Cinema
Um diretor infernal
Em Hellboy II,
o mexicano Guillermo del Toro alimenta
o que poderia ser uma mera fantasia com sua
imaginação exuberante e cheia de mistérios

Isabela Boscov
Fotos Divulgação
e Getty Images
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Com seu talento
e imaginação transbordantes, o mexicano Guillermo
del Toro é uma criatura quase tão singular quanto
os seres estranhíssimos que povoam seus filmes: é
um diretor, primeiro, que guarda dentro de si um universo
próprio, o que é marca quase que indispensável
dos verdadeiramente grandes, de Fritz Lang a Ingmar Bergman
ou Martin Scorsese; e é também alguém
que sabe, como esses, desdobrar seu universo em registros
diversos. Ou, em outras palavras, vê-lo e mostrá-lo
por prismas variados. Cronos, que rodou no início
de carreira, era um filme de terror sobre o desespero e o
vazio de ser imortal; A Espinha do Diabo, de 2001,
era um drama, eivado de tons sobrenaturais, sobre como a Guerra
Civil impôs aos espanhóis uma não-existência
fantasmagórica; Hellboy, feito três anos
depois, era uma adaptação de um quadrinho na
qual não faltava humor, mas que percorria grandes distâncias
na argumentação de que bem e mal são
escolhas, e não destino (o personagem-título
é um demônio invocado pelos nazistas, mas que
elege combater as trevas); e o magnífico O Labirinto
do Fauno, de 2006, acompanhava uma menina que tentava,
por meio de um mergulho na fantasia, suportar e dominar o
horror do fascismo. Sobre todos esses filmes pairam tanto
a angústia cristã da vida ou não
após a morte quanto uma visão muito católica
da necessidade do sacrifício (embora não seja
religioso, Del Toro amargou a criação por uma
avó fanática, que ainda o assombra). E são
esses os temas que o diretor avança em Hellboy
II O Exército Dourado (Hellboy II:
The Golden Army, Estados Unidos/Alemanha, 2008), que estréia
nesta sexta-feira no país. Não por meio do enredo,
que trilha caminhos palmilhados já à exaustão
pelo gênero, mas pela maneira exuberante e exaltada
como o encena.
Nesta continuação,
um mundo subterrâneo tenta se reerguer para aniquilar
o mundo visível. Em uma seqüência estupenda
em animação com figuras de madeira (e que lembra
muito, nas suas tintas trágicas, a seqüência
feita à maneira de uma lanterna mágica com que
Francis Ford Coppola explicava por que o Conde Vlad virara
Drácula), Del Toro mostra como, em tempos imemoriais,
uma guerra prolongada entre elfos e seres humanos terminou
com uma trégua: o Rei Balor guardou para sempre seu
invencível exército de máquinas douradas
e recolheu sua espécie em alguma outra dimensão,
deixando a terra para os homens. Uma coroa foi quebrada e
dividida entre os oponentes, para que nenhum lado pudesse
retomar sozinho o conflito. Não, porém, com
a anuência do príncipe Nuada, o herdeiro de Balor,
que odeia os homens e a destruição e a feiúra
de que eles são capazes. Algo acontece então
no presente que dará a Nuada a chance de levar seus
planos a cabo; e caberá a Hellboy (Ron Perlman), sua
namorada, Liz (a adorável Selma Blair), e seu amigo
Abe Sapien (um poético homem-peixe interpretado por
Doug Jones) frustrar esses planos. Ou seja, o de praxe
não fosse o sentido de drama do diretor e sua criatividade
tão copiosa.
Nas mãos
de Del Toro, esse enredo dá margem a um lamento sobre
como a prevalência de um mundo obriga ao desaparecimento
de outro um tema clássico que aqui é
explorado na atuação inesperadamente repleta
de presença, voz e habilidade física do pop
star inglês Luke Goss, da dupla Bros, no papel de Nuada.
Por meio da figura de Nuala (Anna Walton), a irmã gêmea
de Nuada, ele serve de pretexto também para mais um
comentário sobre resignação e sacrifício,
e o preço terrível que cobram de quem se dispõe
a eles. E, como sempre, isso tudo é a matriz sobre
a qual o cineasta irá conjurar as imagens que o tantalizam:
mecanismos de relógios, pessoas que são máquinas
antiquadas, monstros que têm os olhos fora do rosto,
criaturas que combinam a forma humana a elementos da natureza,
seres vindos de tradições diversas do inferno.
Da maneira como Del Toro as concebe, porém, elas nada
têm de pueril ou inverossímil (e quem achar que
isso é uma alfinetada em Star Wars não
estará errado). As imagens de Del Toro, ao contrário,
guardam todo o poder de símbolos primitivos e inconscientes,
e o amplificam. Vai ser difícil esperar até
2011 para saber o que esse mexicano muito meigo e gentil,
e de imaginação tão tumultuada e misteriosa,
vai fazer da adaptação de O Hobbit, de
J.R.R. Tolkien, que o neozelandês Peter Jackson confiou
a ele.
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GUILLERMO DEL
TORO 10 X 0 GEORGE LUCAS
Em matéria
de gente esquisita, o cineasta
mexicano ganha de lavada do criador de Star Wars
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TURMA
DA PESADA
O Rei Balor,
o Anjo da Morte, o Cabeça-de-Catedral e
Chamberlain, de Hellboy II: em uma briga,
é melhor apostar neles, e não em
Jar Jar Binks ou Jabba the Hutt
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O diretor de O
Labirinto do Fauno e da série Hellboy é
conhecido pelas criaturas fantásticas que concebe
a partir de referências mitológicas, religiosas
e da sua própria imaginação, que
poderia ser definida como salutarmente doentia
e não febrilmente infantil, como a de George
Lucas
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