro mostra como, em tempos imemoriais, uma guerra prolongada entre elfos e seres humanos terminou com uma trégua: o Rei Balor guardou para sempre seu invencível exército de máquinas douradas e recolheu sua espécie em alguma outra dimensão, deixando a terra para os homens. Uma coroa foi quebrada e dividida entre os oponentes, para que nenhum lado pudesse retomar sozinho o conflito. Não, porém, com a anuência do príncipe Nuada, o herdeiro de Balor, que odeia os homens e a destruição e a feiúra de que eles são capazes. Algo acontece então no presente que dará a Nuada a chance de levar seus planos a cabo; e caberá a Hellboy (Ron Perlman), sua namorada, Liz (a adorável Selma Blair), e seu amigo Abe Sapien (um poético homem-peixe interpretado por Doug Jones) frustrar esses planos. Ou seja, o de praxe – não fosse o sentido de drama do diretor e sua criatividade tão copiosa.

Nas mãos de Del Toro, esse enredo dá margem a um lamento sobre como a prevalência de um mundo obriga ao desaparecimento de outro – um tema clássico que aqui é explorado na atuação inesperadamente repleta de presença, voz e habilidade física do pop star inglês Luke Goss, da dupla Bros, no papel de Nuada. Por meio da figura de Nuala (Anna Walton), a irmã gêmea de Nuada, ele serve de pretexto também para mais um comentário sobre resignação e sacrifício, e o preço terrível que cobram de quem se dispõe a eles. E, como sempre, isso tudo é a matriz sobre a qual o cineasta irá conjurar as imagens que o tantalizam: mecanismos de relógios, pessoas que são máquinas antiquadas, monstros que têm os olhos fora do rosto, criaturas que combinam a forma humana a elementos da natureza, seres vindos de tradições diversas do inferno. Da maneira como Del Toro as concebe, porém, elas nada têm de pueril ou inverossímil (e quem achar que isso é uma alfinetada em Star Wars não estará errado). As imagens de Del Toro, ao contrário, guardam todo o poder de símbolos primitivos e inconscientes, e o amplificam. Vai ser difícil esperar até 2011 para saber o que esse mexicano muito meigo e gentil, e de imaginação tão tumultuada e misteriosa, vai fazer da adaptação de O Hobbit, de J.R.R. Tolkien, que o neozelandês Peter Jackson confiou a ele.

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